Quero gritar. Quero gritar a plenos pulmões, quero gritar e ser ouvida. Quero que todos ouçam o que tenho a dizer. Quero gritar até que a garganta me doa e o ar acabe. Quero gritar para todos os cantos do universo, quero evaporar-me. Quero gritar até ficar sem fôlego...
Quero gritar até que o todo o mundo perceba: QUERO SER FELIZ!
Fito sem cessar esta porta à minha frente. Uma porta que me pode levar a qualquer lado, ou a lado nenhum, tudo depende de mim. Mas o que é necessário é fazer alguma coisa. Fito a porta que se abre apenas para me mostrar o vazio infindável, este vazio absoluto e invencível e estranhamente reconfortante que habita no meu ser. Nem sempre a mudança é boa...
Fecho os olhos e tento concentrar-me apenas no nada, no abstracto, mas neste momento, isso é a tarefa mais árdua que tenho de enfrentar. Não é justo...Numa luta contra o sono, contra o próprio cansaço, é óbvio que não vou ganhar, por muito que tente. A verdade é que abro os olhos outra vez, talvez para me certificar que tudo permanece na mesma ou talvez apenas para sentir que não sou a única pessoa no mundo, efectivamente. É que ao mesmo tempo que me viro de um lado para o outro num labirinto de lençóis, sob a protecção de um felino de olhos verdes, milhões de pessoas estão acordados, noutra situação diferente, noutra luta diferente. E é por isso que não durmo. Porque apesar da concentração no preto, os pensamentos chegam de rajada e instalam-se. Os sons chegam e não arredam pé e em breve, todas as cores terão ocupado o lugar que o preto outrora obteve. Abro os olhos de novo. Se até o meu cérebro está contra mim, que posso eu fazer? Olho para as paredes à minha volta e reparo que mesmo sendo menos assustador que na infância, estar sozinha acordada à noite ainda trás arrepios. As sombras dos galhos ganham vida e, subitamente, acenam-me, como que a embalar-me para o mundo dos sonhos que sonho alcançar. Olho pela janela e vejo a luz da lua, tão pura, tão cheia de vida que simplesmente deixo de lutar contra algo que não está nas minhas mãos. Simplesmente deixo de ter receio, deixo de pensar nas poucas horas concedidas ao sono e deixo-me ir, aproveitando cada segundo de paz, deixando-me alagar em imagens, pensamentos e cores, até perder de vista. De repente, sinto que chegou a hora, e antes de fechar os olhos, sorrio porque finalmente sei que não estou sozinha.
«You're making me feel, monsters are real, You're making me feel I'm not alone»
Ao fundo, um céu cinza que me ilumina, vai-se esfumando, misturando-se com um futuro menos cinzento. Espero eu. O tempo, chuvoso, tal como o meu estado de espírito. Sinto calor, sinto frio, sinto tristeza e melancolia. Talvez até uma ponta de alegria, mas ao mesmo tempo, não sinto nada. Sinto o vento, mas não sinto a tempestade que geralmente causa dentro de mim; sinto a água de chuva a ser absorvida pela minha alma, mas não sinto a exaltação do meu ser, ao tornar-me parte dela. Olho-me ao espelho, e por vezes, não sou eu que vejo no reflexo. É apenas uma imagem de mim, parada, demasiado bloqueada a pensar no que se passa, a tentar perceber o que aconteceu pelo caminho. Não tenho mágoa dentro de mim. A revolta é pouca. A raiva, não tanto, mas nem sempre. O que é que eu quero mais? Aquilo que não posso ter? Aquilo que sei que por muito que lute e que corra, por muita dor e lágrimas, nunca vai ser meu. A única coisa que quero, é aquela que não posso ter. É o que eu penso querer, é o que eu ouso cobiçar. Não tenho remédio, estou para além da esperança. Estou à deriva dentro de mim, mas pela primeira vez, não me quero encontrar. Porque enquanto perdida, posso ser quem quiser, fazer o que me faz feliz, sem pensar nas consequências. Enquanto esquecer o meu verdadeiro eu, posso finalmente viver os sonhos que sonhei, as realidades que durante muito tempo criei. Para isso, tenho de evitar espelhos de vidro, ou os outros, que vivem nos olhos de quem me vê por quem sou.
Perdida, sem rumo, talvez me encontrasse à deriva neste mar que criei. Mas já não. Subitamente encontrei-me num emaranhado de memórias e palavras e sons e imagens que me elevaram o espírito e a alma a outro estado completamente diferente. E foi preciso perder-me totalmente para me encontrar de novo no meio do fumo quente que me tocou a pele como as asas de um anjo protector. Foi preciso afogar-me em nevoeiro, simples vapor de água para ser elevada a outro mundo e voltar a aterrar os pés na terra, lentamente. Encontrei-me o meu centro, onde tudo era quente e calmo, e onde havia paz e o mundo podia parar só por chover ou só por fazer sol. Por coisas que, apesar de nos indicarem algo, ninguém pára para ver acontecer no seu estado mais puro, mais natural, levando-nos de encontro à nossa essência e ao que ficou perdido pelo meio de séculos de existência. Uma música antiga e distante ecoou nos meus ouvidos, como que a chamar-me de uma realidade a anos luz de mim, trazendo-me de volta ao mundo actual, dizendo-me que apesar de ter tido um pedaço de iluminação comigo, apesar de ter experimentado um pedaço de céu absolutamente incrível, esse tipo de sensações não são garantidas a todos os mortais, e quando são, é por pouco tempo. Nem todos os seres que habitam o meu planeta conseguem alcançar estes pequenos pedaços de divino porque não estão dispostos a largar tudo, a perder tudo, mas ao mesmo tempo, a ganhar muito mais. Não têm vontade de arriscar e de sentir tristeza em quantidades inimagináveis ou a felicidade que jorra por cada um dos nossos poros. Não, não têm essa necessidade de viver, e por isso, nunca saberão o que num simples lavar da alma poderiam conseguir, adquirir. Ali estive, onde senti chuva, vento e sol, trovoadas e o luar a incidir em mim. Estive noutros locais, visitei culturas e pessoas que nunca tive a sorte de conhecer, mas que decerto terei. Estive perdida nos confins do mundo, do mundo que sou eu e apesar de ter voltado, não esqueço o que lá vivi, e sobretudo, o que aprendi sentindo-me mais imortal do que a maioria. Abri os olhos e tudo o que vi foi o nevoeiro que me rodeava, trazendo-me de volta a casa.
