28 outubro, 2011

Ruínas

Os pavimentos cansados veem-me chegar.
A brisa gelada corre debaixo de um sol caloroso e as folhas castanhas enchem a rua com um toque de harmonia silencioso.
O chão molhado que me viu crescer ecoa agora os meus passos lentos e cuidadosos. Há pequenos momentos que param o tempo - este é um deles. Não sei que dia é nem em que ano estou. Sei apenas o que sinto e nem isso é muito claro. Não vejo a vida, momentaneamente, pelo que ela é.
As divisões capturam uma luz minha diferente e à medida que percorro cada uma, o silêncio intensifica-se, esfumando-se; começa a esmagar-me vagamente, alimentando a solidão.
O vazio acalma-me, dá-me alento, dá-me uma paz desastrosamente necessária. No entanto, enche-me também de nada, dando-me tempo de ver os espaços em branco que não deviam existir. Dá-me o silêncio majestoso das lágrimas.
O veneno tem de soltar-se de alguma forma - a repulsa óbvia vive em mim, assombrando-me, fazendo sangrar o que temporariamente havia sarado. Faz-me querer rasgar os vestígios de ti, queimar-te da minha vida definitivamente.
A raiva, o ódio, a revolta, a tristeza, a mágoa, a alma dorida...Tudo se intensifica com a tua indesejada presença; tu destróis o meu contentamento esporádico. Tu és o que está mal na minha existência.
Os cortes são tão profundos, tão antigos, tão assustadores. A frustração é maligna, tão doentia, corrompe-me...Só quero que acabe.
Tento ver sentido nisto, tento encontrar razão nalguma coisa, de todo. Eles não aparecem, bem como o alívio.

Estrutura simples, útil, crucial. As paredes, o chão, o teto, não me dizem nada. Não significam nada e o nada toma conta daquilo a que chamo vida.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Este texto assim como os textos Believer e Hometown estão de facto delightful. Escolhi comentar este porque dos três, é o que está um pouco mais acima. Mas todos eles estão perfeitos...e todos alcançam tanto a luz (de forma escondida) como a "decadência" das trevas. Mas todos estão overwhelming, e assustam a alma por se encaixarem em nós tão bem - bem de mais infelizmente.
Neste texto também encontrei mais frases dignas de serem sublinhadas.
"Os pavimentos cansados veem-me chegar" "..o silêncio intensifica-se, esfumando-se; começa a esmagar-me vagamente, alimentando a solidão"
"..dá-me uma paz desastrosamente necessária."
"Tu és o que está mal na minha existência."
(Não sei se é teu..mas o final perfeito: "Não significam nada e o nada toma conta daquilo a que chamo vida.")