08 outubro, 2010

Inanimada

Como algo morto, inanimado, volto a respirar.
Volto a abrir os olhos, volto a viver.
Voltei à vida, e agora? Viver será difícil?
Ou seremos nós que tornamos tudo complicado?
Nem sei onde estou. Alguém me pode ajudar?
Não estou habituada a estar aqui, já não me lembro de como eu era.
O que faço aqui parada, a olhar à minha volta, para estas paredes de vidro que me encurralam?
Os grilhões foram-me abertos mas encontro-me noutro tipo de prisão. Uma de onde não consigo escapar.
Voltei a viver. Voltei a ser eu. Deixei de estar amarrada, asfixiada até o último sopro de vento ser afastado de mim à força.
Voltei a mim! Voltei! Mas e agora? Voltarei a ser a mesma? Conseguirei ignorar que tudo isto aconteceu? Não levou um pedaço de mim?
Eles tinham razão, quando me avisaram. Disseram que estava a brincar com o fogo. E como sempre, quem brinca com o fogo, queima-se.
Mas a minha queimadura não se vê. É bem pior que isso, é demasiado má para ser visível ao olho humano.
A minha está cá dentro e sempre que me esqueço dela, ela faz-me o favor de arder para me lembrar de que ainda lá está. Ainda lá está...
Tento encontrar uma saída possível daqui para fora mas estas paredes são as mais sólidas que alguma vez vi. Estão no meu caminho para ser livre, estão a impedir-me de continuar.
Não deviam estar todos aqui para mim? Não deviam estar prontos, do outro lado da porta para me abraçar, para me felicitar por ter voltado ao mundo dos vivos? Eu voltei a viver!
Será que enquanto fui morta à vossa frente não repararam? Será que não viram o que os olhos não podiam ver?
Os tambores começam a bater dentro da minha cabeça. A chuva começa a cair abundantemente. Sei que o momento chegou.
Chegou a hora da chuva levar todo o mal que habitou em mim, chegou a hora da minha purificação, da minha alma ser transformada em algo novo.
Aquele tempo acabou. Aquela que não era eu morreu e hoje nasci outra vez.
Abro os braços, fecho os olhos e sinto a chuva à medida que os tambores soam cada vez mais alto, na minha cabeça anunciando o fim próximo da minha ressurreição.
Que sítio era aquele de onde vim? Como fui lá parar?
Num dia era eu, e no outro deixei de ser. Fui-me deixando para trás, até me ter perdido por completo.
Esse tempo acabou. Agora não há mais fingimento, agora não há mais agonia, agora já não existe essa parte de mim que me dava vómitos.
Agora sou só eu, mais lavada de mim do que nunca. Aqui, nesta jaula de vidro, enquanto pessoas que não conheço me observam pacificamente.
Eu olho-as mas não me mexo, não ouso respirar, não tento pestanejar. Fico só aqui à chuva a vê-las, a tentar esquecer-me do mundo, para voltar a ser eu.
Esta água nunca mais acaba e o nível começa a subir.
Os tambores soam, ensurdecedores, alto, mais alto, cada vez mais alto. E a água sobe, e vai subindo até encher a sala, até chegar ao tecto.
E os tambores sobem de tom até já não terem mais espaço para aumentar e a água enche tudo o que existe aqui dentro.
A água sobe e eu continuo aqui, feliz por estar viva finalmente.
Feliz por ter voltado.
Fechos os olhos, e sorrio.

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