Acho que me atravessaram uma lança pelo coração. O tempo acabou de parar e olho à minha volta, completamente sem rumo. O caos acumulou-se em segundos e a minha vida subitamente parou também. A tragédia, a dor, a própria desgraça abateu-se à frente dos meus olhos, num dia que poderia ter sido igual a qualquer outro. Mas não foi. Marcou-me como um ferro em brasa que nunca mais será apagado da minha pele, da minha protecção. Doeu cá dentro, apesar de ser um fenómeno alheio. E a sede de sangue que à minha volta se espalha rapidamente pelas veias da população, atinge-me em cheio como uma onda sem remorso. A atitude de curiosidade pelo incrível, pela tragédia, pela tristeza desconhecida que os move sem olharem a meios, faz-me cuspir sangue que já não suporto possuir, por ser parte deles. Como é possível o meu mundo ter parado, mas tudo continuar na mesma? Porque não estão todos em choque, marcados pela injustiça e insegurança? Como conseguem seguir com as vossas vidas, a apenas metros de distância de onde tudo mudou? É a lei da vida, é o instinto de sobrevivência que ecoa pelas ruas do mundo, que grita dentro de nós, bem alto. Porque se uns morrem, outros nascem e se alguns estão feridos, os outros têm de continuar a viver para que haja equilíbrio. Para que o mundo não pareça tão grande e assustador. Olho e vejo que as minhas cicatrizes e queimaduras ainda não sararam, vejo que me afectou de uma maneira que nem eu percebo. Eu vi o embate entre a vida e a morte, eu vi, com estes olhos que agora contemplam um mundo em vias de extinção, a presença daquela que nos acompanha todos os dias, mostrando-nos que nunca se esquece de vir buscar a nossa alma. Eu vi e senti o horror, eu vi e senti o pânico. E se em água pura consegui expressar o bloqueio mental, em palavras não consigo explicar a brutalidade e no entanto, realidade com que lidamos diariamente, ao estarmos constantemente em contacto com a raça humana. Eu ainda não estou totalmente em mim. Algo mudou, cá bem no fundo. Fiquei marcada com as presas da destruição que presenciei. E se isto serviu para que um novo mundo existisse, eu não sei. Talvez ele já existisse e eu nunca tinha reparado nele. Ou talvez o tenha mesmo criado para poder continuar a acreditar em coisas que costumava conseguir acreditar. Em coisas que agora me parecem apenas um mero e distante sonho, coisas que agora me parecem hipócritas e ilógicas, sob a pena de parecer mais céptica do que alguma vez fui. Porque costumava acreditar em muita coisa, que agora se viu reduzida a quase nada. Algo me mudou, fui marcada por dentro. E esta queimadura arde-me, chama-me para me relembrar do que percebi, do que me atingiu de frente. E nem esta chuva gelada pode apagar a chama que se cria no ardor do queimado. E nem toda a água do mundo podia apagar as imagens que me atormentam quando fecho os olhos e vejo que a realidade da vida pode mudar em breves segundos. Estou neste poço sem fim, onde me cruzo comigo, e com todas as minhas personalidades, numa reunião que apenas me confunde mais, impossibilitando a minha distinção do real e da imaginação, do antigo e do presente, criando dias longos que se seguem de noites ainda mais longas, num espelho de sonhos compridos e duradouros. Tudo misturado, leva à espiral de poeira que é a minha vida, agora. Quero dar com o fim dela, mas não encontro o sinal de saída e até lá, fico aqui parada, neste cruzamento, enquanto o tempo está parado, rodeada de caos que não posso controlar. Fico aqui, com o tempo parado, sem ter certezas de nada, a não ser das dúvidas que tenho, à espera de iluminação que luto para encontrar. Fui perfurada pela lança do desespero. E agora, tudo o que quero, é conseguir arrancá-la do meu coração danificado, e estancar o sangue que jorra, levando consigo pedaços de mim.
Chega deste silêncio forçado! Chega de tentar controlar a multidão, a revolta, o motim que se gera dentro de mim! Chega de tentarem calar a razão e a loucura, o bom senso e a falta dele. Chega de me tentarem amarrar a algo que não está na minha natureza, a algo que não me preenche. Acaba por aqui o reinado das palavras, acaba aqui a minha liberdade. A minha capacidade de extrair o veneno directamente do meu coração. Fiquei sem ela há algum tempo e agora, por mais que tente, por mais que corra, por mais que procure e olhe por todo o lado, não há meio de a encontrar. O medo acabou, o receio ficou para trás. A insegurança já foi, os passos foram dados, as decisões tomadas. Lutei tanto para aqui chegar, que perdi a noção do caminho percorrido. E acabei aqui, neste quadro branco, vazio, mais escuro que a escuridão, à procura de mim, à procura do dom que se perdeu nas entrelinhas. Fico aqui, a recuperar o fôlego, de tanto tentar encontrar, de tanto correr, à procura de algo que nem eu sei ao que se assemelha, a algo que nem eu sei reconhecer. Fico aqui, nesta revolução silenciosa, onde o que se ouve é apenas o meu coração a bater e a morrer aos poucos, enquanto também eu sofro. O que se ouve, é o tempo a passar, e eu, aqui, no vazio, sem respirar. Sem inspiração.
