"So here's my hope, my tired soul...And here's my ticket, I want to go, home"
Com cada passo, a distância encurta. Com cada passada, mais confiança.
Caminho debaixo deste sol escaldante, já tão usual. Espero que o toque que deixa na minha pele perdure. Que deixe a sua marca em mim, para um dia recordar esta sensação confortante de sentir o corpo invadido de luz, do que é quente.
A brisa traz o som consigo, traz a leveza do que é novo, a seriedade do que já aqui há muito habita - ela brinca comigo. Traz o pó que paira no ar, este pó que é diferente de qualquer outro. Ele representa a vida testemunhada, a vida árdua de muita gente. A minha gente. Os sacrifícios cravados na alma, algo que nunca ninguém poderá devolver-lhes - uma lição demasiado bem aprendida, não pode ser esquecida; o que foi visto, não pode ser apagado.
Caminho no deserto, há quarenta dias e quarenta noites. Esta areia ardente debaixo dos meus pés fá-los estalar, as solas já sofridas. Nem sei onde comecei, nem sei quando. Limitei-me a andar, primeiro em frente, depois já sem saber por onde ia. Tudo o que vejo é precioso, tornou-se miragem, símbolo do que encontro por aqui, mesmo que já o tenha visto infinitamente. O tempo está preso, engarrafado num âmbar solar e sinto que nada se mexe, nada se transforma. Está tudo na mesma, como sempre acontece - nunca nada muda por aqui. Sou peregrina, na minha própria terra.
Torno-me pequena, porque consigo vislumbrar a viagem e em comparação eu não sou nada. Sou simplesmente estas pernas que se movem, uma atrás da outra. O coração move a vontade, a vontade move o corpo e eu tomo decisão nenhuma. Vou onde eles me levarem também. Pelo caminho, vou encontrando estes sítios onde deus não pára, onde a morte espreita porque a vida desistiu de aqui ficar. O solo é árido, mas já ninguém o pisa; a atmosfera é dolorosamente seca, porque os que ainda se atrevem a respirar são tão escassos...
Contemplo aquela hipótese tentadora, inocente, simples. Aquela contra a qual luto sempre, aquela que me assusta. A mais fácil. Será assim tão horrível? Será assim tão mau abraçar as raízes, aceitar o que sou? De onde sou? Entretenho-me com a possibilidade durante alguns momentos: no fundo do meu coração, há sempre um palpitar que não consegue negar a verdade. Que irá sempre sentir a chama, a pertença. Haverá sempre um local a que chamo casa.
Caminho pelo deserto, há quarenta dias e quarenta noites. Debaixo do sol escaldante, eu contra a brisa que arrasta o bom e o mau, o que eu aceito e o que eu poderia aprender a aceitar. Debaixo de mim, os meus pés descalços a lutar contra a areia ardente, relembrando-me da dor que todos temos de superar.
Hoje não falo em ir... Hoje, falo em ficar.
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