01 maio, 2011

Pano de Fundo

«I never heard silence quite this loud...»

Ruídos familiares são repetidos maquinalmente.
Mais nada se ouve para além desta tensão ruidosa.
É tão macabra a sensação de estar aqui sentada, civilizadamente, rodeada de algo que pode ser simplesmente descrito como hipocrisia palpável.
É tão irónico que por dentro rio às gargalhadas. Rio até ser tão dolorosamente engraçado, que já não tem piada nenhuma.
Pergunto-me vezes e vezes sem conta se isto está de facto a acontecer. Se não é um sonho.
Mas já não aguento este silêncio fingido. A música classicamente associada a situações de delírio continua a tocar no fundo, a mergulhar tudo o resto em silêncio ainda mais pesado.
Só me apetece levantar-me e ir-me embora. Melhor; apetece-me fazer aquilo que nunca é feito, apetece-me levantar-me e gritar bem alto aquilo que todos podem estar a pensar.
Todos o sabem, todos pensam nisso, mas ninguém se atreve a falar. Ninguém ousa sequer imaginar tal catástrofe.
É preciso levantar-me agora e finalmente soltar o eco que está cá dentro,
Cá dentro sempre a repetir o que eu quero ouvir. Aquilo que eu preciso de dizer.
E a verdade que quer tão desesperadamente brotar de mim é só uma: acabem com as mentiras! Acabem com a farsa de hipocrisia que vos cobre o rosto. Estas paredes já estão manchadas com segredos, estas memórias já estão desgastadas com ódio e revolta silenciosa.
Porque eu preferia muito mais um cenário depois da guerra do que este momento decerto imaginado por mim. Este momento parado no tempo, (monótono) que me faz pensar que estou claramente insana. Que algo de muito errado se passa.
Porque este espetáculo aterradormente atroz não pode existir. Nunca existiu...

Nós, aqui, dentro destas quatro paredes, a agir como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse bem. Como se não estivesse tudo corroído com a miséria.

Nós aqui a dissimular estabilidade enquanto os violinos tocam, no pano de fundo.

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