Vim até muito longe. Voei para encontrar distância de todas as paisagens onde via o teu rosto. Não para te esquecer, claro que não. Apenas para criar espaço entre a pessoa que eu era e a pessoa que sou agora, sem ti. É verdade, fi-lo para me lembrar ainda mais de ti e de quem era, quando me amaste. Dessa pessoa, nem sinal. Não a encontro por aqui, e assim, tento mais arduamente recriar o melhor momento das nossas vidas. Neste nascer do sol não vejo mais nada senão o teu sorriso radioso, quando o presenciávamos. Ao ver este cais calado e deserto só me posso lembrar apenas da maneira adorável como punhas a tua cabeça no meu ombro, fechando os olhos, respirando fundo. Fumo este cigarro como se fosse o último e penso no caminho que me trouxe até aqui. No tempo que demorei a encontrar um novo lar onde pudesse reconstruir-nos. Onde pudesse fingir que tu na realidade estás aqui ao meu lado, a ocupar o espaço vazio no banco, a ocupar o buraco negro no meu coração. Ai Konstantine, Konstantine. Que te passou por essa majestosa cabeça para me deixares ao sabor do vento? Para me forçares a atravessar países e oceanos, cidades e sítios inexistentes? Acho que perdi um pedaço de tudo, quando me encontrei. Perdi um pedaço da tua ingenuidade, que muito gentilmente me transmitiste, um pedaço de optimismo. Da tua capacidade para ver o mundo em tons irreais. Da possibilidade de rir, amar e ser amado. Perdi-me pelo caminho Konstantine, e não sei voltar ao trajecto que tracei. Se acreditasse em tal coisa, pedia aos céus que te trouxesse até mim, agora mesmo. Pedia para sentir o teu perfume doce, a tua pele quente contra a mim e os teus lábios de amora. Sei que não vale a pena torturar-me com desejos tolos e fantasias. Com algo que só me trás mais dor. Mais desilusão, e não quero ter o coração cheio de mágoa, Konstantine. Não quero tornar-me em algo do qual não gosto, com que não me identifico. Não quero tornar-me na pior versão de mim. Não quero mesmo, por isso, faz o que for preciso, mas salva-me. Salva-me de mim próprio. Deito o cigarro ao mar, e de mãos nos bolsos para tentar esquecer este frio cortante, olho uma última vez para trás, e sigo caminho, escolhendo o meu destino. Bom-dia Konstantine
Abro os olhos para saber que não estou a sonhar. Vejo a estação de metro onde estou e percebo que não é um sonho. Não, nunca esteve mais longe disso. Os bons sonhos há muito que me abandonaram... Ao meu lado o banco vazio significa muito mais do que o vazio que me corrompe o coração. Significa muito mais do que a tua falta na minha vida, significa muito mais do que eu estou a perder. A estação vai enchendo e os meus olhos procuram incessantemente por ti, no meio da multidão. Procuram em vão por um sinal de ti que iluminasse a minha alma, que me devolvesse o que perdi. Eu sei que a culpa é minha, eu sei que fui eu que errei, eu sei que estraguei a melhor coisa que já me aconteceu. Julgas que não sei? Julgas que não é isso que me mantém acordada toda a noite? Os metros vão e vêm mas eu permaneço aqui presa, sem saber para onde ir, sem saber o que fazer. Era tudo muito mais fácil quando te tinha ao meu lado para me guiar. Agora só resto eu, perdida, sozinha, aqui ao frio, a andar de um lado para o outro, em círculos. Se me ajoelhasse neste chão gelado e chorasse sem fim, será que voltavas? Será que se implorasse aos céus, devolviam-me os momentos de felicidade contigo? Talvez... Mas nada voltaria a ser o mesmo, depois de eu ter estragado o que tínhamos. Depois de eu partir e levar um pedaço da tua alma, depois de arruinar a melhor parte da minha curta vida. O melhor, reduzido a ruínas, a cinza. Desfeito, enterrado debaixo da poeira que o passado soltou. Para quê? Para quê tentar imaginar algo que nunca irá acontecer? Para quê recordar, para quê pensar no que só me trás dor e agonia? Estas lágrimas não causam nada, não trazem nada de novo. Não melhoram o meu mundo. Já nem conseguem expelir o veneno de dentro de mim, já nem me trazem paz ou conforto. Não. Agora já só me lembram a falta que tu me fazes. Lembram-me apenas o teu lugar vazio. Estou aqui nesta estação de metro onde a minha sombra está desamparada. Onde os meus passos ecoam um silêncio doloroso. Olho à volta e sem respirar, de olhos fechados, entro num metro qualquer, e escolho o meu destino. Por favor, lembra-te de mim. Bons sonhos.
Um manto de folhas castanhas na calçada. Leve brisa que leva este calor para longe de mim. O sol está a pôr-se e o momento não podia ser mais mágico. Fecho os olhos com força, e embora deseje estar bem longe, Sinto-me feliz por estar aqui, agora mesmo.
Dentro de mim cresce uma onda cristalina de tristeza Que rebenta, deixando uma orla de esperança pura. Há a exaltação de um sonho antigo e eu acredito, Neste preciso segundo de que um dia, o vou concretizar. Sei que sim, com todo o meu coração.
A esperança dá lugar à felicidade que me enche. Só por ser outono já me sinto realizada. Só por ser fim de tarde, esse acontecimento lindo, Sinto que tudo vai ficar bem.
Sorrio levemente. A vida é confusa. O mundo dá muitas voltas e quando Pareço mais perdida, tudo volta a fazer sentido. O mundo volta a girar no sítio certo.
Fico aqui com a lembrança do que já passou, Com o sentimento do presente e com a vontade Do que virá, a ouvir este silêncio tão cheio de sentido.
Foi hoje que prometi a mim mesma que, Dependendo da minha pessoa, nunca mais irei Fugir ao inevitável, nunca mais vou fugir da felicidade E dos meus sonhos, mesmo os mais impossíveis.
E foi nesta tarde de outono que percebi que já estou no meu caminho para acreditar.
Ao ouvir o que já me trouxe uma espécie de conforto misturado com dúvida sinto um turbilhão de emoções. Vejo mil imagens, sinto cheiros, algo se apodera de mim. Algo superior a mim. Os meus olhos encheram-se de água e subitamente só consegui pensar em tudo o que ficou por dizer, em tudo o que ficou por fazer. Em tudo o que podia ter feito. Nos caminhos cruzados onde fiz uma escolha que não deveria ter feito. Porquê? Porque é que esta é a pergunta que mais custa? A que mais dor trás, a pergunta que eternamente não vai ter resposta... Sei que na altura, naquele segundo senti um baque no coração, senti o meu mundo parar de girar. Deixei de respirar simplesmente. Os mesmos olhos que agora choram por ti, inundaram-se de dor e tristeza. Incerteza, e uma ponta de revolta. Porquê? Dêem-me o porquê que eu quero. Pelo qual eu ansiei, e passei a fundo momentos e conversas, vezes e vezes sem conta na minha cabeça. Hoje sinto falta do que houve, mas sobretudo do que podia ter havido. E sinto pena de muita coisa, sinto revolta, sim ainda sinto. Pouca, mas sinto. Sinto rancor de quem não te ajudou, sinto raiva de mim própria. Sinto tudo isto quando fecho os olhos e te vejo lá, à minha espera, todos os dias. Sinto esse turbilhão, essa espiral de sentimentos quando ouço estas notas musicais que me levam a esses dias negros que levaram um pedaço de mim. Sinto isso quando os vejo, devastados, unidos como nunca, para sempre. Sinto isso, quando te recordo, quando penso em como tudo mudou a partir daí.
