22 fevereiro, 2013

In-consciência

Atravesso a barreira do som, de toda a realidade.
Vim parar a outro lugar e nem dei por isso.
Se cerrar os olhos por escassos segundos, se me deixar ir,
Corro o sério risco de ficar para sempre por encontrar.
Serei totalmente embrulhada neste caos familiar, tão doce, tão verdadeiro...
Serei engolida, ter-me-ei engolfado por demasiado tempo, para demasiado longe.
Para as profundezas de algo que desconheço, mas que se assemelha a casa.
Ouço o seu ritmo calmo, peculiar, contido, firme, tão seguro de si, como se não pudesse falhar;
O ritmo que me corre nas veias, silenciosamente, sem eu saber o porquê.
Talvez seja isso que me leva a agir, a ser precipitada quando devia parar. Quando sei que é errado.
Talvez seja isso que me faz abrir os olhos cansados de ver tragédia pintada de qualquer outra coisa,
Disfarçada de nada, para ver que não estou realmente lá. Reparo agora que nunca vi isto.
Retira-me toda a força, a capacidade de resistir. A habilidade de não me perder no pulsar.
Um calafrio que não me é estranho invade-me e poderia tomar conta de mim, se fosse possível.
Um barulho alto e inesperado, de outro mundo, sobressalta-me e mostra-me a verdade:
Ainda não é tempo, ainda não chegou a hora. Esta substância alheia que emerge das profundezas, que Acorda agora de um sono mais que profundo, mais que longo, que se prepara para o seu auge, ainda não Pode ter o que quer. Mas em breve...
Ao atravessar a barreira do som, de toda a realidade, de toda a consciência, eu fui lá.
Fui a esse mundo, esse outro paralelo que me chama, atraindo-me com uma canção misteriosa,
Que se apodera de mim, que encanta de forma inusual. Sedutora. Que possui tudo em mim.
Fui a esse mundo e voltei, inteira. Por quebrar, o feitiço. Em breve...

17 fevereiro, 2013

Away we (don't) go

«I have been searching all of my days..»

Às vezes temos algo a provar. Nem sempre aos outros.
A nós próprios? Sim...É sempre assim.
Mesmo que quisesse ir, largar esta vida, este conjunto de cenas,
Não podia. Não seria justo, ou possível. Eu não iria querer.

Espero, aguardo. Aceitei esse fardo reluntantemente.
Todos os meus dias são passados dentro destas não-paredes.
Vou e venho à minha vontade, mas nunca muito longe.
O coração aperta-se com o receio de perder tudo. Todos.

É estranho ter receio de ter medo - não faz qualquer sentido.
Na verdade, custa ao respirar, ocasionalmente.
Hesitação em desejar, em decidir se devo dar esse passo ou não.
Esse mesmo passo que mudará esta rotina completamente.

Algo novo, brilhante, deslumbrante aparece de súbito.
Vejo-o claramente, de longe, mas não me atrevo a aproximar.
Percebo que me intriga, que me fascina. Que quero saber mais.
Quero saber qual a razão, quais os segredos por contar.

Quais os pormenores escondidos do mundo.
A coragem vacila, deixa-me sozinha: não consigo fazê-lo.
O mesmo receio inútil e ridículo e vazio apodera-se de mim.
Arrependo-me mesmo antes de agir e a possibilidade morre.

Se eu fosse, se eu tivesse a audácia? Sonho com isso...
Não teria de ver este mesmo cenário repetitivo; não teria
De viver isto, dia após dia, após tantos outros iguais.
Não teria de viver nesta felicidade insuflada, francamente falsa.

Sentir que isto não basta, que não é verdadeiramente o que quero,
Sem ter a capacidade de sair daqui, de correr até à fronteira da terra.
Impotente nas minhas próprias escolhas, nos meus próprios sentimentos.
E mesmo que quisesse ir, largar este desassossego, não podia. Eu não iria voltar...

