25 dezembro, 2011

Never Let Me Go


«Deliver me»

Fecho os olhos e imagino-me aí. Imagino-te comigo, nesse lugar que já existe na minha cabeça.
Enquanto não vir nada, o tempo está parado. Dá-me um momento para fingir que não estou aqui, sozinha. Dá-me um pretexto para fugir ao assunto da distância, do tempo, do vento...Não estou de facto aqui até o sol chegar e me afogar na sua luz cristalina; até o sol me despertar para a realidade - estou presa e não posso sair, por agora.
O choque do contacto com a água fria acorda-me deste torpor imaginado (não estou lá nem cá, não estou viva nem morta), desta fantasia verdadeira que me deixa a meio caminho por qualquer direção que escolha. Não sou bem-vinda, não sou aceite, mas se tento em vão mudar o meu rumo, lá estão elas, as mãos que me prendem, as garras que me ferem até sangrar, impedindo-me de andar.
Capricho ou vontade firme. Ir ou voltar. Sempre em roda viva, giro em volta destas escolhas, à tua mercê, à espera que seja feita a tua vontade (apenas na terra). Mudo de opinião, mudo de escolha, mudo de pensamentos, mudo de papel, mudo de corpo. Acho que mudo por inteiro, dou voltas e voltas ao mundo, e quando finalmente paro para repousar, encontro-me no sítio onde estava. Sem saber. Sem agir. Sem me mover. Sem fala, por fim. Se consigo, por acaso, libertar-me e começar o caminho de volta, de novo me vejo rodeada pelas vossas sombras, pelos vossos olhares que me atormentam, que me incitam a voltar ao meu lugar. Que me assombram com recordações, palavras ou gestos, com promessas por cumprir...Aprisionada por uma eternidade, porque sim.

Observo os feixes de luz e pó que entram pela janela, que caminham pela abertura da alma: aqui a luz ocupa todo o ar que respiro, faz o tempo silenciar-se, leva tudo o que de mau há no mundo; não há outra vontade que comande a não ser a do sol, não há outra verdade que não a do momento. Aqui, neste momento, este é o futuro. Isto é tudo o que importa, tudo o que me deve interessar, é tudo o que há. Perco-me nos labirintos dos raios e imagino uma infinidade de opções, de riscos que não tomei, de riscos que podia ter tomado. Vejo as lágrimas que ficaram por chorar, vejo os risos que ainda estão por vir, vejo a esperança que será eventualmente recuperada. A escuridão nunca é eterna, nunca é definitiva, nunca será total, mesmo quando tudo parece perdido.

Eu não quero ficar aqui. Já não, pelo menos...Deixem-me ir, de uma vez; imploro-vos, rogo-vos que me ouçam...Eu não quero ficar. Deixem-me ir.

15 dezembro, 2011

Back to Black

«Mesmo enquanto lutava para manter a mortalha cinzenta em meu redor, [...] era como agarrar-me a pedaços de nuvens, que se esvaíam em névoa por entre os meus dedos. Eu podia sentir a luz a vir na minha direção...»

Vejo esta queimadura na minha mão e as lágrimas cessam. Estas marcas exteriores representam a história da minha vida, acompanham o que se passa no meu núcleo.
A luz intermitente e fraca brilha na escuridão do universo; ela já não representa o ideal de esperança que habitava em mim, ela já não encarna o que há de bom no mundo - a felicidade, a ingenuidade, o sonho, a magia. Os restos disso ficaram no corpo antigo.
O que me interessa por agora é o escuro que ilumina o meu caminho há algum tempo...o preto nem sempre é luto, nem sempre é dor. E isto, à semelhança da cor, não é tristeza nem tão pouco mágoa. É o vazio constante, é a dormência iminente que está sempre à espreita, decidida a instalar-se. As lágrimas afagam o ego, dão-lhe espaço para respirar; trazem alívio temporário que se converte numa paz exausta, cansada.
Mortifico a alma para que o corpo finja arrepender-se, revivo a agonia da lembrança só pelo facto de ter essa necessidade de sentir; afasto a luz esporádica que surge, tento manter a distância suave do calor, da alegria, dos que importam, porque sei que facilmente me tirariam deste poço onde me encontro, levando consigo a noite constante, dissipando-se.
Tenho de agarrar-me às trevas com todo o meu ser, devo permanecer neste inferno pessoal durante mais algum tempo, até já não ter essa vontade. É algo inato, indiferentemente útil e preciso para mim. É o que me mantém a salvo.
Os cortes, as feridas, as queimaduras...elas só representam a mudança forçada que me encheu - tiraram-me tudo o que tinha de melhor, a minha essência preciosa, o que me enchia de luz. O que valia a pena em mim. Não restou nada, roubaram o que não havia, o possível e o impossível. O puro, o são desapareceu, já não anda por aqui.
Chegaram as trevas, a luz apagou-se.

[Frase destacada: José Saramago]

02 dezembro, 2011

V Império (prólogo)

«Ó Portugal, hoje és nevoeiro...»

Ao ler os gloriosos feitos, ao reviver a História criada, eu acredito.
Ao redescobrir as minhas raízes e o meu orgulho extinto, eu acredito.
Ao imaginar como um dia este sítio foi uma nação de gente forte, eu suspiro de alívio...
Afinal, ainda nos corre no sangue o que em tempos guiou Portugal para o caminho certo, afinal ainda há esperança para o que se encontra desesperado; eu sei, no fundo da minha alma lusitana, que um dia voltarei a sorrir quando pronuncio o nome do meu berço; eu sei que um dia eu voltarei a orgulhar-me ao dizer que nasci no pequeno retângulo que acolheu heróis durante milénios.
Sinto, por vezes no ar, alguma névoa dos tempos áureos, dos tempos em que o tempo passava magnanimamente devagar, só para que os feitos dos meus egrégios avós pudessem ser enaltecidos. Para que pudessem ser falados para todo o sempre, de boca em boca, de geração em geração.
A essência ainda habita em mim. A certeza ainda me toma com um brilho nos olhos e esperança no gesto, de que um dia esse império renasça das cinzas; ele irá chegar...Aguardo.

To be continued...

23 novembro, 2011

Pulsação

Faltou-me um coração. Faltou-me a vontade de sentir.
Os trovões ecoaram no céu azul e trouxeram a desgraça consigo. Trouxeram o fim dos tempos, trouxeram o vento e a separação perpétua.
A chuva veio e alagou o que havia pelo chão, alagou as nossas vidas e pôs-nos a lutar contra a maré, contra todas as adversidades, um contra o outro.
A uma ínfima distância, consigo ainda sentir os impulsos elétricos que nos preenchem, que nos percorrem, o choque de não sentir a tua pele contra a minha. A carga positiva a atrair o seu oposto, do meu para o teu. O arrepio ingénuo que me faz querer ir a correr para ti.
Sinto-me violada...Sinto que todo o meu ser e o meu corpo e a minha mente me odeiam, por não ter feito nada. Por me ter deixado arrastar nesse trilho de lama que me guiou até este vazio onde os dias parecem nunca ser demasiado pequenos. Onde o tempo não passa, de todo. Tenho vontade de arrancar qualquer pedaço de mim que não faz cá falta, que apenas se encontra a mais; não sei se é dor física, não sei já o que é dor, mas este sangue não devia correr em mim.
Sangue do meu sangue, foi no sangue partilhado que nos unimos, primeiro tu, depois eu. O sabor levemente ácido do metal na minha boca, existências para sempre partilhadas.
O para sempre não existe, e contudo, podia jurar que esse momento vai viver para além de nós. Vai viver na minha memória, vai viver na tua, vai ficar marcado no tempo de nós. Há um ser que já não pertence a ninguém, mas que nos contém em si; é um ser que paira no ar, à nossa volta, sempre a causar danos irreparáveis em mim...É essa força invisível, mas imparável, que me puxa, inevitavelmente, para ti. É essa luz sombria que me atrai, que me guia pela escuridão até ver o teu rosto. Não sei com que energia (não restou nenhuma) me consigo manter afastada. A maré veio ajudar, porém, todas as células em mim lutam para não eclodir na tua direção, que me chama a todas as horas.
Algo de outro mundo, sobrenatural, que me impele para ti, algo que não sei nem quero explicar...Algo que é pura eletricidade, processos químicos que tu despoletas no meu corpo. É a vontade de caminhar até ferir os pés, até rastejar no mesmo sangue que tu provaste, só para sentir o toque quente da tua mão na minha.
Faltou-me um coração. Não me pertencia, era o teu.

11 novembro, 2011

01 novembro, 2011

The Little Things Give You Away

«Adão, inocentemente, admitiu que fora a sabedoria de Eva, e não a sua: "Ela deu-me o fruto da árvore, e eu comi."»