Como algo morto, inanimado, volto a respirar. Volto a abrir os olhos, volto a viver. Voltei à vida, e agora? Viver será difícil? Ou seremos nós que tornamos tudo complicado? Nem sei onde estou. Alguém me pode ajudar? Não estou habituada a estar aqui, já não me lembro de como eu era. O que faço aqui parada, a olhar à minha volta, para estas paredes de vidro que me encurralam? Os grilhões foram-me abertos mas encontro-me noutro tipo de prisão. Uma de onde não consigo escapar. Voltei a viver. Voltei a ser eu. Deixei de estar amarrada, asfixiada até o último sopro de vento ser afastado de mim à força. Voltei a mim! Voltei! Mas e agora? Voltarei a ser a mesma? Conseguirei ignorar que tudo isto aconteceu? Não levou um pedaço de mim? Eles tinham razão, quando me avisaram. Disseram que estava a brincar com o fogo. E como sempre, quem brinca com o fogo, queima-se. Mas a minha queimadura não se vê. É bem pior que isso, é demasiado má para ser visível ao olho humano. A minha está cá dentro e sempre que me esqueço dela, ela faz-me o favor de arder para me lembrar de que ainda lá está. Ainda lá está... Tento encontrar uma saída possível daqui para fora mas estas paredes são as mais sólidas que alguma vez vi. Estão no meu caminho para ser livre, estão a impedir-me de continuar. Não deviam estar todos aqui para mim? Não deviam estar prontos, do outro lado da porta para me abraçar, para me felicitar por ter voltado ao mundo dos vivos? Eu voltei a viver! Será que enquanto fui morta à vossa frente não repararam? Será que não viram o que os olhos não podiam ver? Os tambores começam a bater dentro da minha cabeça. A chuva começa a cair abundantemente. Sei que o momento chegou. Chegou a hora da chuva levar todo o mal que habitou em mim, chegou a hora da minha purificação, da minha alma ser transformada em algo novo. Aquele tempo acabou. Aquela que não era eu morreu e hoje nasci outra vez. Abro os braços, fecho os olhos e sinto a chuva à medida que os tambores soam cada vez mais alto, na minha cabeça anunciando o fim próximo da minha ressurreição. Que sítio era aquele de onde vim? Como fui lá parar? Num dia era eu, e no outro deixei de ser. Fui-me deixando para trás, até me ter perdido por completo. Esse tempo acabou. Agora não há mais fingimento, agora não há mais agonia, agora já não existe essa parte de mim que me dava vómitos. Agora sou só eu, mais lavada de mim do que nunca. Aqui, nesta jaula de vidro, enquanto pessoas que não conheço me observam pacificamente. Eu olho-as mas não me mexo, não ouso respirar, não tento pestanejar. Fico só aqui à chuva a vê-las, a tentar esquecer-me do mundo, para voltar a ser eu. Esta água nunca mais acaba e o nível começa a subir. Os tambores soam, ensurdecedores, alto, mais alto, cada vez mais alto. E a água sobe, e vai subindo até encher a sala, até chegar ao tecto. E os tambores sobem de tom até já não terem mais espaço para aumentar e a água enche tudo o que existe aqui dentro. A água sobe e eu continuo aqui, feliz por estar viva finalmente. Feliz por ter voltado. Fechos os olhos, e sorrio.
Tive a atitude certa. Tive a coragem de chegar até aqui. Mas no segundo em que piso a linha, uma voz começa a soar na minha cabeça. Ensurdecedora. Uma voz que me grita para voltar atrás. Uma voz que me diz que não devo fazer isso, que não devo arriscar mais nada. Essa voz faz-me repensar tudo o que decidi fazer. Faz-me querer dar um passo atrás e deitar tudo a perder. Decido ignorar os meus medos e receios, decido calar essa voz que me persegue nos confins de mim. Decido calar essa razão inconformável e dou um passo, e outro e outro depois de passar a linha. Aqui estou. Aqui me queriam, e agora? Estou à vossa mercê. Estou no meio deste palco gigantesco, escuro, com um foco de luz brilhante apontado à minha pequena figura, enquanto todos vocês me observam. O que querem que faça? Que ponha em prática a personagem que desejam? Que vista esse papel que não é o meu? O que acontecerá se eu cair no vazio sem fim, neste buraco negro que está a meio do palco? Neste espaço em branco que está dentro de mim. O que me acontecerá então? Vão-me deixar ficar perdida a cair para sempre ou vão-me erguer, levantar-me e ajudar-me a levantar voo até ao sítio onde pertenço? À medida que me habituo a este espaço que agora é o meu lar, vou-me acostumando à fragilidade que ele trás. Vou-me habituando às luzes que me abrem os portões dourados para os sonhos. Será aqui que eu pertenço? Não sei. Fecho os olhos e olho para dentro de mim. Precisava de fazer esta viagem há muito tempo. Mas estarei pronta para fazê-la com todos vocês a estudarem-me? Não. Não estou. É que esta voz que consegui silenciar brevemente voltou com ainda mais força para me atormentar. Sai daí, corre e nunca mais voltes; diz-me ela sem parar, uma e outra vez a soar na minha cabeça como um eco que devo seguir. Porquê? Sei que é sempre assim. Quando consigo dar um passo em frente o abismo à minha frente também avança na minha direcção pondo-me em cheque. Decido não lhe dar importância e dou outro passo. De um lado para o outro ando no palco, agora eu assumindo o controlo, estudando-vos a vocês. Cada pegada de ar que deixo torna-me mais confiante e em breve já terei deixado o meu corpo. Em breve estarei num estado líquido que se apodera de mim e que me faz perder todo o medo. Que me faz perder todo o receio de me afogar em vergonha, de me elevar nesta espiral. Esta noite decidi calar a voz para sempre. Decidi que neste palco quem vai comandar as minhas emoções sou eu, e não outra pessoa qualquer. Vou-me desfazer em pedaços até voltar a ser inteira, vou tornar-me em neblina de fumo e vou conseguir criar um eclipse de toda a luz deste palco que me dá vida. Vou chegar até onde quiser, sem ter de fingir, sem ter de me esconder. Tenho de voar, tenho de tentar pelo menos uma vez, tento de experimentar, tenho de não ter medo de viver. Tenho de dar tudo por tudo, demonstrar o que valho, mesmo que não consiga alcançar nada. Tenho de criar, tenho de inventar mundos, tenho de tornar tudo possível, até ao pano de fundo descer.
