26 maio, 2013

Setting Forth

"So here's my hope, my tired soul...And here's my ticket, I want to go, home"


Com cada passo, a distância encurta. Com cada passada, mais confiança.
Caminho debaixo deste sol escaldante, já tão usual. Espero que o toque que deixa na minha pele perdure. Que deixe a sua marca em mim, para um dia recordar esta sensação confortante de sentir o corpo invadido de luz, do que é quente.
A brisa traz o som consigo, traz a leveza do que é novo, a seriedade do que já aqui há muito habita - ela brinca comigo. Traz o pó que paira no ar, este pó que é diferente de qualquer outro. Ele representa a vida testemunhada, a vida árdua de muita gente. A minha gente. Os sacrifícios cravados na alma, algo que nunca ninguém poderá devolver-lhes - uma lição demasiado bem aprendida, não pode ser esquecida; o que foi visto, não pode ser apagado.
Caminho no deserto, há quarenta dias e quarenta noites. Esta areia ardente debaixo dos meus pés fá-los estalar, as solas já sofridas. Nem sei onde comecei, nem sei quando. Limitei-me a andar, primeiro em frente, depois já sem saber por onde ia. Tudo o que vejo é precioso, tornou-se miragem, símbolo do que encontro por aqui, mesmo que já o tenha visto infinitamente. O tempo está preso, engarrafado num âmbar solar e sinto que nada se mexe, nada se transforma. Está tudo na mesma, como sempre acontece - nunca nada muda por aqui. Sou peregrina, na minha própria terra.
Torno-me pequena, porque consigo vislumbrar a viagem e em comparação eu não sou nada. Sou simplesmente estas pernas que se movem, uma atrás da outra. O coração move a vontade, a vontade move o corpo e eu tomo decisão nenhuma. Vou onde eles me levarem também. Pelo caminho, vou encontrando estes sítios onde deus não pára, onde a morte espreita porque a vida desistiu de aqui ficar. O solo é árido, mas já ninguém o pisa; a atmosfera é dolorosamente seca, porque os que ainda se atrevem a respirar são tão escassos...
Contemplo aquela hipótese tentadora, inocente, simples. Aquela contra a qual luto sempre, aquela que me assusta. A mais fácil. Será assim tão horrível? Será assim tão mau abraçar as raízes, aceitar o que sou? De onde sou? Entretenho-me com a possibilidade durante alguns momentos: no fundo do meu coração, há sempre um palpitar que não consegue negar a verdade. Que irá sempre sentir a chama, a pertença. Haverá sempre um local a que chamo casa.
Caminho pelo deserto, há quarenta dias e quarenta noites. Debaixo do sol escaldante, eu contra a brisa que arrasta o bom e o mau, o que eu aceito e o que eu poderia aprender a aceitar. Debaixo de mim, os meus pés descalços a lutar contra a areia ardente, relembrando-me da dor que todos temos de superar.
Hoje não falo em ir... Hoje, falo em ficar.

25 maio, 2013

Remain Nameless

After the war. After the fear. After death.
They all stand and rise. They fall and rise again.
These people are long gone, but they are still here.
They remain, timeless. They remain, nameless?
They were once very much alive.
Walking the streets of the world, everywhere.
Witnesses to everything, they suffered. And laughed, I hope.
Only to more chaos, more obliterating rage.
What they called home, shattered to pieces.
Beauty, vanished. Life, destroyed. Dreams, crushed.
But not forever. The golden days would return.
I see them and they are alive. They are alive to me.
It is like nothing ever changed. Time stopped.
They didn't - couldn't - know what the years would bring.
How precious the knowledge of daily affairs would become.
Face upon face, building after building, I see it all.
The majestic river, the tower, the arch. They still live.
And they will never be forgotten in oblivion again.



London, 1927

08 maio, 2013

04 maio, 2013

Mundos Mudos

É espantosa esta habilidade de não esquecer, de não conseguir impedir que os pensamentos surjam. Capacidade de não me perdoar por cada hesitação, por cada momento em branco. Por cada não-gesto.
Há sempre barulho à minha volta porque mais uma vez o vazio traz o insuportável - o silêncio não me deixa continuar em paz. Instintivamente, tento evitar esse remoinho onde vivo numa calma sombria, tão incomum. Onde estou parada e em constante movimento, entre o mundo imaginário e o ultrapassado...
É estranho como carrego sempre esta espécie de luz (bênção maldita) comigo, para todo o lado, em todos os momentos; ao dormir, ao acordar, ao respirar, durmo acordada nesta outra dimensão paralela de onde não quero ou posso sair (transe). Talvez parte dela me mantenha sã, talvez me faça desvanecer cada vez mais. Mas penso que me mantém à tona.
Bizarra é esta sensação enormemente avassaladora de saudade, de que algo falta, de que se fechar os olhos por um segundo, me vou deixar ir (basta isso). De que me os meus sentidos me falam, de que a minha mente sussurra. De que o meu coração grita.
Tudo o que é quotidiano, o bom, o mau, o importante, o que é inútil...sentimos sempre uma esmagadora e triste necessidade de partilhar. De querer dizer-lhes que algo mudou, que ainda aqui estamos, no mesmo sítio, ainda à espera.
Então fazemo-lo mentalmente, secretamente. Para nós. Contamos-lhes o que aconteceu, o que queríamos que tivesse acontecido; o que sonhámos, o que ousámos desejar. O que fizemos, o que conseguimos alcançar. E habituamo-nos a essa mágoa serena e incontrolada. Convencemo-nos de que esta é a nossa vida. Já não vivemos sem ela.
Talvez um dia lhes digamos...Talvez nunca o faremos...Quem sabe.