Alto, belo, despreocupado, e fundamentalmente, inocente de uma forma que não se pode fingir. Ingénuo de uma forma enternecedora, preciosa.
Cansado de não conseguir decifrar, cansado de não escolher um caminho, continuas nesse estado desassossegadamente intemporal onde vives rodeado de um turbilhão humano, que após palavras e gestos incansáveis, nunca pára. Nesse leito imortal e dourado tens à tua volta sentado o Amor, a Paixão, a Tentação, a Luxúria e o Desejo, todas as mulheres da tua vida. Lentamente, nessa dança irreal e doentia, vão-te asfixiando segundo a tua vontade, até as pequenas coisas te levarem para longe desse mundo.
O Amor representa em si tudo o que é importante sentir, viver. Contém em si a beleza da felicidade e a tristeza da desilusão, mas sem ele, estarias perdido. Ele é algo que, apesar de tudo, nunca mudará; ele não se altera, passando por metamorfoses várias, mas deixando sempre a sua essência a pairar no ar sobre ti.
Paixão, caprichosa e inconstante, desperta em ti a vontade de não saber o que se quer. Num instante amas, no outro odeias com uma calma intensamente natural, pelo simples facto de poderes ter o que queres. Mantida a uma distância sempre razoável, ela vai e volta consoante a tua vontade, e está sempre pronta a servir de fonte para a tua eterna sede de afeto.
Misteriosa, atrativa e sempre a uma distância segura para não ser apanhada (inalcançável), temos a tua Tentação. A voz que te sussurraria segredos condenáveis, se quisesse; voz que, onde quer que esteja, faz com que a tua cabeça se vire à sua procura, mesmo no meio do nevoeiro. A sensação geral é a de querer, é a de ter, embora saibas que não é real; é a sensação de querer possuir o que mais ninguém pode, é o desafogo de encontrar um corpo quente sempre disposto a ouvir, mas não a adorar. Ela que não finge, que não se rege pelas tuas leis, parecendo-te apetecível só porque não a podes ter.
A Luxúria que transpira exuberância, excesso, sensualidade para a tua vida, como uma brisa suave e inevitável que não queres recusar encaixa-se na perfeição na espiral levemente auto-destrutiva que é a tua vida. Respira confiança, a mesma que te faz desejá-la; respira simpatia e felicidade, qualidades que, como qualquer fragrância hipnotizante, servem para te atrair. Prende-te na sua teia intoxicante de aparência e, com o teu consentimento, não te deixa mais sair. Nunca mais.
No fim de tudo, independentemente do resto, o teu Desejo derradeiro conjuga-se na vontade de querer ter o que, acima de tudo, nunca será teu. O cobiçar de carne que após o toque se encontra fria como mármore, a que desperta o apetite voraz de desejar sempre mais, quando o nada é a única realidade que conheces. Passas assim metade da tua vida, a ansiar pelo dia em que a barreira do intocável se desvaneça, para poderes alcançar o teu paraíso.
Nesta atmosfera em que o tempo passa muito, muito lentamente, vês à tua volta uma grande parte do teu ser, imortalizado pelas sensações que tens e que nunca irás ter, pelos sentimentos que demonstras, e pelos que escondes no teu interior mais profundo.
E, ainda que sejam a causa da tua morte rápida ou indolor, nunca poderias deixar ir as cinco coisas que dão ânimo à tua vida, que te mantêm o coração a bater, dia após dia. Nunca poderias abdicar do que, no fundo, não é teu, embora estejas viciado a um nível quase impercetível. A necessidade é demasiada, o querer impõe-se demasiado alto. E assim continua o ciclo decadente que um dia acabará por te destruir.

«Por um só homem entrou o pecado no mundo»

30 outubro, 2011

"Into the wild"

«Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.»

28 outubro, 2011

Ruínas

Os pavimentos cansados veem-me chegar.
A brisa gelada corre debaixo de um sol caloroso e as folhas castanhas enchem a rua com um toque de harmonia silencioso.
O chão molhado que me viu crescer ecoa agora os meus passos lentos e cuidadosos. Há pequenos momentos que param o tempo - este é um deles. Não sei que dia é nem em que ano estou. Sei apenas o que sinto e nem isso é muito claro. Não vejo a vida, momentaneamente, pelo que ela é.
As divisões capturam uma luz minha diferente e à medida que percorro cada uma, o silêncio intensifica-se, esfumando-se; começa a esmagar-me vagamente, alimentando a solidão.
O vazio acalma-me, dá-me alento, dá-me uma paz desastrosamente necessária. No entanto, enche-me também de nada, dando-me tempo de ver os espaços em branco que não deviam existir. Dá-me o silêncio majestoso das lágrimas.
O veneno tem de soltar-se de alguma forma - a repulsa óbvia vive em mim, assombrando-me, fazendo sangrar o que temporariamente havia sarado. Faz-me querer rasgar os vestígios de ti, queimar-te da minha vida definitivamente.
A raiva, o ódio, a revolta, a tristeza, a mágoa, a alma dorida...Tudo se intensifica com a tua indesejada presença; tu destróis o meu contentamento esporádico. Tu és o que está mal na minha existência.
Os cortes são tão profundos, tão antigos, tão assustadores. A frustração é maligna, tão doentia, corrompe-me...Só quero que acabe.
Tento ver sentido nisto, tento encontrar razão nalguma coisa, de todo. Eles não aparecem, bem como o alívio.

Estrutura simples, útil, crucial. As paredes, o chão, o teto, não me dizem nada. Não significam nada e o nada toma conta daquilo a que chamo vida.

23 outubro, 2011

Alegria Líquida

Eternal Sunshine

Leves pontadas de alívio surgem, como estremecimentos que me fazem crer por segundos.
O terror dissipa-se e vislumbro um futuro onde há esperança; porque nem tudo é mau, achei que estes preciosos momentos, embora raros, devem ser preservados para a essência não se extinguir de todo.
Não está na minha natureza viver rodeada de trevas e escuridão, eu pertenço na luz do vento e na leveza da chuva; eu paro sempre na última estação - no acreditar. No não ter medo de achar que o impossível ainda acontece, e isso, excecionalmente, traz-me algo bom para recordar mais tarde.
Os tambores voltam à vida e por breves instantes, tudo está bem. Há paz e até um caminho de felicidade pouco nítido. Talvez mais tarde...

Senti que hoje merecia celebrar, não o que sobrou, mas o que irá regressar a mim. As coisas boas, as coisas que realmente interessam, as pessoas que fazem parte de mim. A vontade de voar, de sentir o ar a inundar-me de alegria, fazendo-me flutuar para longe. O querer imaginar fora das sombras; o lugar que consegue sempre relembrar-me do calor que só a derradeira casa nos fornece...A sensação de ser eu outra vez a tomar as decisões, e não a mágoa.

A esperança viveu hoje em mim e em vocês. O sentimento de fé foi curto, mas marcou a sua presença. Nem tudo está morto.

19 outubro, 2011

Hometown

«Round my hometown, memories are fresh»

Olhos tristes...Olhos tão profundamente tristes.
Olhos de avelã, que contêm muita mágoa afogada, refletida nesses dois lagos sombrios que fitam a lua, agora.
A ver as folhas graciosas a caírem até ao chão, a ver o vento ganhar vida para arrasar o medo e a solidão. O frio percorre-a como uma pequena lâmina que perfurou o coração há muito. O frio não cessa, por muito que ela se esconda.
As luzes velhas e gélidas da cidade presenciam o seu sofrimento esquecido, afundado com o que restou do seu sorriso. Elas não contam a ninguém, e ela sabe-o. Está a salvo.
Os espasmos de vazio esmagam-na, mas é a assustadora incapacidade de ajuda que lhe impede a respiração; que a destrói aos poucos.
É incrivelmente assustador como ninguém pode abafar o sentimento de tormento, ninguém pode acalmá-la, embalando-a num suave estado de paz. Ninguém, digam o que disserem. Só resta esperar, só resta pedir aos céus por algum calor, algo sólido para se agarrar.
Cinge-se com os abraços, tentando esquecer essa onda de pânico que a atinge como a morte - os sonhos para onde foram? A verdade destruída jaz aos seus pés, cansada de fingir ser algo que nunca poderá ser. O conforto interior que existia quando via uma tempestade iminente ainda se mantém, mas trémulo.
O piano soa bem perto. Traz consigo uma quase esperança que ajuda a passar o choque do momento, mas não dura uma lua cheia. Não dura o suficiente, nada é o suficiente. Reza com alento para que ele chegue, mas sabe-o melhor que ninguém...Ele não vem.
À luz frágil e sóbria dos candeeiros, ela chora e espera que o vento venha e leve os pequenos restos de sal para longe.

18 outubro, 2011

Believer

A fé é uma coisa estranha...

