30 maio, 2011

Esperança (enterrada)

«Sinking like a siren, that can't swim anymore...»

Dizem-me que é bom. Dizem-me que
É um dom. Esta capacidade irreal de
Continuar a acreditar, mesmo depois
De já não o querer. Mesmo após o fim.

Costumava acreditar que sim. Que isto
É algo da minha essência; que isto permitia
Ver o lado bom das pessoas. Que isto me
Ajudava a sobreviver à desilusão.

Porque mesmo após me deixarem aqui
Trancada, uma e outra vez, eu continuo
A ir à janela esperar por quem me prendeu.
Acredito sempre que virão. Mas nunca vêm.

Sinto que encolho de cada vez que o meu
Coração se ilumina com a luz da esperança,
Sempre que ouço barulho do lado de fora desta
Vossa prisão. Eu ainda espero. Eu ainda rezo.

Agora, debaixo desta neve de cinza, já sei que
Só me resta aprender com a dor que tive até
Aqui. Já sei que após atear fogo a estas paredes
Que me mantiveram refém, vou ter de esquecer.

Vou ter de perceber, de uma vez por todas que
Eles não vão voltar. Nunca mais. Vou ter de parar
De ser eu a ir em busca deles. Vou ter de conseguir,
De uma vez por todas calar este dom;

Esta habilidade de voltar aqui, uma e outra vez,
Só para perceber que estou sozinha. Só para entender
Que já chega. Que já nem eu quero, voluntariamente,
Continuar a acreditar no melhor. Essa esperança foi
enterrada.

29 maio, 2011

Esperança (morta)

«No more dreaming of the dead as if death itself was undone... No more dreaming like a girl so in love with the wrong world...»

Por agora já devia sabê-lo.
Já devia entender como funciona...
Dizem-me que espero demasiado.
Dizem-me que as expectativas são
Incrivelmente altas. Eu sei.

Sinto que por esta altura já devia
Ter aprendido, finalmente. Já devia
Compreender que nada disto é real.
Que aquilo em que acredito é uma farsa.

Não me lembro da última vez em que
Alguém me surpreendeu verdadeiramente.
Achava que ainda era possível que esta raça
Dita humana me conseguisse trazer algo de bom.

As coisas más, essas já não conto...
Surpreender-me pela negativa já nem me
Entristece. Já não me embala em solidão.
Apenas me brinda com a sensação de que escolhi
A espécie errada. Este sangue não me pertence.

E assim, desiludem-me. E deixam-me a pensar,
A cada dia que passa, o que faço aqui, rodeada de
Ditas pessoas que já não têm capacidade para fazer
O inesperado. Para criar algo a partir do nada.

Por agora já devia sabê-lo...Já devia ter aprendido
A não esperar nada de vocês. Já devia ter percebido
Que não resulta esperar eternamente, esperançosamente.
Que já chega de sonhar e sonhar para alcançar um sonho morto.

Um sonho que nunca irá concretizar-se; já não sonho.

26 maio, 2011

«People are people and sometimes if doesn't work out
Nothing we say is gonna save us from the fall down...

And you know it's never simple, never easy,
Never a clean break, no one here to save me,
You're the only thing I know like the back of my hand,

And I can't breathe, without you, but I have to
Breathe, without you, but I have to.»

24 maio, 2011

Sete Colinas

As mariposas giram em volta das
Luzes intermitentes, hipnotizantes.
Os grilos fazem-se ouvir neste meio
Ensurdecedor que me acalma.

Está tudo tão pacífico. Fora do comum.
Eventualmente todos paramos.
Excepto o mundo. Esse apenas observa.
Esse apenas escuta a vida a decorrer.

Sinto-me embalada lentamente por
Esta doce, tranquila e familiar
Canção de embalar. Traz-me paz e
Felicidade num dia totalmente estilhaçado.

Traz-me esta sensação de calma,
De segurança pura. De um calor
Aconchegante que repousa no Inverno,
Revivendo no mês de Maio. Tórrido.

Subitamente não tenho medo do futuro.
Não sinto pressa de o alcançar.
Ele está lá. Está à minha espera,
Sem cessar, pacientemente.