A raiva voltou. A revolta também. Agora, só falta o ódio. Onde é que queres chegar com isto? Até onde é que a tua tirania te vai levar, até onde vais levar a tua obsessão? Estás tão cego que já pensas que a verdade é o que tu inventas. Não ouves ninguém; estão todos errados. Para quê perder tempo com pessoas imperfeitas, se tu estás sempre certo? Fazes-me rir. Estás tão focado na tua própria sombra que já nem ouves os teus passos. Já nem consegues ver as consequências dos teus actos. Estás tão focado no teu reflexo, afogado num mar de vaidade e egocentrismo, que nem te apercebes que a a imagem que vês reflectida se vai degradando rapidamente. Será que o mundo é teu e eu não me apercebi? Estarei assim tão errada, tão fora da realidade que não consigo ver? É que usas a tua coroa tão alta e tão confiante que fico espantada. Tu ainda me surpreendes! É incrível. Pensei que não me podias magoar de maneira nenhuma, pensei que nunca mais me podias causar estas lágrimas de sangue, mas enganei-me. Já não as sinto a cair... Não. Já estou mais do que dormente perante a tua arrogância. Perante a maneira como olhas para todos de cima, no teu trono de hipocrisia e presunção. A raiva voltou. A revolta também. Agora, só falta o ódio. Mas apesar de toda a raiva, de toda a revolta, Não deixo de ser quem sou. Foi um caminho que trilhei, que fui construindo, E construí-me. E agora espero o ódio. Esse ódio que se apodera de mim e me dá alma, me dá vida, que me ilumina de forma estranha para ver com os meus próprios olhos cor-de-raiva que nem tudo é o que parece, que neste mundo morre muita prece em vão, que o nosso esforço nem sempre acontece. Mas mesmo esperando por esse ódio que vem sozinho ou por nós puxado sei que prefiro viver apenas um dia defendendo a luz, o bem, a verdade, que uma vida eterna na escuridão, espalhando o mal, criando e alimentando a mentira. E falo, e canto e grito, e escrevo, e mostro-me!, não me entreguem silêncios, não me entreguem ao silêncio, não me entreguem o silêncio, Quero mais, mais de tudo um pouco para não ser frio, ser-me indiferente, Quero ódio na medida certa, na medida a mais se for para ser mais atento, mais forte, mais espiral. Não nasci revoltada com a vida, nasci com o coração aberto a todos, e a alma faminta, E se consigo gritar então grito mais um pouco, E grito com a mesma força que uma criança a nascer. Não mato esta solidão acompanhada porque o ódio ainda tem muito para me modificar. E quero aprender. Quero ensinar. E quero amar com a mesma força que já odeio. Porque o ódio é sempre fácil. Ele cresce numa pequena semente e a partir daí, ninguém a pode parar. Cresce, vai crescendo e quando dou por mim, odeio tudo o que me acontece, tudo o que me está a acontecer. Não é a verdade que me revolta. Não. Nem tampouco é a ideia que a verdade trouxe. É somente a mudança negativa que veio para ficar, é a ideia de que tudo podia ser melhor se um dia o Homem o tivesse querido. É este silêncio que me gela as veias, que chega à minha cabeça e ao meu coração, parando-os num só bater. Tornando-me cega a algo que já nem eu consigo ver. Este silêncio funcionou como um despertar de sentimentos, de coisas escondidas, de algo que está seguro por apenas ruínas do que já foi belo. Foi esse silêncio acumulado que destruiu todos os caminhos que levavam à compaixão, todos os caminhos que levavam a algum lado. E agora? Agora... Agora já não resta nada para além de pedaços de madeira queimados. Eu própria ateei o fogo e vi-os arderem, no reflexo dos teus olhos. Os mesmos olhos que se não estivessem tão ocupados com o seu reflexo, veriam o que estava a acontecer mesmo à sua frente. Tudo o que alguma vez existiu, já foi queimado. Só restam cinzas. Cinzas de nós, cinzas de infâncias esmorecidas, cinzas de amor de ódio que violentamente abrem as feridas do meu coração e que ardem como sal. Passou tudo por ti. Não te apercebeste? Esteve sempre à tua frente, de todas as vezes em que chorei até adormecer, de todas as vezes em que a tua injustiça me deixou sem ar, de todas as vezes em que te recusaste a ouvir através dessa barreira que te impede de dar razão a alguém que não sejas tu. E para que me importam agora as tuas lágrimas? Onde estavas tu para limpar as minhas quando precisei? Estavas ocupado a construir e a aperfeiçoar o teu ser. Estavas tão centrado em ser eterno que não reparaste que as paredes começaram a ruir, até ficarem amontoadas no chão, à minha frente. Para que me importa agora que fiques triste ao reparar que eu não vou olhar para trás, nunca mais? Deixa-me simplesmente morrer aqui, derreter ao sol, ao lado das chamas que eu criei para te apagar. Ao lado das memórias que tinham de ser soltas, para viajarem pelo vento. Deixa-me aqui, na escuridão, onde ninguém possa ver as lágrimas de sangue que de tanto correrem, ficaram marcadas no silêncio dos meus olhos. A minha sobrevivência está nas mãos do meu eu criador, do meu eu sofredor, está dentro da minha alma a capacidade de me mover acima do materialismo, do cinismo, da vossa capacidade arrogante de se considerarem superiores. Não conquistei um trono, nem conquistarei. Quero encontrar a verdade e nela me apoiar, quero viver um caminho por mim guiado, e guiar todo aquele que vê nos meus passos sensatez, e vontade de fazer deste mundo melhor. As minhas lágrimas secarão...Deixarão marca. Mas acabarão por desaparecer sobre a pele, e eu, consciente da minha razão, daquilo em que acredito, triunfarei na minha verdade, na Verdade que quero atingir. Não preciso que me coloquem véus negros à volta dos meus olhos, nem que construam paredes que me frustrem os movimentos...Não somos uma ilha, mas não queremos ninguém que nos fira com falsas luzes, falsas crenças, e não toleramos hipocrisia. Somos humildes de alma, capazes de sentir e viver como filósofos que viveram apenas da vida...E não toleramos cegos aperfeiçoados. Não toleramos a mentira. Não toleramos que sejam o vosso pior eu. O que queremos está dentro da espiral que ruge nos nossos corações...Não tememos ser monstros...Tememos sim, monstros que se julgam melhores que todos os outros, e que esses sim!, são capazes das piores catástrofes. A todos vocês, que brilham de contentamento nesse vosso silêncio frio, a mensagem que deixamos é só uma: Façam o esforço de aprender connosco, porque nós já muito aprendemos convosco.
[Agradecimento muito especial ao Diogo Garcia, meu querido irmão por me dar mais uma vez a honra de criar arte ao seu lado. É sempre uma honra!]