Agarro-me à dor. Foi o que sobrou.
O otimismo evaporou-se no fogo do meu olhar; posso tentar sentir algo que não isso, mas não consigo.
O ódio vem à superfície imediatamente, a raiva corre num rio contaminado, sem fim.
Penso que tenho de afastar a dor (talvez física), mas até essa me salva ocasionalmente. Foi o que me restou, moldou tudo consoante a sua passagem.
Os pulsos abertos deixam o sangue liberto, o sangue demasiado pesado, demasiadamente meu.
Olho outra vez e os cortes não estão lá. Sararam como milagre.
A queimadura interna permanece - agonia, horror, o caos - tudo me habita. Só isso ficou.
Arrependi-me dos meus pecados? Confessei a minha alma, purifiquei-me a tempo? Achei que sim. Mas a necrose ficou. A podridão engoliu a esperança embrulhando-me numa escuridão cancerosa; metamorfose tardia, enganosa, dolorosa. Os lábios sangram da força dos dentes, sem parar, até já não sangrarem.
Os cortes renascem onde já existiam, a mutilação é auto-preservativa. É um mecanismo tentador, familiar.
Ciclo vicioso que se aproxima, o abismo chama o meu nome como nunca o fez...Jamais tinha sentido esta capacidade de não conter a luta interior que me abala a todas as horas; o sentir que se encaixa pacificamente nos limites mínimos de sensibilidade; nada supera o pouco que sinto, com uma intensidade débil.
Em queda livre até à derradeira dor, até à não morte crucial, não conseguirei encontrar a génese do torpor. A pele arrancada, despida, as órbitas rasgadas, num banho de sangue que me devia ver (re)nascer.
Este viver tem tempo contado, não o questiono. Contudo, até lá, o meu corpo obriga-me a ir mais fundo; a aceitar a dádiva do sofrimento que se mistura com a loucura e, a certo ponto, com a sensação calmante do macabro - o corpo dorido, podre por dentro. Já não me reconheço no reflexo; demasiados danos, estragos irreparáveis. Acabada.
Algo me invade, não sei se é luz ou escuridão, mas não é, definitivamente, algo novo. Prazer culpado, rancor inacabado. Fim eminente.
O sangue escorre pelas paredes, mas eu estou inteira. Por agora?

14 outubro, 2011

03 outubro, 2011

Rise, Rose

-Está escuro aqui; tomara que amanheça.

-Com que sol? O nosso morreu.



Só quero. Só peço.
Nada me traz paz,
Nada me conforta.
Tudo fica igual e já
Não sou capaz de fingir.

Só queria que o mundo
Parasse; que o tempo não
Corresse mais.
A agonia não cessa e nada.
Nada me conforta.

Desisto de esquecer; páro de
Ignorar. A realidade magoa, mas
Ao menos destrói logo tudo.
Já não há vazio. Já não sobra
Espaço: foi tudo consumido.

Se rezar, nada acontece.
Se pedir, outra e outra vez, nada
Muda. Se implorar, o milagre não
Surge. O sonho morre. Nada.
Nada me conforta. Tormento.

Só quero, só peço...
Mas nada mudará.

27 setembro, 2011

Broken

Pediram-me para desenhar a tristeza.
Pediram-me para parar de fingir, pediram
Que esquecesse tudo, para conseguir chegar
Ao fundo, ao que realmente interessa.
Ao que está cá dentro a magoar-me.

Já a olhei nos olhos várias vezes, já a
Senti a encher-me como uma onda
Demasiado forte para ser travada.
Já me esfaqueou vezes sem conta, mas
Continuo sem saber como ela é.

Estranhamente, hoje vou obrigar-me.
Vou calar-me de vez para ouvir a minha
Dor. Ando a evitar o silêncio porque ele
Diz-me o que não quero ouvir. Nem saber.
Não vou cantar o mais alto possível...

Já ando a caminhar pelas paredes, já não
Reconheço neste sítio aquele conforto; como
Se nada me pudesse fazer mal aqui, como se
Nada me magoasse. É demasiado tarde, já nem
As paredes me servem. A mágoa está cá.

Os fantasmas chegam para me assombrar, mas
Na verdade, acho que nunca daqui saíram.
Estiveram sempre comigo, matando o muito pouco
Que ainda resta, milagrosamente. Olho à volta e
Nada sobrou. Nada antigo ainda reside por aqui.

Escutei o que está cá dentro e mesmo assim
Não arredei pé; fiquei, com arrependimento
E revolta, mas fiquei. Estou à procura daquele
Estado onde os sentimentos são crus e reais;
A vulnerabilidade da música, das lágrimas...
Do que sinto... Não posso fugir, estou estilhaçada

23 setembro, 2011

Equinócio

Adormeci antes do Verão chegar, acordei no Outono. Fui à janela e vi que algo indefinido paira no ar; um aroma que não cheiro, uma brisa que não sinto, uma nova luz que não vejo.
Tento pensar que algo está de facto mudado, diferente, para além de mim. Há quase um sentimento palpável de antecipação e incredulidade no ar.
Uma folha verde aterra levemente no meu parapeito e eu atrevo-me a sentir algo que não me atrevia a sentir há muito tempo - esperança. Nessa pequena folha, magoada pelo vento, vi a alegria de voltar a acreditar em algo, a vontade de deixar as minhas lágrimas a secar sob o sol que torra, mas não queima, imprimindo em mim um sentimento de calma acolhedora...
Tudo cá fora grita silêncio, revolução; inacreditável. As ruas mostram-se revolvidas, a confusão é geral e pacificamente caótica. O lixo preenche a paisagem como um sinal: o pior já passou.
Veio a guerra, veio a miséria e o ódio e tu sobreviveste; tu ainda aqui estás.
O ar encheu-se de qualquer coisa invisível que, sem eu dar conta, se apoderou de mim, deixando-me neste estado de agitação incontrolável (frenética). Senti uma segunda oportunidade a aproximar-se e decidi agarrá-la com toda a força que restou nos escombros caídos.
Mas como todas as bonanças ao longo da vida, esta quietude não veio para ficar. Rapidamente, antes que me acostumasse à paz, voltaram os pesadelos. Foi-se a alegria, voltou a revolta, o medo, a incapacidade de respirar, rodeada pelos estilhaços de conceitos ou ideias que nunca viveste.
Deram-me um pedaço do céu brilhantemente azul, só para agora, momentos passados, o tirarem. Sem céu nem sol, sem lua ou estrelas, nada me indica o caminho. Nada me dá luz...
Fiquei sem esperança de voltar a ver a felicidade que me encheu tão temporariamente que doeu; fiquei a saber que fui ingénua em acreditar que aqui podia voltar a luz da harmonia.
Adormeci antes do Verão para não sentir, para me adormecer, mas tudo acabou por me atingir à mesma; tudo acabou por me ferir, por me queimar até à minha essência mais primal. Tudo acabou por causar cortes maiores do que a minha capacidade de os sarar; golpes que me engoliram por inteiro.
Agora acordo no Outono à espera de algo que, como a maré, leve tudo embora.

31 agosto, 2011

Melodia


Há muito tempo atrás tive um sonho.
Quando sonhei, senti algo diferente
Senti que finalmente tudo fazia sentido;
Sonhei um sonho meu.
Este céu que jaz enterrado acima da
Minha cabeça encontra-se dividido.
Está preso entre escolhas, nem achado
Nem perdido. Está por aqui apenas.
Se fechar os olhos e sentir estas gotas
Claras e frias, percebo que me acalmam.
A chuva foi feita para mim, para eu existir;
O cheiro que paira no ar é quente, é puro,
É meu. É inevitável.

Há muito tempo atrás vivi uma história;
Ela não foi real, pareceu sonhada. Pareceu
Invenção de alguém assustado. Foi só um
Pretexto para manter aquela memória intacta.
Preservada para sempre dentro desta caixa.
Dentro deste cofre que carrego junto ao coração;
Já não sinto aquele sentimento indefinido, agora
É outro tipo de desconhecido; é algo novo.
E quando é novo, é bom. Significa que este chão
Por baixo dos meus pés cansados não vai ruir.
Respiro fundo, só por instantes... Já me é impossível
Definir o que quer que seja, já nem sei perceber
Sequer o me leva a agir. A continuar esta tarefa.

Há algum tempo atrás um homem ensinou-me
A voar, disse-me tudo o que precisava de saber.
Mostrou-me como levantar vôo e como distinguir
A altura de partir e a altura de chegar.
Mais tarde, conheci alguém que me mostrou como
Se pode sonhar, como se pode viver sem ter de
Seguir esses mesmos caminhos já pisados.
A gravidade não se impede nem se finge; não
Podemos evitar quem somos indefinidamente.
Não podemos evitar as respostas, não podemos
Ter medo do escuro da vida, por muito assustador
Que ele seja. Por muito tentador que seja não saber
A verdade. As respostas... Um dia chegará a altura.

Há muito tempo atrás tive um sonho, mas não me
Lembro bem dele.
Foi maravilhoso e inesquecível, contudo, esqueci-me
Do que me fez sentir assim. Quando estiver preparada,
Ele voltará para mim.

25 agosto, 2011

The Departed

«How do you say goodbye to someone you can't imagine living without?»

