30 março, 2011

Afogamento

«But I can't swim anymore...»

Há um momento em que já nada vale a pena. Em que mesmo que queiras continuar, mesmo que queiras contrariar esse instinto preservador, não podes.
Porque o cansaço é também físico. E há limites literais que não podemos ultrapassar.
Eu estou tão cansada de lutar contra a tua corrente...Estou tão cansada de tentar nadar no mesmo lugar, que simplesmente perdi todas as forças. Perdi as últimas esperanças de prosperar.
Já sabia que este dia ia chegar. O dia em que o meu corpo ia contrariar a minha vontade. Já sabia que ia chegar o dia cinzento (solarento) em que ia sentir esse último sopro de vontade a esvaziar-me. A ir-se embora, na direcção oposta à nossa.
Diz-me o porquê...Diz-me o porquê desta exaustão; diz-me o porquê deste cansaço permanente, que me impede de me importar. Que me impede de me auto-destruir.
Esse cansaço mantém-me sã, mantém-me viva. Eu sei disso. Mas sinto que devia impedir a tua inevitável queda. Não consigo. Acho que nunca conseguirei.
Bem sabes que tentei, durante muito tempo. Fui paciente, durante horas e horas escutei o que te feria a alma. Fiz-te rir quando choravas por dentro, estive a segurar-te a mão quando choravas até por fora.
Acalmei-te de dia e de noite e vi contigo vários fins de tarde. Ouvi o rio correr, olhei para as estrelas e senti que podia alcançar tudo. Senti que ao teu lado, tudo é mais fácil.
Contigo ri até ficar sem ar, contigo falei horas a fio, sobre nada em concreto. Falamos sobre o tudo também, mas isso fica para outra história.
Tento reviver esses momentos em que a minha eterna luta contra a corrente ainda valia a pena. Pior, tento recordar o tempo em que a minha exaustão ainda fazia sentido. Hoje, já não.
E tento recapturar esses momentos, mesmo com a certeza de que num futuro próximo, eles voltarão. Mas até lá, já me terei afogado. Até lá, não resta nada.
Há um momento em que já nada vale a pena. E eu desisti de nadar contra a inevitabilidade, antes que me perdesse na tua corrente.

28 março, 2011

22 março, 2011

Perfume

É estranha a maneira como este aroma liberta sensações mais palpáveis do que muitas das coisas que me rodeiam.
Este aroma transporta-me imediatamente para o local que tu tão bem conheces. Para esse momento em que o calor era tão denso que a tua pele se incendiava na minha.
Um calor tão quente directamente gravado na minha carne temporária...A carne que ambos criámos.
O desejo evaporou-se, a paixão desapareceu. O que restou é apenas a prova de que não foi apenas um sonho.
Criámos algo belo, algo novo? Acho que sim. Porque apesar de muitos pés já terem percorrido este trilho, nós fizemos a diferença. Nós alcançámos os limites que ninguém ousou explorar.
Tu percorreste cada porção da minha pele, sob os teus dedos suaves e conheceste cada milímetro da minha alma.
Nós perdemo-nos e afogámo-nos um no outro. E assim morremos felizes. Mas a nossa morte não foi para sempre. E sabíamos que esse fim era eminente, esse fim que nunca quisemos imaginar.
Pensando agora nisso, é estranho como foi possível encontrar-te. Todos os dias passamos por centenas de pessoas. Muitas delas entram até na nossa vida. No entanto, num universo tão vasto, basta às vezes uma para mudar a nossa vida.
Basta apenas uma para que a vida nunca mais seja a mesma. Basta uma para que o mundo nunca mais seja visto desta maneira.
E realmente é estranho, de uma maneira irónica, como nós nos conseguimos fundir num só. Como o meu estado metafísico deixou de ser singular e os nossos corações passaram a bater a um só compasso.
Isto foi o que a memória deste cheiro viciante me trouxe. Trouxe-te até mim. Por um dia.