Aqui estou eu. Mais uma vez. À minha frente, até perder de vista, está esta familiar estrada. A estrada que não tem nome porque todos a esquecem. O caminho que ninguém quer lembrar ter percorrido. As mesmas árvores que parecem esperar longamente por alguém que não chega, As mesmas pedras da calçada que choram de tanta gente as ter pisado, sem qualquer lembrança. E após um caminho sinuoso e torturante para quem quer alcançar algo, chegamos a casa. A casa, velha e cansada. A casa que por fora não saúda ninguém, a casa que, já farta de sofrer, desistiu há muito de tentar. E claro, antes de entrar no jardim temos o portão enferrujado, que um dia foi vermelho vivo e que agora se encontra despido de qualquer cor ou vida. Esse portão range ao abrir, e o vento muitas vezes adorava enganar-me, fazendo-o ranger sem ninguém entrar. Ao passar a ombreira da porta sinto um silêncio mortal a invadir-me. É-me familiar. Consigo ouvir todas as palavras ditas e todas as palavras que ficaram por dizer. Consigo ouvir os momentos que aconteceram e sobretudo os que ficaram por acontecer. Que raio de vida foi esta? As memórias estão fragmentadas, soltas e perdidas no tempo. Será que o que recordo foi real ou será que sonho após sonho eu inventei a vida que queria ter tido? Será que os montes e serras verdejantes estão só na minha cabeça? Será que as canas de açúcar, altas e orgulhosas não passaram de um delírio? Será que todas as noites de estrelas cadentes e cometas, vistas do telhado foram criadas por mim? A tempestade nasce dentro de mim. As ondas das memórias colidem com as ondas de solidão, de mágoa, de felicidade e de raiva. Crescem e colidem, criando esta maré que me atormenta. Subo as escadas lentamente, lembrando-me do sentimento que outrora sentia ao subi-las todos os dias. Lembro-me que a cada degrau a minha esperança aumentava. Talvez quando chegasse à porta, alguém viesse por mim. Talvez alguém se lembrasse e me viesse salvar deste túmulo. Claro que isso nunca aconteceu, nunca ninguém veio. Nem por mim, nem por motivo nenhum. Ninguém me salvou. E tive de ser eu a salvar-me. Tive de impedir-me de me afogar. Tive de ser eu a abrir a porta e ir-me embora, sem olhar para trás. Mas essa estrada que ninguém recorda é tão traiçoeira que mesmo quando estamos a ir embora, parece não ter fim. Curva atrás de curva, atrás de curva ela parece nunca acabar. Agora, sentada neste banco no que foi há muito muito tempo o meu refúgio, sinto-me esvaziada. Sinto que só através das recordações, a casa e a estrada conseguiram sugar toda a vida de mim. Corro pela escada abaixo e abro a porta. O vento arrepia-me, por ser tão frio, mas respiro aliviada por não sentir mais aquele ar abafado e venenoso. Olho uma vez mais para a entrada sombria da casa, e sem pensar duas vezes fecho a porta com um estrondo, para sempre. À minha frente, pela última vez, a estrada que nunca ninguém recorda. Para quê? Para quê recordar uma estrada que não leva a lado nenhum? Que não leva a nada.
De coração mais leve que nunca, os meus pés parecem flutuar e a estrada que nunca ninguém lembra chega ao fim, sem eu dar por isso. Foi a última vez que entrei naquela casa abandonada, foi a última vez que toquei naquele portão enganador e foi a última vez que percorri esta estrada esquecida. Desta vez é que foi. Confrontei os meus demónios escondidos numa gaveta poeirenta, e não pretendo voltar a tirá-los de lá. Se me pudesses ver agora, aqui a enfrentar os meus medos, a reviver o que sempre tentei esquecer, não acreditarias. Eu, a voltar aqui, a este sítio, a esta prisão que só me desgastou anos a fio. Seria impossível convencer-te que estava aqui de livre vontade. Se soubesses tudo o que quis voltar atrás e fazer de novo, tudo o quis dizer, mas que não pude, todas as coisas de que me arrependi, não pensarias o mesmo. Tive de voltar aqui, não por escolha, mas porque teve de ser, para poder continuar. E se me pudesses ver agora...
Does anybody know how to hold my heart? For real, not just temporarily. Not just pretending to hold it, long enough to drop it on the floor, right in front of me. Not even I can know for sure. How could I? It's always changing, sometimes so strong and guarded that no one is allowed to enter. So strong that amazes me, so strong that is unreachable to strangers. Other times, it's so fragile that I'm afraid it breaks just by beating. So desperate for something more that the walls I created soon fall apart. So vulnerable that tears fill my eyes by just the thought of simple things like being alone, by an existence so empty of meaning that no one would even notice I was here one day. By the lack of truth in people's lives these days, by the loss of good values, by the huge loss of all kind of important things that don't seem to matter anymore. Did I get lost in between? One day I woke up and things were different? Or was it growing without me knowing about it? Either way, I find myself confused about things I wasn't. That I shouldn't be. That I'd never even thought about, before. Am I growing? Is it growth that's affecting me? It may be. Does growth make everything look bigger, darker and scarier? Yeah...I think so. It's just...Every night I get in my bed and before I can fall asleep, I close my eyes and all these images and colours and thoughts run through my mind. Scary ones, happy ones. But both of them fill me with a mixture of despair and anxiety to live. Not sure if it's a good mixture, but I feel it in my heart. I feel it. And I have to think about other things, easier ones to let my brain rest. Even my dreams are corrupted with the real world. I am not allowed to dream about my own. Not anymore. Can't pretend no more that hope solves things, that the truth is pretty. That the reality isn't cruel. That life, is like we wanted it to be. How do we find the balance between the fear and hapiness? Do we have to share it with the people that love us? Or do we keep it to ourselves? Maybe all we need to find is someone we can trust. Someone who is right for us. Someone who can, by the end of the day, hold our heart. Does anybody know how? Can't I don't want to let go, too soon.
People often spend their lives trying to find, define and quantify love. Are any of those three possible? I couldn't say. I'm not one of them, trying to achieve by words, something that doesn't make any sense or follows normal rules. There are no rules in love, except the ones from the heart. We know love can be difficult and hardworking. It leads us through pain, loneliness and mourning, satisfaction, hapiness and euphoria while doubt and jealousy take control in a gigantic spiral of restlessness. Have I felt like that? Maybe once, but not really. I never felt my heart jumping in my throat, I never felt anxious butterflies trying to escape from my stomach, I never felt an electric shock from toe to head just by touching someone. I never felt my world stopping and falling apart just by looking at someone! Yeah... I know. How can I be sure that those are the real symptoms of love? The answer is strangely simple: I'm not. I can't be sure. By now, I don't know anything. Not about love anyway. I had big plans about this text. About the message I wanted to send, about the spirit of it. To spread the word that love is a great thing. That all you really need is love. But then, I started watching that theory coming undone right in front of me. That great love of mine only brings pain and destruction... I'm not even sure if I believe in love, now, but the truth is...I don't know. It's alway messy and hard. I wanna believe though! I do! Just can't be sure if I should. Until then, I'll have to search and learn more about it. Will I be able?
Hoje o dia esteve cinzento. O céu coberto de nuvens e Nem vestígio do sol. Teria sido um dia perfeito, Não fosse o facto do calor infernal Me causar um entorpecimento Que me deixa sem forças ou vontade.
A janela está completamente aberta Mas nem uma brisa chega para baixar A temperatura da minha pele que queima, Pedindo, implorando por arrefecimento urgente.
A lua sorri-me em sinal de agradecimento. É que hoje, eu matei o sol. Matei-o, mas não me arrependo. E o vento? O vento... Esse não chega, nunca mais chega.
Começo a ficar impaciente. Este calor de outro mundo Já-me está a gastar, está-me A dividir em pedaços. Consigo mesmo sentir a água a evaporar-se, A deixar o meu corpo através dos meus poros. Não tarda, também eu sou vapor.