Primeiro num soluço abafado, contido. Isto não é possível...
Depois como um choque profundo, a dor vem em ondas consecutivas que destroem o meu coração, quebrando-o em pedaços pequenos. O desespero apodera-se e subitamente já nem sei quem sou sem ti. Já não sei como imaginar a minha vida sem ti nela, constantemente.
Não há nada que não fizesse; mentia, roubava, esquecia-me da vida. Humilhava-me, caía de joelhos no meio da rua, se fosse preciso para te provar que isto que sinto é mesmo amor verdadeiro.
Posso por vezes não conseguir respirar, posso estar exausta, posso estar furiosa e querer apenas fugir disto tudo. Posso até perguntar se vale a pena, pergunto até como é que é possível. Mas sei que é. E basta.
Porque sei que, quando menos esperar, a resposta chega não anunciada. De repente, todas as dúvidas, toda a mágoa e cansaço evaporam-se da minha mente; só há espaço para certezas.
Só há espaço para sonhar, para rir, para falar até o silêncio se impôr, já repousado. De repente tudo faz sentido neste nosso mundo e eu compreendo que por muito que pareça impossível, isto é a coisa mais natural de todas. É-me tão necessário como respirar. É tão essencial como sentir o coração a bater, sempre.
Quando fecho os olhos vejo uma eternidade de momentos, vejo uma vida criada que nos tornou prisioneiros. Sem ti, já não sei viver. Já não sei como sou, sem a tua presença como parte de mim.
Dizem-me que o amor verdadeiro, aquele que não se finge, é capaz de nos tornar vulneráveis, é capaz de nos fazer querer perder o controlo. É mesmo capaz de nos obrigar a querer fazer loucuras e por vezes actos irreparáveis, para demonstrar o quão infindável ele é. Nunca senti isso... Nunca senti esta capacidade de me tornar ridícula, nunca senti este sentimento tão avassalador por ninguém, como por ti. Apenas e somente porque és a única excepção...A minha excepção.
Quando tudo parece acabado, quando tudo se desmorona à nossa volta, as ruínas tornam-se o nosso abrigo e, em conjunto, voltamos a sorrir. Voltamos a respirar, sem olhar para trás.
Não tenho sombra de dúvidas, nem por um momento sequer, de que nada se pode atravessar entre nós, excepto a vida. Quando algo algo assim acontece, costuma dizer-se que o que aconteceu foi a vida; ela mete-se onde não deve e onde não é esperada. Tirando a sua presença, sei com toda a minha alma que nunca vamos acabar em ruínas como as nossas vidas. Como as nossas esperanças...
Agora deixo as lágrimas correrem, já não as tento evitar. A mágoa é inevitável, mas toda a felicidade compensa-a.
Não há nada que não fizesse por ti...Nada que não fizesse para te demonstrar o meu amor... Mas isso, tu já sabes, por agora.

18 agosto, 2011

Fazes-me falta

Dizes-me que sentes falta do que tinhas, que sentes falta de como te faziam sentir. Dizes-me que, apesar de tudo, o bom valia a pena; a felicidade compensava as horas pesarosas que passavas em desespero, a questionar-te. As desilusões.
Sinto pena, sobretudo por ver que antes irradiavas algo que por agora está morto. Nos agora olhos baços havia um brilho de esperança. Acreditavas.
Como podes sentir falta de algo que nunca tiveste? Como podes sentir saudade de algo que nunca te pertenceu? Tu não o perdeste, porque de facto, nunca o ganhaste.
Sentes talvez falta da ilusão, da possibilidade de voltar a acreditar em algo que não fosse desolador.
E mesmo após toda a dor, todo o remorso e culpa, tu ficaste. Não arredaste pé; acreditaste que serias feliz. Querias ser feliz.
A plateia já se foi embora, deixaram-te sozinha com a tua não dor, com o teu não arrependimento de algo que nuca aconteceu.
As luzes apagaram-se aos poucos e só sobraste tu, a tentar perceber como pudeste sofrer por algo que não existiu. Como pudeste viver algo que não foi real...
Digo-te que a culpa não foi tua: tento aliviar o teu já pesado fardo.
Digo que com tempo tudo cura, tudo passa. Tudo vai parecer um sonho pouco nítido.
Não vai restar nada dessa ilusão que te aprisionou durante tanto tempo. Em breve...

16 agosto, 2011

Inquietação

«Eu só conheço esse caminho do paraíso»

O ranger calmo da porta indica-me que saíste. A casa está vazia e eu sem ti aqui não sei o que fazer.
Sinto-me irrequieta, como se só tu me soubesses acalmar.
Nas traseiras tudo está calmo - nem a brisa se atrave a aparecer.
Nem o sol se atreve a brilhar, com medo de espantar as poucas almas que se encontram à janela.
O ar gelado da manhã causa-me um arrepio desde a ponta dos pés até me percorrer a coluna, como um choque sereno. Aqui ainda consigo ouvir algum barulho citadino; o despertar das próprias ruas da cidade, mas o som infindável que as ondas do mar causam é mais audível e atrai-me com uma força fora do comum.
Dirijo-me à porta da frente, para descobrir apenas que o vento aqui não tem receio de soprar. Incentivado pela fúria do mar, o vento sopra de uma maneira destemida e cruel, dificultando a vida aos ainda crentes que passeiam por ali.
Talvez seja estranho pensar no mar como uma entidade...Mas ele é tão complexo e pensador que sinto que ganha vontade própria. Vida. É tão profundo e misterioso, tão apaziguador e vingativo que julgo nunca o conhecer por completo. Julgo que ninguém consiga.
A maré está baixa e o lodo alastra-se pelo areal à minha frente; um cheiro pungente a maresia faz-me estremecer e acorda-me desta nostalgia temporária. Sinto até um forte sabor a sal nos meus lábios, embora não tenha saído da ombreira da porta.
Um formigueiro intenso vem confirmar o que já suspeitava - demorei demasiado tempo aqui fora e como consequência sinto as pernas dormentes. Recolho-me para dentro de casa, para o abrigo acolhedor do silêncio e do calor.
À semelhança da maré, não me sinto propriamente vazia, mas incompleta, como se também eu deixasse um pedaço do meu mar em terra firme. Em ti.
Faltas-me tu; não demores.

15 agosto, 2011

Diary of a mad

«Dear diary, I'm here to stay...»,

Este calor levou-me à exaustão e esta solidão duradoura levou-me à loucura.
Nestas páginas secretas e escondidas do mundo eu desabo e volto a nascer. Eu morro, só para viver outra vez.
A esta hora tardia do que será em breve um novo dia, eu sonho acordada e percebo que a vida não é mais do que esta ilusão que nos ensinam. Eles fazem-nos acreditar.
Estou no escuro, na insanidade, totalmente sozinha. Totalmente adormecida.
Já escapei quando pude à prisão que me mantinha controlada. Que mantinha os meus pés assentes na terra e a minha cabeça perdida nas nuvens.
Estou mais lúcida que nunca, febril nesta certeza de que nestas simples páginas deste diário, alguém acreditará em mim. Alguém poderá corroborar a minha sanidade. Eu sei que a tenho. Tenho-a.
E as vozes? Elas dizem-me que não estou louca; as figuras à minha volta dizem que não estou doente. Talvez demasiado sóbria, atenta.
A realidade nunca me foi tão nítida, nunca esteve tão próxima... Mas preciso de ser ouvida, preciso de crença; preciso da fé de alguém.
Os anjos cantam lá bem no alto, no topo do mundo e eu continuo a sentir que ninguém me vê.
Eu grito a plenos pulmões e vocês só pensam que já não tenho cura possível, que estou para além da ajuda humana. Dizem-me que o que sobra é a compaixão divina...
Rio-me bem alto (nem sei porquê); a ligação à vida há muito que deixou de fazer sentido. Nunca a compreendi, porque durante todo o tempo em que aqui estive, senti que ninguém me percebia. Que ninguém via o mundo da mesma maneira distorcida. Que ironia é essa? Que sorte infernal me calhou?
Choro. Porque como uma lâmina que me arrasa o coração, eu percebo que ninguém está aqui para me fazer rir.
Estas grades (que me enjaulam) só servem para impedir o meu auto-flagelo iminente.
A loucura é real, o resto não existe fora de mim...