09 fevereiro, 2013

'Only Human'

Vai ser sempre este alvoroço entre dizer que não gosto, mas saber que sim. Que preciso.
Vai ser sempre assim, porque não pode ser de outra qualquer maneira. Nunca irá mudar. Duvido que queira...Seria bom por instantes, mas a beleza do inesperado, de pensar uma coisa e depois acabar por fazer algo contrário dá cor à vida. Cria os momentos, dá-nos a felicidade que nos dá de beber quando a seca se instala. Ou quando as lágrimas não param de chegar. 
É confuso, mas é entusiasmante, mágico, um desafio seguido de outro. Magoam-nos, fazem-nos rir até cair, literalmente. Pegam na nossa mão quando o coração é fustigado por tristeza torrencial, dizendo-nos que não estamos sozinhos; que o mundo pode ser um lugar assustador e incontrolável, que a vida é incrível e dolorosa ao mesmo tempo, mas que eles estão aqui. Ao nosso lado, no escuro, ao frio. Até já não ser necessário, para respirarmos. Também nos mentem, proferem palavras que escorrem veneno, só pelo intuito de nos fazer sangrar, atingir onde dói mais. 
É algo belo, isto da incerteza, do espectro de imprevisibilidade, de me fazer acreditar que tudo é possível - mesmo que mau, horrível, inumano. Mas ao mesmo tempo, é extremamente triste, se contemplar um planeta onde uma mesma pessoa consegue ter a ousadia de criar obras tão maravilhosas e obras tão assustadoras.
Há um preço a pagar para testemunhar as suas ações. Já percebi que vale a pena, que estou disposta a sentar-me e observá-las. O truque de deixar ir, de aceitar as coisas que não posso mudar, de não tentar fazer o impossível, ajuda-me. Guia-me para longe da escuridão onde andei tanto tempo. Fé e a esperança são, possivelmente, os melhores trunfos. Os mais valiosos. 
E sim, o rumo é instável, aterrorizador, mas há coisas que estão ao nosso alcance, onde podemos fazer a diferença. Onde podemos ditar as regras, dando valor ao que deve interessar. A quem deve interessar. 
Nunca é tarde para começar...

06 fevereiro, 2013

Any Way the Wind Blows

«A little light is filtering from the water flowers.
Their leaves do not wish us to hurry: 
They are round and flat and full of dark advice.»

Sinto falta daquela antiga sensação que preenchia cada célula do meu corpo com a novidade.
De olhar e ver as árvores no alto, independentes. Balançam ao vento, passeiam com ele.
Ele chega e persuade tudo e todos. Todos o desejam seguir.
De olhar e reparar nas flores, perto das minhas mãos - quase lhes tocam e anseiam por isso. Elas sentem os meus olhos, o toque fugidio e demorado que não chega a acontecer. Aqui não há pressa, ou caos, ou destruição. Só talvez da alma...Mas a solidão também atua como proteção, como um reflexo que não deixa entrar o mal do resto do mundo.
O cheiro fresco, puro, ingénuo da erva, que me chega à cintura, encanta-me. Chama por mim, canta pequenas e breves canções que apelam ao que já foi aqui vivido. Diz-me que aqui posso ter toda a paz que procuro; que aqui, a vida é como eu a pinto. Neste local, paira no ar um qualquer feitiço, algo por descobrir, por desvendar, como o segredo que se esconde no botão tímido de uma rosa.
Posso respirar livremente - há espaço para ser e imaginar. Os universos são imensos, as ideias infinitas. Algo incrível deve habitar por estes cantos da terra.
Leveza de querer, simplicidade de conseguir prever o que não está mesmo à minha frente, de bastar. De não precisar de voltas complicadas da mente de muitos, para ver o que está escrito nas entrelinhas sinuosas que formam caminhos e estradas que percorrem estes vales, aquelas serras. No fim de tudo o que existe no presente, onde não há mais nada. Onde não vive ninguém e por isso, onde o mal ainda não chegou a romper.
Lá, refugia-se a esperança arrastada por medo, a felicidade incontida, aquilo pelo qual ainda vale a pena viver.
O rio passa por mim a correr, mas não vai a lado algum. Limita-se a não desistir, porque não tem outra escolha? Ou porque escolhe fazê-lo? Traz a vida consigo, traz a ousadia, o desassombro de viver. Livra-nos da treva que paira sempre ao alcance, livra-nos do mar salgado onde tentámos em vão acabar com isto. Com esta vulnerabilidade, esta perturbação sem fim que vinha sussurrada pelas folhas das árvores, quando abanam os seus ramos exibicionistas. Esse mar não o quis, não nos quis. Cuspiu-nos de volta, cruelmente.
E assim, aqui voltei. Onde as estrelas têm uma casa e onde o oxigénio é dolorosamente saboroso. Onde a morte espreita, já cansada de esperar pelos que se opõem a deixar a luta.
Tive saudades de viver este ambiente, este refúgio verde. Tenho tristeza de não haver tanto, já não.
Mas as árvores ainda estão cá, o rio ainda corre. E eu, regresso. Relembro.