À espera, sob a luz penetrante da distância.
Em becos e ruas estreitas e ruínas do que
Em tempos foi belo. Algures, além das colinas.
Algures, além deste meu grande mar.

23 maio, 2011

Blind

Fecho os olhos mas ainda vejo.
Quem me dera não ver.
O toque perdura, o cheiro fica.
O ardor não vai embora, nunca.

Esta violação do meu ser
Deixou a carne dilacerada,
Levou tudo com a sua passagem.
Já passou...

Se pudesse, engolia-o.
Engolia todo o cancro
Que te corrompe. Por ti,
Engolia todo o negro que te consome.

Como é que é possível?
Como posso eu amar-te ao ponto
De não aguentar, mas odiar-te de
Tal maneira, que morro por dentro?

O meu corpo expele este mal,
Mas o desejo só me leva a ti,
À tua tuberculose da alma.
À morte, à pestilência. Ao que não vive.

Fecho os olhos e ainda vejo.
Quem me dera não ver...

22 maio, 2011

Águas Passadas

A dor das lembranças é muita.
Se ficar aqui parada, ouço-as a voar.
Se insistir em não partir, se insistir
Em permanecer neste lugar, acabo.

O piano há muito que está silencioso.
As notas pararam de surgir quando
O nosso amor acabou. O som morreu.
A felicidade também. Já não há aqui nada.

Neste jardim onde já fui tua, vejo agora
O que podia ser o futuro. Vejo o fantasma
Do que já foi nosso. Do que ainda podia ser.
Vislumbro de passagem um reflexo passado.

Esta dor acutilante que trago no coração,
Será a prova de que o que vivemos não
Foi em vão? Será que valeu a pena termos
Quebrado as regras e os limites impostos?

Talvez tudo seja uma bela ilusão que criei,
Algo que só existiu na minha imaginação.
E de que me serve sofrer agora, em vão?
De que me vale esta tristeza sem fim?

De que me vale este ardor que trago no peito,
A toda a hora, a todo o instante, se não te
Posso ter? Se nunca mais te poderei dizer
Aquilo que sinto, numa noite cheia de luar.

Basta de recordações. Levem-me daqui.
Não tinham o direito de me despertar.
Não perturbem as águas...Elas estão calmas,
Agora.

18 maio, 2011

Contrariedades

Mesmo depois da chuva ter passado,
Mesmo após ter sido abençoada neste dia,
Mesmo além desta paz que senti hoje,
Consegues infiltrar-te lentamente aqui.

Depois de tudo o que pensei alcançar,
Mesmo depois de tudo o que achei conseguir,
Sei agora que não passou de um breve delírio.
Ilusão que quis trazer à vida; pura esperança.

Sei agora que não vai ser possível. Não.
Não vai ser assim tão fácil expulsar-te de mim.
Nem sequer tenho a certeza de que quero fazê-lo.
Devia, não era? Mas não. Ainda não...

Num minuto convenço-me a não o fazer.
A não voltar com a minha decisão atrás.
Mas se preciso, num batimento estou lá,
Nesse sítio, à espera eternamente. A desejar.

E mesmo quando não chego, mesmo quando
Resisto à tentação que me enche a todas as horas,
Há algo dentro de mim que suspira por mais.
Que grita, que faz de tudo para te ver. Só mais uma vez.

E se prometo a mim mesma que é a última, de facto,
Isso serve de pouco mais que nada. Nada.
Porque sei que rapidamente o dessassosego regressa
Para me atormentar. Para pedir mais do mesmo.
Para o exigir. E não pára até o alcançar. Até eu ceder.

Mesmo depois da chuva ter passado,
Mesmo após ter sido abençoada neste dia,
Mesmo além desta paz que senti hoje,
Mesmo assim, ocupaste um pedaço.
Agora quero-o de volta.

11 maio, 2011

10 maio, 2011

Ausente

«We could've had it all...we almost had it all...»

Aos poucos vou recuperando a vida,
Lentamente, vou ouvindo de novo
A voz da razão a chamar por mim.
A impedir-me de voltar aqui.