Saio de casa, o ambiente continua denso. Sinto-me perdida, sem destino, com necessidade De nadar pelo meio deste calor palpável. Mas subitamente ouço-o à distância. É o meu farol, a minha salvação. Corro para o alcançar. Corro até deixar as minhas pernas para trás.
A noite é acolhedora, apesar de escura. Trás-me um sentimento de paz e felicidade, Bem como de gratidão da lua que agora me guia Para que eu possa atingir a única coisa que de momento me move.
Já posso até imaginar... As rochas, a areia e ao longe, o mar.
Sim, já tive o mundo a meus pés, durante um momento, num determinado dia. Mas já me senti no topo do mundo mais vezes. Talvez não vezes suficientes. Quem é que dispensaria uma oportunidade dessas? Quem é que não quereria ser, ou pelo menos sentir-se senhor do universo, rei de tudo o que existe? Eu sei a resposta a essa pergunta. Eu. Eu, a eterna sonhadora que nunca sonha muito alto com medo de cair. Aquela que quer muito alcançar os céus, mas que ao mesmo tempo fica presa ao chão pelo medo da própria subida. E também da queda. Eu sou a rainha de nada, porque todas as coisas que possuo não são reais, não passam de imaginação e tudo o que sonho permanece como ténue esperança de que a vida mude sem eu lhe fazer nada. Como uma pessoa muito especial, importante e talentosa escreveu há bem pouco tempo, os que só se atrevem a sonhar, sem querer passar do voo rasteiro, são os mais cobardes. São aqueles que recebem menos coisas que a vida tem para oferecer. Eu não quero ser assim... Não quero fugir do que quero, não quero correr na direcção oposta do amor, não quero ter medo de ser feliz. Não posso ter medo de ser feliz. Não posso deixar a insegurança e o medo, o perigo e o inesperado fechados num cofre afastado de mim. Não posso, nem quero. Não quero fazer tudo o que sonho só na minha cabeça, só porque lá tudo é seguro e simples e não me posso magoar. Só porque lá o meu coração não pode ser apunhalado com dor, não quer dizer que na realidade ele o seja. E se continuar a viver a vida em segundo plano, escondida atrás de mecanismos de defesa, o meu coração vai mesmo diminuir, envenenado com arrependimento e dúvida. Tenho tanto receio de cometer erros, que às vezes, cometo o pior de todos. Sim, eu já tive o mundo a meus pés. Senti-me gigante e capaz de mudar tudo, incluindo a minha pessoa. Hoje, passado tanto tempo, consegui finalmente soltar-me aos poucos das amarras que ainda me prendiam ao cais da vida, e agora estou pronta a seguir o meu caminho, voando pelas nuvens, sem medo.
«Prayin' to stay in your arms just until I can die a little longer» Deverei fingir que não vejo? Deverei ignorar a realidade do que se passa à minha volta? Do que é que esperam? Satisfaçam as vossas necessidades, façam o que têm a fazer. Mintam, enganem, matem, roubem. Encontrem abrigo no pecado porque ele, dá-vos energia para continuarem a vossa busca de se saciarem. Realizam sacrifícios em altares sagrados com a vossa sede de poder negro corrompido. Banham-se no sangue dos inocentes, num delírio vampiresco que vos leva ao êxtase, ao limite. A pulsação aumenta...O ar entra e sai mais vezes...E vocês só conseguem rezar para que o momento de antecipação acabe. Que a tortura chegue ao fim. Que comece o deleite nos corpos quentes de outros, que comece a satisfação que a carne fresca vos trás ao que chamam alma. Deverei ficar cega, só para não ver? Só para não assistir ao vosso espectáculo mórbido que vos mantém vivos, à custa de outros serem contaminados? De apodrecerem por dentro, lentamente. São os vossos fantoches, não passam disso. Simples e meras peças no vosso grandioso jogo doentio que me faz querer arrancar os olhos com os meus próprios dedos. Eu até posso ficar cega, mas vocês já o são, quando não vêem no que se tornou a vossa vida...Ou a falta dela. Parecem mortos, ainda vivos, que apenas vivem para encontrar esse elixir que vos preenche. Caçam-no como predadores natos. Mas vai chegar um dia, eventualmente, em que nem o mais doce néctar vos irá dar alento. Ele vai chegar! E aí, o que vão fazer? Vão abrir os olhos, e vão saber o que eu senti quando também eu acordei desse sonho grotesco. Vão querer cegar e apagar da vossa memória todos os rituais repulsivos. Vão querer a redenção de um dia terem gostado tanto do sabor do pecado. De terem agido como seres animalescos, por terem repetido as vossas acções, sem pensar nas consequências. Eu sei que é esse o caminho. Eu sei que esta é a minha confissão. A confissão de quem já foi cega, de quem não pensou em nada mais do que mais e de quem, agora mais morta que viva, aguarda pela redenção da minha alma, ou pela punição infernal. Que comece o jogo.....!
Estou aqui debaixo da lua de Agosto. Esta lua branca e cheia que me devia encher de alegria, Mas em vez disso, presencia o meu choque. O meu desgosto. Estou aqui a ver o que nunca esperei ver, a sentir o que nunca quis sequer imaginar sentir. Estou parada, imóvel, sem poder pestanejar porque sempre que fecho os meus olhos, imagens assaltam-me o espírito. Sem conseguir respirar, sem conseguir sentir. Afinal o que faço eu aqui? Porque é que cá vim, neste dia, a esta hora? Devo estar louca e já nem percebo como é que o mundo não parou. Eu sei que o meu o fez... O que fiz para merecer isto, para acabar aqui sozinha, numa noite amena de um mês tórrido, onde uma simples aragem me faz querer levantar voo, onde uma simples janela janela me faz querer gritar até ferir a garganta...uma janela que só me deixa com nada mais do que desespero e angústia profunda a brotarem do meu coração como uma fonte que nunca pára de correr. Para que é que aqui vim? Caminho na penumbra para evitar ser vista. As lágrimas talvez me caiam, mas eu nem as sinto. As pessoas continuam a viver ruidosamente, mas eu mal as ouço. Estou atordoada, dormente. Sinto sintomas de dúvida a percorrem-me o corpo como ondas de choque que me prendem ao chão, estática, durante segundos. O que fui lá fazer?? Rio-me bem alto...Fui lá saber a verdade! Fui lá ver, com os mesmos olhos que outrora se reflectiram nos teus, a realidade crua que não vi durante muito tempo. Estou aqui debaixo desta lua de Agosto que compreende a minha dor, com um céu negro a fazer de pano de fundo, engolindo-me com a sua escuridão, apagando-me do que já não existe. Estou aqui, debaixo da lua de Agosto, vazia e sozinha.
«And I pray sleep comes soon»
08 agosto, 2010
Hoje choveu. E a água que caía do céu veio para me lavar a alma e o espírito não só da enfermidade que o calor instalou, mas também de tudo o resto.