21 março, 2011

Fechadura

Cada porção de pele está francamente sensível à irritação que se evapora de mim, por tentar tão arduamente encaixar algo que não cabe na fechadura. Algo que nunca irá caber.
E por um lado, sei que a culpa não é propriamente minha, mas por outro, sinto-me incapaz. Incapaz de fazer uma tarefa tão simples: conseguir com que as peças encaixem. E eu que pensava que elas encaixavam sempre...Sempre.
Agora que sei que nada disso é verdade; agora que sei que nada disso é real (nem esta dor tão lúcida e sóbria), agora posso seguir em frente, sabendo que isto nunca aconteceu. Que não passou de um sonho demasiado real.
Sei que esse sofrimento, essa dor de ilusão, esta mágoa física, tudo isto foi apenas para chegar ao fim da viagem e perceber que nada valeu a pena.
Que nada valeu as horas de prece, para que algo de novo acontecesse; todas as velas queimadas até ao seu amâgo, até estarem destruídas num lago de cera foram sacrificadas por algo que não vive. Toda a crença e toda a fé, arrasadas por nada mais forte do que rajadas de vento tardio.
A vida caiu-me aos pés. Está na hora de tentar alcançar pedaços que, de facto, encaixem.

A Origem

«I have come curiously close to the end, now...»

Rio-me para não chorar. Rio-me para evitar outra reação qualquer.
Afinal, que querem mais? Constantemente, sempre a pedir mais, e mais, numa luta sem fim.
Se soubessem a raiva que senti nesse momento...Se soubessem o tornado que começou no meu interior, só por ouvir essas meras palavras...
Não tento sequer respirar, não tento falar para que a revolta não ecoe cá para fora. Para quê mostrar a frustração que se debate dentro de mim? Para quê negar o monstro de ira contida que há dentro de todos nós?
São poucos os que compreendem a verdadeira natureza humana, aquela que se prende com as nossas mais remotas raízes. Aquela que se prende com as entranhas perigosamente primais.
A nossa origem é violenta, é extremamente animal, embora muitos tentem fingir que não.
Temos o mal dentro de nós, mais frequentemente do que o bem que durante séculos nos foi ensinado. Marcado a ferros na carne que agora já não sente nada.
Esse mal, o mal impenetrável, esse habita sempre, cá dentro. Num beco escuro, sem nenhum vestígio da luz do dia. E é nesse mal que eu agora encontro paz, encontro serenidade.
É normal estar zangada, é normal sentir raiva. É normal ser diferente. No entanto, sou igual, sou um pouco do mesmo.
E é esta capacidade de cometer actos verdadeiramente atrozes que ainda me supreende. Que me deixa calma, sabendo que se não encontrarmos alguma maneira de expelir este demónio interior, ele irá sair de maneiras bem mais imperdoáveis. Bem mais fatais.
Algumas pessoas passam a vida toda a tentar negar a sua génese, passam toda a sua curta mortalidade a tentar afastar-se o máximo possível do que realmente são. A esconder-se, a fingir que são algo que no fundo, sabem odiar. Que no fundo, lá bem no fundo, gostam de odiar. E odeiam. E acabam por, consequentemente, se odiar a si próprios.
Porque é que não admitem? Porque é que tentam sempre negar a vossa essência, aquilo que vos permite ser irracionalmente humanos?Por que é que tentam esconder-se atrás das falsas aparências, dessas habéis ilusões que não servem para nada, a não ser o vosso próprio engano. Porque é que não aceitam simplesmente o facto de gostarem de ter o sangue nas vossas mãos; o facto de sorrirem sempre que se deparam com a perversidade do dia a dia. O facto da miséria vos deixar um pouco menos sós...
É natural. O ser humano é o ser mais egoísta, egocêntrico e insano que conheço. É o único que se deleita com as lágrimas salgadas que tendem a escorrer.
E mesmo assim, os que conheço que já abraçaram a verdade, são poucos.
Menos ainda são os que aceitam o mero facto de que, por mais que tentem, nunca conseguirão escapar a esta vontade de serem. Nunca conseguirão negar a sua origem.

18 março, 2011

Untitled

Para quem ousou sonhar mais alto,
Para quem ousou seguir em frente, mesmo sabendo qual o caminho que o esperava...
Para quem não teve medo de viver, para quem não teve medo de errar.
Para quem não quis fechar os olhos e perder o melhor do mundo.
Esse alguém está dentro de todos nós. Esse alguém só precisa de ser encontrado, e acreditem, ele quer ser encontrado.
É ele que nos diz quando devemos agir, é ele que nos diz quando arriscar, é ele que nos guia até sermos felizes.
Infelizmente, não é ele que fica e apanha os pedaços que sobram do nosso coração depois de ele ser despedaçado. Não é ele que fica e que nos aquece a alma quando nem nós próprios sabemos o que sentir.
Não é ele que nos sussurra ao ouvido que tudo vai ficar bem...Não.
Ele é irreflectido, ele é ingénuo e impaciente. Ele é impulsivo e imprudente e às vezes só me apetece fingir que não sei que ele existe.
Talvez assim, desapareça de vez.

