21 março, 2011

Fechadura

Cada porção de pele está francamente sensível à irritação que se evapora de mim, por tentar tão arduamente encaixar algo que não cabe na fechadura. Algo que nunca irá caber.
E por um lado, sei que a culpa não é propriamente minha, mas por outro, sinto-me incapaz. Incapaz de fazer uma tarefa tão simples: conseguir com que as peças encaixem. E eu que pensava que elas encaixavam sempre...Sempre.
Agora que sei que nada disso é verdade; agora que sei que nada disso é real (nem esta dor tão lúcida e sóbria), agora posso seguir em frente, sabendo que isto nunca aconteceu. Que não passou de um sonho demasiado real.
Sei que esse sofrimento, essa dor de ilusão, esta mágoa física, tudo isto foi apenas para chegar ao fim da viagem e perceber que nada valeu a pena.
Que nada valeu as horas de prece, para que algo de novo acontecesse; todas as velas queimadas até ao seu amâgo, até estarem destruídas num lago de cera foram sacrificadas por algo que não vive. Toda a crença e toda a fé, arrasadas por nada mais forte do que rajadas de vento tardio.
A vida caiu-me aos pés. Está na hora de tentar alcançar pedaços que, de facto, encaixem.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

A única beleza da frustração é quando serve de essência a este tipo de espirais(neste caso o teu texto). Life suck so much until the pieces really fit, e está fantástico o teu texto, a escolha das palavras e a descrição. Não poderia deixar de venerar: "Cada porção de pele está francamente sensível à irritação que se evapora de mim, por tentar tão arduamente encaixar algo que não cabe na fechadura."
Em termos poéticos, perfeito: todas as velas queimadas até ao seu amâgo, até estarem destruídas num lago de cera foram sacrificadas por algo que não vive."
E dói-se na alma de forma triste: "Sei que esse sofrimento, essa dor de ilusão, esta mágoa física, tudo isto foi apenas para chegar ao fim da viagem e perceber que nada valeu a pena."

Estás de volta, keep going, spiral

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