«Endless price I'll have to pay»

13 agosto, 2011

Mais perto do sol

A rua mal iluminada deixa os passos ecoarem, enquanto pisam ruidosamente as folhas que se encontram inesperadas no chão.
A lua cheia iluminaa o caminho dos sonhadores; dá luz aos ainda perdidos na noite, pouco iluminados. Aos que chamam pelo sono mas ele não vem.
A minha respiração fica marcada no vidro enquanto penso. Ajuda-me a divagar se me concentrar meramente na rua, lá fora. Se me concentrar nas pedras brancas como círios, depois nas escuras, fazendo um contraste que existe no mundo.
Todos nascemos no mesmo estado livre e puro, mas só alguns chegam ao ponto de alcançar algo mais. Encontrar algo que não seja ordinário, que não se defina por palavras algumas, por imagens. Que não se exprima de todo, a não ser pelo bater do coração.
A seguir foco-me apenas no sopro do vento e em todos os sussurros e suspiros que traz; consigo quase ouvi-los.
É como se visse uma grande tela, mas em pedaços, em pequenas doses que se vão juntando, formando no fim um cenário maior que tudo o resto. Um cenário que nos faz querer absorver tudo de uma vez.
A lua brinda-me com a sua passagem, encobrindo-se temporariamente por trás das nuvens que se esfumam livremente pelo céu escuro como breu.
Sorrio e penso que apesar da noite ser mais encantadora, aos meus olhos, o dia já não me impele para longe, assim tanto. Já não o receio.
Vejo as pessoas, lá em baixo como formigas, que caminham de maneira corajosa e determinada para um lado qualquer. Vejo-as e penso na sua história; penso na história que eu quero que tenham. Imagino.
Depois de tudo isto, já não penso, já não devia pensar. Tenho de aprender a deixar ir mais facilmente, sem dar tanta luta. Sem analisar em demasia tudo à minha volta.
Já pedi muitas vezes ao sol para me trazer a lua, mas hoje vou contrariar a minha natureza e vou acreditar no futuro imediato. Vou pensar que talvez, por uma vez que seja, o dia vai ser melhor que a noite.
Vou chamar pelo sol. Mereceu.

10 agosto, 2011

Caminho de volta

Os olhos já cegos dificultam a procura incessante por ti. A cegueira não me impede, só me incentiva.
O suor que escorre não é de agora; todas as células do meu corpo arderam até o calor não ter nada mais a consumir.
Numa palavra: sufoco. Acostumei-me às coisas belas, às coisas fáceis. Voltei a confiar na simplicidade da confiança, que é facilmente quebrada.
Sei que à minha frente tenho escolhas que precisam de ser feitas e ja não tenho receio de fazer a errada.
No fundo, acho que percebi que enquanto me achava viva, divina, estive apenas num sono profundo. Numa dormência com um fim trágico.
Sei agora que não é na felicidade aparente que jaz a imortalidade. É no cru, no horrível. É no que está morto e pestilento.
Acordei desse estado letárgico, voltei a ser humana. Voltei a prestar atenção ao que me diziam as vozes que eu não queria ouvir. As vozes que escolhi ignorar.
A minha cura não se avizinha, o antídoto está longe de ser alcançado, mas até lá, vivo. Até lá respiro outra vez, mesmo que em dificuldade.
Percebi finalmente que tudo o que já tinha corrido debaixo da ponte não eram águas passadas; descobri que apesar do tempo e da chuva que passou, há coisas que não passam. Há manchas que por muito que tente apagar, não acabam. Só se alastram...
Finalmente aceitei que eu própria me levei a esse estado de torpor, ao tentar fugir dele. Ao tentar enganar-me, ao não ver a diferença entre superar e esquecer temporariamente.
Caminhei de olhos bem abertos para esse poço sem fundo. Agora cega, sei o caminho de volta.

08 agosto, 2011

Momentum

«Show me the way to forgive you
Allow me to let it go
Allow me to be forgiven

Show me the way to let go»

Please, I need some direction. I need you to shed some light upon my troubled path.
Can you show me the way, just this once? I'm begging you, I'm already on my knees praying for something better. Anything at all...
I can't keep going like this, I simply cannot. I'm trying with all my strength to stay here in this side of the world, but the weight is too much to bear.
Show me the way, enlighten me to reach the peace I so desperately seek for, allow me to find a way to let this all go... All this poison that clings to my heart, all this sorrow that's stuck on my skin... I just wanna let it all go. I just want to feel cleansed and pure again; let me just feel alive and not vulnerable like I've been.
When I can no longer define what's right and what is wrong, I have no choice but to trust my ghosts. The angels and demons that hover above me, all the time.
My wounds must be wide open now; I must embrace all this illusion that comes to me in a hurtful way so I can move on and walk away, for good. So I can heal properly and let all this misery behind.
My tears must run down now, in order to set me free; pretty soon they'll be no longer toxic, deadly.
Some scars may linger, but my heart will beat again and my path will be brand new. It will be a better one.
Just guide me there, show me the way to be reborn. Allow me to break free.

["Momentum is a conserved quantity, meaning that if a closed system is not affected by external forces, its total momentum cannot change"]

06 agosto, 2011

Dream 3

«Sweet sun, send me the moon»

Encontrei-te no meio do fogo.
Encontrei-te no meio do caos quase pacífico, como uma dádiva. Como uma desejada salvação.
Sorrio ao ver-te e sinto uma sensação de conforto ao ver que pareces feliz por me ver.
Sento-me a teu lado e subitamente parece que todo esse tempo e distância não passaram por nós desde a última vez que nos vimos.
As confissões começam a pairar e posso até jurar que sinto o meu coração a abrandar quando me dizes que quando parti, levei um pedaço teu. Quando me explicas o que sentias por mim, antes de abandonar este sítio.
Mas tal como num sonho (real) nada é precipitado, nada precisa de resposta imediata, tudo é como eu quero que seja. Assim, limitamo-nos a ficar sentados, eu encostada a ti nesse muro de pedra, a ver a única estrela que brilha.
A única lua que me faz feliz.
A aurora boreal que criaste para mim, só para finalizar o momento. Perfeito.
Rio para ti, nem acredito que é possível. Ris de volta e nada parece tão brilhante até aí.
Acordo...

03 agosto, 2011

Dream 2

«I'm dreaming I'm alive...»

Finalmente algum sinal de mudança! Não de cenário nem de vida...Mas algo mudou, quando tudo o que eu pedia era exactamente isso.
Vi-te e reparei logo em ti, instantaneamente. Sorri-te porque não consegui evitá-lo e tu não conseguiste impedir um segundo olhar mais demorado.
Seguimos o mesmo trajecto e algo no meu coração me diz que este dia irá mudar tudo; ele bate mais depressa com a alegria da antecipação e com as possibilidades infinitas que poderão acontecer.
Por mero acaso do destino os nossos caminhos cruzaram-se e eu só peço a uma força superior que faça com que isso não volte a mudar. Em resposta, tu olhas para mim e dizes algo que me faz rir (nem acredito na minha sorte!); a partir daí é como se te conhecesse desde sempre.
Há algo que nem sequer consigo quantificar, uma química qualquer que me empurra na tua direcção e tu na minha. A inevitabilidade imprevisível do destino.
O tempo contigo passa a voar e eu perco totalmente a noção dele. Talvez se tenham passado séculos, mas a teu lado, parecem apenas breves momentos que acabam sem eu dar por isso.
O destino está traçado e não há nada que possamos fazer para o mudar...
Acordo.

01 agosto, 2011

Dream 1

«But that was just a dream...just a dream»

Abro os olhos e vejo-te.
Deitas-te a meu lado com a familiar sensação de que já o devias ter feito há milhares de minutos.
Sorris e eu também; sinto-me estranhamente calma e feliz, como se esse momento fosse fruto do destino.
Sinto um desejo quase doloroso de encostar a minha cabeça contra o teu peito em busca do tão necessário conforto, mas a antecipação impede-me. Ainda não acredito.
Rapidamente as palavras param de ecoar da tua doce boca e o sorriso desvanece-se. Sem mais delongas levantas-te como que a negar o que aconteceu, a anular o destino criado por nós.
Esse levantar foi a picada de culpa, foi o primeiro indício de cobardia que te invadiu e que eu já esperava.
Ao te afastares de mim, deixando-me sozinha, estás silenciosamente a afirmar que te arrependes de aceitar o que sentes. Típico.
Olhas para mim e os teus olhos pedem perdão; a tua boca não se move, como sempre. Eu olho para eles e tento convencer-me de que a desilusão não é já uma constante na minha vida, graças a ti...
Afasto o olhar, e acordo.

22 julho, 2011

Puzzle



Dizem-me para deixar isto para trás...Dizem-me que devo prosseguir com a minha vida, tendo a mera esperança de esquecer que um dia esta foi a minha vida.
Dizem que devo partir sem olhar para o que restou, dizem que devo ir imediatamente, amanhã após o amanhecer. Para quê...?
Agora passado tanto tempo, passados tantos dias a esperar o que nunca irá acontecer, nunca, sinto que algo passou por mim e eu não dei conta. Apesar de achar que já tinha percebido, apesar de pensar que já tinha aprendido essa dolorosa lição que me obrigava a relembrar-me dela todos os dias, ainda não cheguei lá. Ainda não consegui percebê-lo; e mesmo com todo o sangue derramado por o ter tentado cravar no coração, ainda não consegui entender o porquê. Ainda não consegui deixar tudo isso ir...
Contudo, mesmo após um momento negro em que vemos todas as peças possíveis espalhadas pelo chão à nossa frente (desesperadamente), vemos que aos poucos elas voltam ao sítio. Por muito que custe, por muito que doa, por muito que pareça não haver saída, talvez haja no fim vontade de recomeçar.
Parto amanhã, para esquecer. Para deixar o que magoa no passado e começar de novo.