13 março, 2011

Red Dawn

«Eye on the tv, cause tragedy thrills me..»

Os tambores de guerra há muito que se fizeram ouvir. Desde então, a humanidade estacou, sem respirar, à espera de ouvir a sua sentença.
Mas claro, por dentro, as vozes gritavam o mais alto que podiam. O coração batia impossivelmente rápido. E a espera continuou.
Sem me intrometer nesta guerra entre deuses e mortais, entre o bem e o mal, esperei em silêncio. E vi muitos dias a amanhecer, a regressarem vermelhos, manchados pelo sangue que nunca será estancado. Que nunca poderá ser reposto.
Vi vários dias a acabar, trazendo a incompreensão, trazendo uma dor tão lancinante que por instantes, julguei ter a certeza de que não havia Deus algum que trouxesse este inferno aos seus filhos.
E à vossa volta, vêem o mundo ruir, vêem o mundo tornar-se oco, vêem o caos a surgir e mostram-se impassíveis. Sentem até alguma alegria, algum tipo de satisfação por ver o sangue a correr. Por verem as vidas inocentes a serem desperdiçadas por capricho.
Assistem com vontade às revoltas que acontecem à vossa volta, com o intuito de alcançar uma tão desejada liberdade.
Rejubilam-se na destruição que percorre o mundo num suspiro, vivem indirectamente a desgraça dos outros, e no meio disso, conseguem encontrar paz com vocês próprios. Acima de tudo, conseguem ficar em paz com o vosso Deus.
Vivem felizes por saber que noutro lado do planeta onde habitam, a respirar o mesmo ar que vocês, vidas humanas estão em perigo, estão destroçadas, devido à vossa dedicada missão de reduzir a vida a simples monte de cinzas, a ondas gigantes ou a fendas colossais.
Não posso ficar aqui simplesmente a assistir! Não posso manter-me imperturbável enquanto vos observo a acabar com tudo o que há de bom. A acabar com a inocência de uns, com a felicidade de outros. Com a vida de muitos.
Eventualmente, vão ser deixados para trás. Porque até os deuses vão decidir-se e vão considerar-vos uma causa perdida.
Vão ficar finalmente orgulhosamente sós! À vossa mercê, com a necessidade de limpar este sangue que já não sai, por mais que tentem. Nem este lixo que nunca irá desaparecer.
Os tambores já começaram a tocar.
Agora, é tarde demais.

08 março, 2011

Vila do Romance

Desencontrada num labirinto de verdura e de alegria, inspiro fundo para absorver todos os séculos de História, todas as palavras sussurradas por antigos amantes ou até todos os rituais feitos nesta zona mistíca.
Conseguimos logo sentir no ar a magia deste sítio, conseguimos presenciar um passado não muito distante que já foi aqui vivido. Sentimos no ar a nostalgia, a melancolia de quem foi separado pelo destino. Sentimos o desespero de alguns, bem como a sua extrema felicidade, em momentos já acabados.
Este lugar diz-se especial, com poderes extraordinários e tudo à nossa volta parece inspirar-nos esse sentimento de sermos demasiado pequenos face ao poder sobrenatural que habita em cada bosque e em cada fachada manuelina.
Senti-me pequena, mas ao mesmo tempo grata por poder sentir a névoa dos tempos aúreos, por poder vislumbrar cada esquina que parecia esconder um segredo de máxima importância.
Por esses trilhos íngremes e gelados consegui sentir o meu coração a bater mais rápido, só por imaginar. Só por poder usar a imaginação, só por poder ser eu a criar a História, e não outra pessoa qualquer. Ali, sou eu que escolho quem são as personagens, quais os seus trajectos, e principalmente, qual o seu fim.
Sou eu que controlo o tempo, o espaço, o agora e o antes. Sou eu que decido quem é feliz e quem deseja morrer, não existe ninguém a dizer-me o contrário. Não existe a impotência, não existe o impossível.
Quem me dera ter ficado por lá, a perder-me nas ruas estreitas e cheias de vida, para sempre.