Ouça-a a ribombar aos meus ouvidos;
Questiona-me, interroga-me do porquê...
Não lhe ligo nenhuma: aqui as palavras
Deixam de ter interesse. Importância.

Como queres que te explique? Como queres
Que te diga, como queres que me desculpe?
Os meus actos não foram meus...Não foram.
A culpa podia ser minha. Talvez seja.

As palavras aqui não interessam. Já não.
O feitiço quebrou-se finalmente.
Como um relógio parado no tempo, ouvi
O seu vidro a estilhaçar-se. Libertando-me.

Tudo voltou ao mesmo. Convenço-me?
Mais importante, conveço-te a ti? Voz
Que pode ou não ter-me trazido de volta.
Que me relembrou de como eu era.
Antes de ele me acontecer. Antes da prisão
voluntária.

Sigo em frente. Convenço-me? Convenço-te,
Pequena voz em mim?
Libertei-me mas ele não me quer deixar ir.
Será que eu quero?...

08 maio, 2011

Desassossego

O cheiro do fumo da vela ainda aqui ficou
A pairar no ar.
Esta maneira espectacular de como fazem
O saxofone sofrer melancolicamente,
Enche-me de paz. Por fim.

O céu em tons que não se definem está indeciso.
Se espreitar pela janela, vejo que hoje o mundo parou.
Todos se mexem, mas devagar, sem saberem o seu
Destino. Todos continuam a caminhar.

Levanto-me e respiro fundo; se estiver sentada
Vou acabar por fazer o que não quero.
Se ficar confinada a este frenético espaço,
Muito em breve morro de solidão.

O vento sussurra até mim pelas árvores;
Ele já não quer saber de mim. Anda por aí...
Por todo o lado, anda até pelos sítios onde a
A minha mente vagueia, longe...

À minha frente vejo o veneno no copo,
Sei que o tenho de beber para terminar.
Vejo a chama acesa da vela que arde agora
Pela vontade de viver, e lentamente, tento
Não perturbar o enredo. Tenho não respirar.
Adeus mundo! Adeus desassossego.

07 maio, 2011

Sopro do coração

[Mais uma colaboração contigo. Obrigada por me ajudares a fazer história, mais uma vez...E o prazer é todo meu!]

Não sopra a usual brisa na rua onde sofro,
Sou eu sozinho, eu e as minhas pegadas,
E a minha única companhia, a solidão.
Alguns esperam um só sopro
Por mais suave que este seja...
Que mais ninguém veja tudo o que eu sempre quis...
Um vendaval, força extrema, sem receio
De abalar tudo à sua volta...capaz de penetrar pedra...
Mas eu jamais fui a excepção à regra.
O destino para comigo é castigo
E a sorte cega...
Agora, que me entendi nesta paixão morta
De quem já não sabe amar
Espero, como vós, apenas um sopro no coração...
E espero que, no fundo, esse sopro reavive a minha alma outrora apaixonada.
Espero que consiga trazer de volta a minha essência sonhadora, que acreditava na exaltação do sentimento humano.
Que acreditava que a felicidade é possível,
Que acreditava que os riscos valem a pena, no fim de tudo.
Porque passou tanto tempo desde que usei o meu coração para amar, que achava que ele tinha parado.
Estava já enferrujado, coberto com o pó das lembranças e eu pensava que nunca mais ia senti-lo a bater. Mas esse momento aconteceu e aos poucos, consigo senti-lo a voltar à vida.
Este sopro encheu-me de vontade para alcançar o céu.
Encheu-me de uma motivação incrível que me faz rir quando vejo a chuva a cair ou quando vejo o sol a esconder-se no horizonte. Subitamente sinto-me mais leve, sinto-me capaz de carregar o mundo inteiro sobre os meus ombros porque tudo é possível. Até o final feliz de que eu estou à espera há tanto tempo...
Mas já nem sonhar é como outrora...
Um jogo, um desafio, uma construção no caminho
Da vitória...Calei-me; tudo o que preciso agora
É de divindade em forma humana,
Alimentar uma qualquer chama
E voltar a casa
Sabendo que tudo fiz para
Recriar e viver o sentimento soberano.
Porque sem isto
Sou pouco mais do que ninguém.
É o que sou... é o que sinto,
E neste procurar faminto,
Daquilo que quero, daquilo que preciso,
Só não quero morrer na espera.
Nesta espera que nunca acaba.
Que parece nunca acabar.
Eu tento procurar aquilo que quero,
Mas isso é exactamente aquilo que não posso ter.
É tão ordinário que me causa um sabor amargo nos lábios.
É tão verdadeiramente irónico que me causa arrepios...