20 julho, 2011

Take it back

«Change is hard, I should know...I should know»

Será que não te deixei respirar? Será que finalmente percebi que por muito que caias, se calhar não queres mesmo que te apanhe?
Só o fiz por seres a excepção. A única excepção, aliás...E sempre o serás, tenho a certeza disso.
Apesar disso só me arrependo de metade, possivelmente um pouco mais.
O cenário não muda; nada aparenta fazê-lo, e no entanto, nada está como antes. Nada se mantém, sendo que vês o mundo a ruir mesmo à tua frente e nada que faças para o consertar parece funcionar.
Sim, a mudança é sempre difícil e na maior parte das vezes necessária, mas ninguém disse o contrário. Ninguém te iludiu, ninguém por ventura decidiu dizer-te que o caminho que se atravessou na tua vida, neste momento, era fácil. Ninguém disse que não ia ser solitário, ninguém disse que não ia doer e parecer absolutamente impensável, por vezes, continuar. Que não ia ser completamente desesperante tentar, apesar das forças terem acabado há algum tempo...
Talvez tudo tenha acabado. Talvez não. Mas não posso é continuar neste não saber, neste balanço contínuo que só me faz questionar o que já passou, o que se passa e o que se irá passar num futuro não muito distante.
Mas se continuar a questionar tudo, se continuar a ignorar os meus instintos e a duvidar tudo o que o coração me diz, em breve levar-me-ei à loucura. Em breve acabarei.

[A todas as pessoas a quem me refiro neste texto, obrigada por, de uma maneira negativa, continuarem a mostrar-me o caminho.]

18 julho, 2011

Troca o ressentimento e a dor pela alegria de teres o poder de ajudar outros; a vida não te traz chuva por agora, mas em breve ela virá.
Esse fardo que carregas é demasiado pesado, mas se não o partilhares, em breve ele levar-te-á à miséria, ao desespero. Em breve ele irá afogar-te, sem hipótese de retorno.
Troca o ódio pelo amor, mesmo que ele seja vão e absolutamente ridículo. E quem sabe...Sorri ao sol, a ver se ele te traz a lua mais cedo.

«Don't look back in anger, I heard you say!»

11 julho, 2011

Inside Out - III

Os solavancos não me entorpecem. Só me embalam nesta velha cantiga que o tempo e a distância criaram juntos.
Para trás deixo a poeira agora assente depois da tempestade, deixo as lágrimas que foram derramadas até aqui. Deixo a frustração e a infelicidade que me vinham a perseguir por algum tempo. Deixo o que não é preciso.
Fecho os olhos temporariamente e finjo que sou outra pessoa qualquer, apesar de eu própria. Por meros momentos, eu encaro o mundo com uma perspectiva diferente, sendo quem eu quiser.
Curva atrás de curva, estrada por estrada eu vou-me perdendo lentamente, num labirinto de pensamentos, de risos, de notas musicais...Num misto de azul com verde até perder de vista; num misto de pureza e alegria com o sentimento mais verdadeiro de todos: aquele que nasce do nada, só porque o coração manda.
Cheguei ao ventre do que é belo, do que é real - a minha verdadeira casa. O meu refúgio, o meu tipo de solidão e liberdade. O meu local sagrado que me impede de acabar ou implodir com todo o veneno que corre por nós e à nossa volta.
Aqui a realidade sou eu que a invento ou ela inventa-se por mim. Não interessa. Ela é o que eu desejo, ela molda-se para mim, dando-me espaço para ser novamente feliz.
Inalo este odor que me traz mais recordações do que sentimentos, mas sinto-me quente. Sinto-me acolhedoramente rodeada de amor, protegida dos males do mundo.
Aqui sinto que nada me pode magoar, mesmo que por vezes o perigo espreite nalgumas esquinas ou atalhos; aqui nada me pode magoar porque isto é o sonho que criei, embora não o seja. Este é o local que me permite ter a calma e a paz do universo dentro de mim, brindando-me com a capacidade de imaginar muito claramente um céu azul, um sol brilhante e aconchegante que me faz sorrir sem fim ou o pulmão verdejante que possibilita toda a vida.
Se tiver de partir, levo pelo menos a certeza de que aqui estive; levo pelo menos a certeza de que valeu a pena voltar às minhas raízes quase abandonadas, às minhas raízes autênticas.
Sei que valeu a pena o esforço de me encontrar, nem que primeiro me tenha que perder. Valeu a pena percorrer montes e vales, rios e serras e dezenas de minutos para chegar ao meu lar.
Se tiver de partir, levo pelo menos uma leveza no coração: sei de onde vim, sei onde estive e sei, sobretudo, que irei voltar.

Obrigada Fundo do Lugar, mais uma vez foste a minha casa!

07 julho, 2011

Quinto Elemento

Sorrio enquanto ando. Sorrio enquanto pairo no ar.
À minha passagem cresce o vento. Ele sussurra-me o que tenho de saber.
Eu faço parte do rio que ouço correr; eu faço parte dos montes que vejo em meu redor.
Eu caminho e sinto a passagem do tempo. Ele muda consoante a minha vontade.
Sou uma força da natureza, nada me pode parar ultimamente.
Temida por muitos, considerada uma maldição, outros pensam em mim como uma benção, algo a que recorrem em tempos de miséria.
Rezam para que eu chova, rezam para que eu vos apareça com a minha passagem que só traz caos e destruição. Nem tudo é mau...
O fogo que cresceu no meu coração perdeu todo o controlo, espalhou-se rapidamente, sem o meu consentimento. A tempestade que cresceu a seguir teve simplesmente o intuito de o apagar. Falhou.
O fogo que tu começaste no meu coração foi-me matando aos poucos. É capaz de te matar a ti...Não fazes a menor ideia do que iniciaste a partir daquela altura, não podes compreender como é para mim.
É impossível perceberes como é um coração magoado, um coração partido. A fúria é impensável, a necessidade de encontrar conforto é demasiada. É perigoso.
O furacão cresceu e tu não notaste. Ele foi crescendo lenta e impiedosamente e só quando eu passar de novo por ti é que vais finalmente perceber.
Se eu te tentasse explicar com todas as palavras existentes, tu não conseguirias, ainda assim, compreender. Vais ter de sentir, vais ter de ler nos meus olhos côr de fogo o ódio e mágoa esquecidas. Já nada vai importar aí. Vingança já não terá a mínima lógica, já não vai trazer-me paz à noite, quando não consigo dormir. Quando não consigo fechar os olhos porque a imagem da tua realidade me arde, cravada na pele. Inesquecível.
O sol que brilha em mim diz-me que tenho de esquecer isto. Diz-me que já chega de esperar, que já chega de sofrer, de imaginar, de ficar em extrema expectativa. Basta de viver como tenho dito que vivo. Basta disto a que chamo viver. Sinto-me vazia, às vezes. Todos nós sentimos o vazio que parece infinito, em alguma altura.
Sinto que nem respiro, por vezes. Sinto que nem consigo já ouvir o meu ténue bater do coração. Obrigo-me a senti-lo, obrigo-me a ouvi-lo. A aceitar. A fechar os olhos e seguir em frente.
Sei que até aqui caminhei confiante, caminhei tendo o mundo todo na minha mão. Percorri este trilho, esta passagem de pedra esbatida como quem controla o destino. Como quem controla o tempo e a vida. No entanto, de vez em quando, olho para trás. Olho por cima do meu ombro, para me certificar de algo. Como se não tivesse todas as certezas na palma da minha mão. Como se precisasse de apoio, de confirmação. Como se sentisse uma presença, um olhar em mim.
Deixei-me arder e depois, calmamente, deixei o fogo ser extinto. O rio parou de correr, estancou. O sol escondeu-se atrás da lua; o vento morreu queimado. A chuva perdeu-se no céu e eu deixei-me ir.