Estranhamente adormecido, pareces viver num mundo à parte, mas no que toca à falta dela, tornas-te num ser completamente diferente. Olhas ansiosamente para o relógio, como se a cada segundo sem ela o teu coração não batesse. Corres para a porta ou para as janelas quando se aproxima a hora da sua chegada. Pareces ter receio que ela não regresse. Será isso? Tens medo que ela nunca mais volte... Que se canse disso tudo e que vá embora sem nunca olhar para trás. No fundo sabes porquê. Ela não é feliz aí, apesar dos teus esforços em vão. Ela não se consegue contentar com o que tu consideras um lar. Com o que tu achas necessário. E se ela for, o que será de ti? Sinceramente não sei porque te interessa tanto. Podes passar o dia todo à espera dela, ansiosamente, mas assim que ela entra por essa porta, voltas a ser invisível. Não há um olhar, só talvez uma palavra, e depois, acabou. Podias esperar eternamente. Sei que podias. A espera podia ser eterna, mas nem isso te faria mudar. Nem isso te daria alento para acordares desse teu sono permanente, a tempo de mudares o rumo das coisas. Para que esperas? Diz-me porque é que anseias tanto o momento de sentires a presença dela perto da tua, se a cada dia que passa a vês morrer um pouco. Se a cada nascer do sol a vais perdendo, até não sobrar nada... Será isto um teste que te impuseste? Um teste que tens de passar, para depois seres finalmente feliz? Não compreendo a tua luta, a tua falta de ambição. Nem me compreendo a mim quando já nem sei se te quero ver agir, ou não. Faz qualquer coisa, nem que seja para a viveres e depois te arrependeres. Viver ou morrer, ser feliz ou não, a escolha, é tua.
Chego ao cais bem cedo. O céu ainda está pintado com tons de violeta e laranja, e o sol não passa ainda de uma pequena esfera que ao longe, é tímida, mas ansiosa por nascer.
Inspiro o repentino cheiro do mar e quase consigo sentir o sabor a sal dentro da minha boca.
Sento-me num banco e deixo-me absorver pela vida à minha volta, pelos odores que pairam no ar e pela importância do que eu estou a testemunhar. Barcos partem e barcos regressam ao porto com as suas imponentes velas brancas que se movem ao sabor da brisa. Trazem consigo pedaços de outros mundos, de outras realidades distantes que a mim me parecem irreais e inalcançáveis.
Pergunto-me de onde será cada navio e questiono o que os homens que vêm neles dizem na sua língua. Imagino o que carregarão dentro das grandes caixas que transportam e sinto subitamente que sou realmente microscópica, em comparação com o planeta onde me encontro. Sinto-me realmente pequena com a imensidade de beleza e, ainda que rara, sincera riqueza que existem neste mundo.
Com tudo isto no meu pensamento, aguardo pela chegadado sol que trará consigo calor, mais luz e sobretudo, mais vida.
Porque é de vida que precisamos, em cada dia,
E desse sol que nos aquece bem mais do que o corpo
Que nos aconchega e acalma a alma.
Não louvamos a morte nem por ela esperamos
Pois sabemos que a seu tempo chegará
Mas até lá vivemos, vivemos cada dia como se
Fosse o último, como se fosse único.
Neste cais sinto pequenas gotas de água
Que tiveram a coragem de se afastar do mar
E que se serviram do vento para me tocar na face...
Hoje sou as forças do mundo,
Hoje sou a paz mundial, a ordem universal de todas
As coisas, de todas matérias, de todas as verdades,
Hoje sou este mar, este sossego,
Hoje sou essa doce espera de um sol que virá...
Mas mesmo nesta tempestade exterior que cresce
Consigo encontrar beleza no meu viver
No girar deste mundo.
Este mundo que é tão estranho e intrigante, mas ao mesmo tempo reconfortante. A esta hora, noutras partes dele, são horas de acordar para alguns. Outros estão a apreciar um pôr – do – sol num banco de jardim e outros ainda estão a preparar-se para se entregar ao mundo dos sonhos, dizendo adeus a mais um dia.
Neste mesmo segundo que passo aqui abrigada da chuva, neste cais antigo e parado no tempo, algumas pessoas vivem num dia anterior ao meu, ou serei eu que estou adiantada a eles? Se vivo num mundo à frente deles, onde aqui é dia e lá é a noite anterior, poderei contar-lhes o futuro? Saberei as coisas que ainda não lhes aconteceram? Ou o tempo é o mesmo? A mim parece-me que é quase elástico, ele estica e encolhe conforme quer, nem que seja só para me confundir por um bocado.
Sinto-me perdida. Ainda há tanto para ver, tanto para descobrir. Tantas culturas para conhecer, tantas experiências por sentir... Como vou conseguir tudo isso se o tempo corre contra mim?Se parece querer que eu o persiga, só para me poder ganhar, sempre. Se parece que será uma batalha eterna, uma corrida contra o tempo para conseguir pelo menos sentir metade da terra que banha o planeta a que chamo casa...
É difícil ser mortal, mas também nunca ninguém disse que a imortalidade era fácil. Tenho é de encontrar o equílibrio dentro de mim própria, onde poderei eventualmente deixar-me ir à descoberta do mundo que me espera e que eu tanto desejo conhecer.
Porque esse mundo está à minha espera.
Sempre esteve à minha espera.
E não terá esperado em vão:
Pois chegou a minha hora de o descobrir,
De o sentir em todas as suas vertentes,
E saber sempre que não estou sozinha;
Quando adormeço sei que outros estão a acordar,
Quando sonho no sono
Outros sonham acordados,
Quando me levanto outros estão-se a deitar.
Enquanto vivo outros morrem, enquanto choro
Outros estão a sorrir...Mas enquanto choro
Ou rio outros podem-me também acompanhar.
Se vejo o sol outros estarão a ver a lua,
E existem ainda outros que sentem o sol ou a lua
Demasiado tempo.
O mundo aguarda-me. Chega de o fazer esperar...
Não quero ser chuva
Nem calor
Frio
Ou céu aberto,
Quero fazer apenas o que é certo para mim,
Sentir-me e ser sentida,
Explorar todo o mundo enquanto respiro e ando
Enquanto ambiciono e corro,
Esta sou eu, filha deste Tempo,
Aprendiza desta momento, ser humano
Consciente da aprendizagem que toda esta experiência
Chamada vida tem para me ensinar e moldar.
Chegou a hora de me descobrir
Descobrindo tudo o resto,
Chegou a hora de me deixar ir
E deixar levar.
[Este texto foi escrito em parceria com o meu talentoso e genuíno irmão Diogo, obrigada pelo privilégio. Também em http://versologista.blogspot.com]