Sintra, 8 de Março de 2011

07 março, 2011

Somewhere only we know (continuação de Konstantine)

Sem qualquer esperança de te encontrar aqui,
voltei a este sítio. Mesmo sem saber o caminho, este sítio guiou-me de volta, onde fui feliz contigo.
Cheguei aqui porque isto é tudo o que eu preciso para poder parar de pensar, para poder deixar os pensamentos em (forma de) turbilhão repousar nesta areia por pisar.
Porque aqui há espaço para deixar de ser eu, e ser outra pessoa qualquer. Outra pessoa que não tenha de sentir uma dor no coração quando te imagino a contares-me todos os pormenores que eu adorava ouvir, noutro contexto. Que nao sinta arrepios de tristeza a percorrem-me quando imagino o que lhe querias poder contar a ela (deve haver uma ela, por esta altura).
Outro ser humano que soubesse o que é estabilidade, que soubesse o que é, por um dia, não se sentir culpado e impotente...
Sei que, inconscientemente, a minha mente decorou todas as curvas, todos os muros de pedra e todas as árvores sombrias para que um dia, conseguisse trazer-me aqui de volta. Porque só aqui encontrei o alívio que procurava.
Foi nesta água gelada, nestas rochas cortantes, nesta chuva quente...Foi neste sítio que a minha memória partilha com a tua, foi aqui que vivemos os momentos que me mantêm viva, por agora.
Foi aqui que te vi, abstraído do mundo, completamente etéreo e distante. Foi aqui que vi a tua essência, aquela pela qual me apaixonei tão perdida, irreflectida e desastrosamente.
Gostava que estivesses aqui comigo, para poderes apreciar este teu tempo de eleição: as nuvens estão escuras, mesmo à espera de rebentar num pranto divino e o mar está revoltado com o seu próprio deus. Como vês, tudo está à tua espera, até eu. Por favor, se me puderes ouvir, volta a este sítio que eu guardei no coração. Volta até mim, onde quer que estejas.
Regressa a este lugar que só nós conhecemos. Tráz contigo o ténue raio de sol que já não habita na minha vida desde que partiste.
Tráz contigo o teu sorriso, as tuas palavras, o teu cheiro que eu tento em vão reencontrar em todos os sítios, em todos os espaços em branco que agora parecem preencher o meu quotidiano.
Onde estavas tu, não restou nada. Só as lembranças. Mas infelizmente, elas não servem para manter a tua memória viva. Para isso, preciso de ti aqui, agora, a meu lado. Para viveres a tempestade que estalará em breve.
Regressa a casa, por favor. Regressa num sussurro inaudível, mas regressa.
Sempre tua, Konstantine.

To be continued...

Parte I -

Parte II -
Parte III -
Parte IV -
Parte V -

06 março, 2011

Where is my mind?...




(Não há mais nada a dizer depois disto...Apreciem!)

04 março, 2011

Anchors Away

«I can't promise you that everything will be okay..»

Estou farta destas velhas memórias, destas mesmas memórias que me acompanham há algum tempo.
Preciso de novas memórias, preciso de encontrar novas coisas para viver.
Preciso de me livrar das antigas, preciso de as rasgar, preciso de lhes pegar fogo e ficar a ver até à última delas se transformar em pó.
Já não é o querer, é o precisar de que algo mude. Algo TEM de mudar.
Não acredito que estou prestes a embarcar nesta viagem de desassossego, nesta espiral de mágoa e tortura constante de querer saber, de querer imaginar e de sobretudo, querer viver isso.
Só os loucos conseguem dar esse passo em frente de deixar tudo para trás, por isso sei que vou no caminho certo quando sei que preciso de perder o controlo.
É engraçado como a distância é tão dolorosamente moldável. Às vezes tão perto, mas ao mesmo tempo, ironicamente, tão longe.
Sei que não vai ser fácil, mas também nunca ninguém me disse que o ia ser. Mas se aterrar nesta dimensão com ambos os pés assentes na terra e com os olhos bem abertos, esta pode bem ser das melhores sensações que posso viver: lançar a âncora ao mar, e deixar-me ir ao sabor da maré...

«Do you know the way, to be in one place, but sway?..»