24 junho, 2011

S

Ainda agora aprendi a minha lição e já estou a cair no mesmo erro.
Não acredito que ousei voltar a acreditar. Impossível.
Desta vez é pessoal. Não posso crer que desta vez ainda me conseguiste atingir mesmo no sítio certo. Naquele em que dói mais.
Mas garanto-te, esta foi a última vez que fiz este papel. Esta foi a última vez em que usei o meu coração assim desprotegido, nas palmas das minhas mãos.
Deste-me o céu num curto espaço de tempo, mas não perdeste um segundo a tirar-me o chão que estava por baixo de mim. A manter-me viva.
O jogo acabou por aqui. Conseguiste o que quiseste durante muito tempo, mas isso teve um fim.
Peguei-te fogo. Peguei fogo às palavras, aos planos. Peguei fogo a tudo e só me mantive a mim.
Só a mim.
Acabou por aqui. Ganhaste, talvez. Se calhar eu quis perder, mas já nada interessa. Já não me interessa.
Estas lágrimas não são de saudade. Nem sequer são de tristeza; são apenas de ódio e raiva. Como fui capaz de não ver durante tanto tempo? Esteve mesmo à minha frente e eu decidi ignorar o que o próprio vento me dizia.
Este chão que agora treme debaixo de mim já não é o mesmo. Agora tem-te enterrado. Tem-te morto, nos seus confins. Já não aguentava os dois lados, os dois mundos. Eu só quis um. Desde sempre. Só pedi um. Agora cheguei ao fim da linha, sem nada.
Acabaste. Acabámos. Acabou.
Adeus

19 junho, 2011

Afogamento (parte 2)

Não esperavas isto. Nunca de mim.
Eu, de todas as pessoas da tua vida, devia permanecer assim para sempre.
Ficaste atordoado. Sem saber ao certo o que mudou. Mas que algo morreu e não é provável que regresse.
Levaste-me à exaustão. De tanto nadar para te salvar, morri eu afogada.
Esse capítulo acabou. Foi o fim de uma história perdida. De uma história triste.
Até eu acreditei um dia que a minha paciência era inesgotável. Até eu.
Quem diria...Há coisas que de facto mudam. Outras, infelizmente, irão manter-se iguais para sempre.
O tornado que te rodeiam já não me apanha na sua órbita de colisão; já não estou em perigo, mesmo por perto.
Porque há uma altura em que, eventualmente, já nem eu quero ficar. Já nem eu.
Para me afogar? Para ser envenenada lentamente? Para conseguir apenas mais cortes a troco de nada? Não.
Prefiro partir.
Não tentes lutar contra isto. Eu não te resinto. Eu não o faço por ti.
Pela primeira vez, em muito muito tempo, eu apago porque já não posso saber. Já nem quero saber.
Pela primeira vez, eu estou a ir por mim. Estou a salvar-me.
A paciência deixou-se correr; o tempo perdido foi apagado; a dor foi esquecida. Todo o caos e prejuízo significaram pouco para ti.
A mim, custaram-me um pedaço. Custaram-me uma vida, um quase afogamento.
Para mim, essa espiral de tortura teve um preço e finalmente um fim.
Eu sei que não esperavas isto. Nunca de mim. Nunca, numa eternidade, achaste isto possível.
Mas chega de voltares sempre aqui no fim de tudo, uma e outra vez. Eu já não vou ouvir.
Eu já não vou ver-te.
Nadei contra ti; salvei-me.
Eu escolhi viver, por mim.

16 junho, 2011

Torniquete

[Porque as palavras começam a esgotar-se, obrigada por mais uma vez me deixares escrever a teu lado. É sempre uma honra e o resultado espantoso]

Eu tentei matá-la. Eu tentei.
Estarei perdida por isso?
Tive de fazê-lo. Já não a suportava.
A dor era terrível. A perda foi enorme.
Estou a sangrar lentamente,
Tu eras a única coisa que impedia isso.
Eras tu que aparecias nas horas de
Escuridão; eras tu que me davas alento.
Agora já sem esperança, agora coberta
De escuridão, eu enfrento o meu destino.
Eu aceito o inevitável e deixo-me ir.
Entrego-me ao alívio que o sangue que
Escorre me deixa sentir. Já não há nada aqui.
Estes cortes e estas feridas dizem apenas
Que a salvação virá em breve. Ela virá.
E até lá, vão continuar a levar o melhor
De mim. O que restou.
Para trás fica a derrota, o arrependimento.
O putrefacto. A morte.
E eu tentei matá-la. Eu tentei...
Trancado em horas que se prolongaram
Em dias...Eu tentei. E só Deus sentiu
O sangue que sangrei...Sentei-me
Na dor; perdido, arrancando sonhos
À minha existência. O futuro já não é ambicionado,
E esta dor é a companhia mais fiel que tenho.
Sem esperança de ser algum dia recuperado
A fome de voltar a encontrar
É tão forte como a certeza de que estou vazio.
Por isso corro contra toda esta realidade
Até cair exausto por terra
Finalmente derrotado...
Beija-me esta ferida. Sara estas feridas.
Quanto tempo mais aguentamos nestas
Curas malditas que só me fazem piorar?
Ópio, lítio ou absinto...
No arrependimento, quando sentir
Que Deus chorou, nada mais interessa.
Maldição monstruosa esta, que faz o coração
Bater e desejar, tentar e perder,
E derrotar um universo inteiro
De perda e desilusão...
Mas eu...eu,
Mesmo respirando esta sombra,
Mesmo sendo enorme nesta escuridão...
Mesmo depois de tanto,
Sofro mais uma vez o erro
De voltar a querer acreditar...
Este acreditar já não me traz nada.
Estas palavras não têm significado,
A dor que carrego é mais que muita.
O fardo até aqui foi insuportável, mas
Eu carreguei-o pensando ser eterno.
Aguentei-o até ferir, até todas as forças
Serem drenadas do meu ser. Para quê?...
Ia inevitavelmente cair neste precipício,
Ia levar-nos à morte. A mim e a ti.
Não ia sobrar nada, só a cinza da escuridão,
Só a sombra da morte. Eu acabei.
Deus foi minha testumunha, só ele sabe
O que eu passei. Só ele viu o sangue
Que brotou de mim, dia após dia,
Lágrima após lágrima. E nunca o estancou.
Só me trouxe mais sofrimento, mais
Agonia, mais vontade de acabar com isto.
Ainda te lembras de mim? Após tanto tempo,
Será que ainda és capaz de ouvir a minha voz
A chamar por ti, a suplicar por perdão?
Estarei assim tão perdida ao ponto de não ver?
Estarei assim tão horrivelmente danificada
Que ao menor espinho cravado na minha
Carne julgo ver a face de um anjo caído?
Resto eu aqui, com o que sobrou de mim.
Com a réstia de esperança em trapos, com a
Miséria a escorrer por todo o lado. O rio de
Desespero já correu a meu lado e eu deixei-o secar.
Eu tentei matá-la mas falhei. Não consegui
Perceber que há muito que não existo.
Só finjo existir. Eu tentei matá-la. Agora desisto...
Enquanto essas almas choram
Sem saber e sem lugar;
Afogadas em névoa sem suspiro
Ou vento que sacuda esse todo
Deixando espreitar um caminho...
Nunca mais chega o dia
Em possa finalmente comtemplar
Sentado num banco, sentindo-me
Outra vez completo,
a cidade a viver
e o campo a descansar...Onde possa
abraçar faces diferentes
da mesma peça...
Esta é a dor, este é o sofrimento,
Neste sangue que enche as paredes
Da vida humana
Fazendo com que do sangue
Só possa surgir um e um só monstro,
Enquanto todos vós vivem outra dor,
Jorram outro sangue...
Nesta mágoa utópica.
E foi só aqui que desisti...
Quando compreendi
Que não precisava de um qualquer
Torniquete
Ou de outros apaziguadores...
Mas apenas de ti.

11 junho, 2011

Ressurreição

«Grieving the things I can't repair...»

A pouco e pouco volto a mim.
Sinto o sangue a correr de novo,
Sinto o coração a bater com o
Compasso certo. O único meu.

Não posso mudar nada disso.
Já não está ao meu alcance
Fazer nada para impedir o teu
Sofrimento. Apenas o meu.

Estou de volta. A tempestade
Amainou. O diabo deixou de me
Falar ao ouvido. Pecaminoso.
O coro de vozes regressou.

Ainda consigo achar admirável
A natureza verdadeira do Homem.
Ainda acho que as grandes acções
E decisões ficaram marcadas.

Voltei do submundo para mostrar
Ao mundo que há uma maneira.
Que se pode sempre voltar atrás.
Que se pode renascer ou ressuscitar.

Ergui-me das águas para provar
Que um dia também já caí no perigo.
Já cedi à tentação, já errei. Já percorri
O caminho errado. Respiro novamente.

Aquilo não eram mentiras. Não.
Não foram meras ilusões ou tentativas.
Era a verdade, disfarçada de hipocrisia.
Era a realidade, pintada noutros tons.

Espalhada pelas pessoas erradas.
De uma maneira totalmente falsa.
Manipulada, enganadora. E eu cheguei
Com a missão de espalhá-la realmente.

Eu assumi a culpa, tal como anjo caído
Do céu; eu assumi o pecado que não me
Pertencia só para poder regressar do outro
Mundo e viver de novo. Estou de volta.