É tão verdadeiramente cruel e real
Que sinto uma pontada no coração.
Uma pontada que espalha o veneno do rancor,
Dentro de mim. Cheguei até aqui! Fiz o que melhor sabia,
Só para chegar e sentir o chão a fugir debaixo dos meus pés.
Aqui me queriam, desejavam a minha presença.
Queriam regozijar-se com a minha dor. Com a minha falta de vida.
E agora? Agora devo continuar a sonhar?
Agora dizem-me que devo seguir em frente, à procura de algo mais?
Algo que me preencha por completo, algo que me leve a sentir, de todo.
Saber o meu destino não foi algo que eu tenha pedido. Não é algo de que me orgulhe.
Apenas me tortura, dia após dia, arrepio atrás de arrepio, saber o que muitos sonham em saber.
Se vou ser feliz amanhã, se vou conseguir amar algum dia. Se vai ser possível algum dia sentir um sopro no coração que me empurre de volta à vida.
Que me encha de vontade de continuar a lutar contra o qual eu tenho a certeza que se vai suceder.
Como poderei alguma vez vencer a inevitabilidade? Como poderei libertar-me algum dia desta prisão que eu própria criei, dentro destas paredes?
Fui eu que me fechei aqui, distante de tudo. Afastada de todos os que me pudessem ferir com as suas lanças de desilusão. Afastei-me antes que a desconfiança esgotasse.
E assim fiquei, isolada do sentimento humano, completamente alheia ao que ainda faz o coração bater.
Agora tudo o que quero é recuperar algum do tempo perdido, partindo o espelho que encerra o passado.

Agora tudo o que espero, é um sopro do coração, que me faça reviver...

03 maio, 2011

01 maio, 2011

Pano de Fundo

«I never heard silence quite this loud...»

Ruídos familiares são repetidos maquinalmente.
Mais nada se ouve para além desta tensão ruidosa.
É tão macabra a sensação de estar aqui sentada, civilizadamente, rodeada de algo que pode ser simplesmente descrito como hipocrisia palpável.
É tão irónico que por dentro rio às gargalhadas. Rio até ser tão dolorosamente engraçado, que já não tem piada nenhuma.
Pergunto-me vezes e vezes sem conta se isto está de facto a acontecer. Se não é um sonho.
Mas já não aguento este silêncio fingido. A música classicamente associada a situações de delírio continua a tocar no fundo, a mergulhar tudo o resto em silêncio ainda mais pesado.
Só me apetece levantar-me e ir-me embora. Melhor; apetece-me fazer aquilo que nunca é feito, apetece-me levantar-me e gritar bem alto aquilo que todos podem estar a pensar.
Todos o sabem, todos pensam nisso, mas ninguém se atreve a falar. Ninguém ousa sequer imaginar tal catástrofe.
É preciso levantar-me agora e finalmente soltar o eco que está cá dentro,
Cá dentro sempre a repetir o que eu quero ouvir. Aquilo que eu preciso de dizer.
E a verdade que quer tão desesperadamente brotar de mim é só uma: acabem com as mentiras! Acabem com a farsa de hipocrisia que vos cobre o rosto. Estas paredes já estão manchadas com segredos, estas memórias já estão desgastadas com ódio e revolta silenciosa.
Porque eu preferia muito mais um cenário depois da guerra do que este momento decerto imaginado por mim. Este momento parado no tempo, (monótono) que me faz pensar que estou claramente insana. Que algo de muito errado se passa.
Porque este espetáculo aterradormente atroz não pode existir. Nunca existiu...

Nós, aqui, dentro destas quatro paredes, a agir como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse bem. Como se não estivesse tudo corroído com a miséria.

Nós aqui a dissimular estabilidade enquanto os violinos tocam, no pano de fundo.