01 junho, 2011

Requiem

Zangada com o mundo porque ele não te sorri de volta.
Irritada com a vida porque ela não te devolve a resposta que querias...
Todos nós somos miseráveis, de uma ou outra maneira; mas apenas alguns escolhem demonstrá-lo.
Pensas que tudo está errado, que nada disto te é familiar. Já não é, pelo menos. E finges que não és assolada com desespero e mágoa, por teres de viver neste sítio. Neste tempo.
Não é justo. A vida nunca o foi. Atrevo-me a dizer que nunca será.
Todos nós somos humanos. Todos nós temos inscrito dentro de nós a vontade de sonhar sem limites, a habilidade de pedir as estrelas e a lua. Elas nem sempre chegam...Nem sempre.
Aqui na quietude do teu mundo, sem ninguém à volta demonstras o que te corrói por dentro. Esta passividade, esta falta de tudo. Este vazio infinito que vai e vem, que assombra e se demora nestes dias que correm.
Porque há uma fase na vida destes ditos seres humanos em que, passado muitas longas horas de seca, estes se apercebem de que a vida em que se encontram é que os comanda a eles. Já não são eles que ditam as suas regras, já não são eles que escolhem onde estão, porque estão.
Se soubessem responder à questão do porquê ou para quem, não seriam humanos. Param tudo e voltam ao princípio, tentando alcançar a felicidade. Tentando sentir algo.
Já não quero isso. Já não quero sentir o que quer que seja. Já não quero procurar nada, para alcançar o vazio.
Quero apenas esconder-me deste emaranhado de pessoas que me rodeia; quero apenas esquecer-me de que sou tão humana quanto eles; quero apenas esquecer-me deles. Quero esconder-me até às profundezas, onde não haja nada. Onde não haja a sensação de esvaziamento que eles me podem provocar. Que conseguem iniciar em mim.
Já não quero escavar coisa alguma, só quero ser sozinha.
Pelo menos hoje, não quero persistir na mentira e na dúvida que assolam a minha raça. Hoje quero um milagre que me faça imóvel.
Hoje quero parar o meu ser e esquecer a razão. Temporário.

30 maio, 2011

Esperança (enterrada)

«Sinking like a siren, that can't swim anymore...»

Dizem-me que é bom. Dizem-me que
É um dom. Esta capacidade irreal de
Continuar a acreditar, mesmo depois
De já não o querer. Mesmo após o fim.

Costumava acreditar que sim. Que isto
É algo da minha essência; que isto permitia
Ver o lado bom das pessoas. Que isto me
Ajudava a sobreviver à desilusão.

Porque mesmo após me deixarem aqui
Trancada, uma e outra vez, eu continuo
A ir à janela esperar por quem me prendeu.
Acredito sempre que virão. Mas nunca vêm.

Sinto que encolho de cada vez que o meu
Coração se ilumina com a luz da esperança,
Sempre que ouço barulho do lado de fora desta
Vossa prisão. Eu ainda espero. Eu ainda rezo.

Agora, debaixo desta neve de cinza, já sei que
Só me resta aprender com a dor que tive até
Aqui. Já sei que após atear fogo a estas paredes
Que me mantiveram refém, vou ter de esquecer.

Vou ter de perceber, de uma vez por todas que
Eles não vão voltar. Nunca mais. Vou ter de parar
De ser eu a ir em busca deles. Vou ter de conseguir,
De uma vez por todas calar este dom;

Esta habilidade de voltar aqui, uma e outra vez,
Só para perceber que estou sozinha. Só para entender
Que já chega. Que já nem eu quero, voluntariamente,
Continuar a acreditar no melhor. Essa esperança foi
enterrada.

29 maio, 2011

Esperança (morta)

«No more dreaming of the dead as if death itself was undone... No more dreaming like a girl so in love with the wrong world...»

Por agora já devia sabê-lo.
Já devia entender como funciona...
Dizem-me que espero demasiado.
Dizem-me que as expectativas são
Incrivelmente altas. Eu sei.

Sinto que por esta altura já devia
Ter aprendido, finalmente. Já devia
Compreender que nada disto é real.
Que aquilo em que acredito é uma farsa.

Não me lembro da última vez em que
Alguém me surpreendeu verdadeiramente.
Achava que ainda era possível que esta raça
Dita humana me conseguisse trazer algo de bom.

As coisas más, essas já não conto...
Surpreender-me pela negativa já nem me
Entristece. Já não me embala em solidão.
Apenas me brinda com a sensação de que escolhi
A espécie errada. Este sangue não me pertence.

E assim, desiludem-me. E deixam-me a pensar,
A cada dia que passa, o que faço aqui, rodeada de
Ditas pessoas que já não têm capacidade para fazer
O inesperado. Para criar algo a partir do nada.

Por agora já devia sabê-lo...Já devia ter aprendido
A não esperar nada de vocês. Já devia ter percebido
Que não resulta esperar eternamente, esperançosamente.
Que já chega de sonhar e sonhar para alcançar um sonho morto.

Um sonho que nunca irá concretizar-se; já não sonho.

26 maio, 2011

«People are people and sometimes if doesn't work out
Nothing we say is gonna save us from the fall down...

And you know it's never simple, never easy,
Never a clean break, no one here to save me,
You're the only thing I know like the back of my hand,

And I can't breathe, without you, but I have to
Breathe, without you, but I have to.»

24 maio, 2011

Sete Colinas

As mariposas giram em volta das
Luzes intermitentes, hipnotizantes.
Os grilos fazem-se ouvir neste meio
Ensurdecedor que me acalma.

Está tudo tão pacífico. Fora do comum.
Eventualmente todos paramos.
Excepto o mundo. Esse apenas observa.
Esse apenas escuta a vida a decorrer.

Sinto-me embalada lentamente por
Esta doce, tranquila e familiar
Canção de embalar. Traz-me paz e
Felicidade num dia totalmente estilhaçado.

Traz-me esta sensação de calma,
De segurança pura. De um calor
Aconchegante que repousa no Inverno,
Revivendo no mês de Maio. Tórrido.

Subitamente não tenho medo do futuro.
Não sinto pressa de o alcançar.
Ele está lá. Está à minha espera,
Sem cessar, pacientemente.

À espera, sob a luz penetrante da distância.
Em becos e ruas estreitas e ruínas do que
Em tempos foi belo. Algures, além das colinas.
Algures, além deste meu grande mar.

23 maio, 2011

Blind

Fecho os olhos mas ainda vejo.
Quem me dera não ver.
O toque perdura, o cheiro fica.
O ardor não vai embora, nunca.

Esta violação do meu ser
Deixou a carne dilacerada,
Levou tudo com a sua passagem.
Já passou...

Se pudesse, engolia-o.
Engolia todo o cancro
Que te corrompe. Por ti,
Engolia todo o negro que te consome.

Como é que é possível?
Como posso eu amar-te ao ponto
De não aguentar, mas odiar-te de
Tal maneira, que morro por dentro?

O meu corpo expele este mal,
Mas o desejo só me leva a ti,
À tua tuberculose da alma.
À morte, à pestilência. Ao que não vive.

Fecho os olhos e ainda vejo.
Quem me dera não ver...

22 maio, 2011

Águas Passadas

A dor das lembranças é muita.
Se ficar aqui parada, ouço-as a voar.
Se insistir em não partir, se insistir
Em permanecer neste lugar, acabo.

O piano há muito que está silencioso.
As notas pararam de surgir quando
O nosso amor acabou. O som morreu.
A felicidade também. Já não há aqui nada.

Neste jardim onde já fui tua, vejo agora
O que podia ser o futuro. Vejo o fantasma
Do que já foi nosso. Do que ainda podia ser.
Vislumbro de passagem um reflexo passado.

Esta dor acutilante que trago no coração,
Será a prova de que o que vivemos não
Foi em vão? Será que valeu a pena termos
Quebrado as regras e os limites impostos?

Talvez tudo seja uma bela ilusão que criei,
Algo que só existiu na minha imaginação.
E de que me serve sofrer agora, em vão?
De que me vale esta tristeza sem fim?

De que me vale este ardor que trago no peito,
A toda a hora, a todo o instante, se não te
Posso ter? Se nunca mais te poderei dizer
Aquilo que sinto, numa noite cheia de luar.

Basta de recordações. Levem-me daqui.
Não tinham o direito de me despertar.
Não perturbem as águas...Elas estão calmas,
Agora.

18 maio, 2011

Contrariedades

Mesmo depois da chuva ter passado,
Mesmo após ter sido abençoada neste dia,
Mesmo além desta paz que senti hoje,
Consegues infiltrar-te lentamente aqui.

Depois de tudo o que pensei alcançar,
Mesmo depois de tudo o que achei conseguir,
Sei agora que não passou de um breve delírio.
Ilusão que quis trazer à vida; pura esperança.

Sei agora que não vai ser possível. Não.
Não vai ser assim tão fácil expulsar-te de mim.
Nem sequer tenho a certeza de que quero fazê-lo.
Devia, não era? Mas não. Ainda não...

Num minuto convenço-me a não o fazer.
A não voltar com a minha decisão atrás.
Mas se preciso, num batimento estou lá,
Nesse sítio, à espera eternamente. A desejar.

E mesmo quando não chego, mesmo quando
Resisto à tentação que me enche a todas as horas,
Há algo dentro de mim que suspira por mais.
Que grita, que faz de tudo para te ver. Só mais uma vez.

E se prometo a mim mesma que é a última, de facto,
Isso serve de pouco mais que nada. Nada.
Porque sei que rapidamente o dessassosego regressa
Para me atormentar. Para pedir mais do mesmo.
Para o exigir. E não pára até o alcançar. Até eu ceder.

Mesmo depois da chuva ter passado,
Mesmo após ter sido abençoada neste dia,
Mesmo além desta paz que senti hoje,
Mesmo assim, ocupaste um pedaço.
Agora quero-o de volta.