26 dezembro, 2012

People are strange...



Essa fome de querer, apenas quando já não posso.
De ver o brilho ao longe, quando antes nunca o tinha visto sequer - e ter a certeza de que não serei capaz de viver sem isso; de ser a única coisa neste mundo que será capaz de diminuir o vazio que se criou.
Ter a certeza de que por não ter a oportunidade de o ter, é a única coisa que me fará feliz.
Egoísmo, narcisismo, pensamento destrutivo...Querê-lo de volta é tudo o que sei fazer, agora.
É o que me guia, é o que me ilumina, é o que me faz saber que estou viva. Este sentimento de que algo está incompleto, de que faltará sempre essa parte que me traz conforto e paz nunca cessará de me perseguir.
Persegue-me, atormenta-me, mostra-me os passos a dar para o seguir e diz-me: quero-o de volta.

16 dezembro, 2012

The Fire Rises


[As palavras começam de facto a repetir-se, mas só quero agradecer, como sempre, pela honra que é escrever a teu lado. Obrigada por me deixares partilhar esse dom que tens de criar obras primas. Espero que o nosso talento tenha valido a pena (Diogo Garcia)]

No fim alguns dirão que tudo
Não passou de uma espiral de fogo…
Mas nós sabemos que foi muito
Mais do que chamas a ganharem vida
Em direcção a um céu.
O coração bate, e o seu batimento é um ritmo
Constante em crescimento, o corpo eleva-se,
O chão treme; o ritual está a começar,
O cântico move-se ao sabor dos passos,
A sicronização é perfeita,
Sabemos o que queremos, para onde vamos,
Como o faremos. O medo é transformado em gelo.
Mas o gelo também queima. Adormece. Torna o meu ser dormente,
Até cair num sono profundo, sem dar por isso.
A escuridão recebeu-nos dentro de si e deu-nos espaço para o luto.
Aqui, o silêncio abafa os gritos que ecoam, apaga o que realmente acontece.
Já nada importa, porque uma parte de nós estará para sempre perdida.
Viver na ilusão mantém-nos vivos, mas arrasta-nos ao fundo quando sabemos a verdade;
Nesse fundo é onde estamos, talvez à deriva, talvez sabendo perfeitamente onde viemos parar. Talvez tendo a certeza de que é aqui que pertencemos. Aqui viemos, por um motivo.
Claridade aqui não existe e as trevas, esmorecem o fogo, até ele desaparecer.
Ajoelhados colocam em causa todos os sentimentos
Todos os actos feitos e por fazer…
Procura-se uma luz segura que brilhe na mão
Dos verdadeiros ou dos inocentes, apontando um caminho,
Para uma redenção, agora que o arrependimento
Crava os dentes afiados na garganta e as unhas
No resto do vosso corpo.
Mais cedo, do que mais tarde, o fogo
Nada mais pode consumir…
E agora? O que farão de diferente?
Esta é agora a nossa sina: tentar agarrar-nos
A algo que nunca dura, que se esfuma no ar.
Mesmo à nossa frente, quando estamos prester
A tê-la. Tentamos agarrar-nos à realidade, à verdade
Que nos mantém na sanidade. É tudo o que nos resta,
Mas nem isso existe mesmo.
Esforçamo-nos por conseguir vislumbrar a luz neste
Fim de tudo sombrio. Mas talvez seja melhor assim,
Talvez a esperança só viesse prolongar o que está
Destinado a morrer. Fadados a viver para sempre entre
A mentira e a verdade, o que aconteceu e o que foi sonhado,
Deixamos agora de acreditar…É tão cansativo sermos os únicos
Que ainda tentam acalmar a dúvida, para manter o sofrimento longe.
É tão esmagador saber que no fundo, nada mudará, nada é
Possível fazer para consertar o que está mal. Não terá um final feliz;
Isto está amaldiçoado desde o primeiro pensamento que o originou.
Deixamos agora de respirar…Entregamo-nos à leveza do desistir.
Algo no entanto desperta na escuridão que nos abrigou por tanto tempo –
O fumo entranha-se aqui e desperta-nos para o que começou.
O fogo regressou, não-derrotado de queimar. Não cessou de arder.
Ergueu-se. Tal como nós.

11 dezembro, 2012

Rising Up

«Songbird, rebirth, unearth creature,
Submerge from hurt, pain, broken pieces,
Emergency, heartbeat increases
Rise up, Lotus, rise, this is the beginning..»

01 dezembro, 2012

Âncora

Não sei onde me leva. Está tudo desfocado.
Subo os primeiros degraus, hesitante. Sei que não é prudente.
Mas algo me impele, faz-me querer avançar.
O risco é grande, a queda também. Mas eu vou.
Não é a emoção, não é a sensação que faz o sangue correr
Que me incentiva a ir mais longe. É outra coisa...
Algo onde estou embrenhada, de onde não consigo,
Nem quero sair. Sei que pode ser perigoso, mas
Não me importa. Não me pode importar.
O caminho à minha frente está escuro, mas avanço
Às cegas. Isso não me impede de mover. Sigo sempre em frente.
Nada me afeta, já não sinto os degraus debaixo dos meus pés;
A única coisa que me guia é a brisa que sinto, que vem de cima.
A escadaria prolonga-se e continua mais, não até ao céu.
Os passos incertos, o som que ecoa devagar, à distância.
Estou perto, consigo ouvi-lo, vê-lo com o toque. Fecho os olhos,
Porque um feixe de luz suave me acolhe. Cheguei por fim.
Se olhar para trás, não me lembro de onde comecei, como
Ou porquê. Talvez nem saiba quando...Mas sei que algo de mim
Ficou para trás, antes de ter iniciado a subida. O medo, o nervosismo,
A capacidade de temer o inesperado, o incontrolável. O que não
Está nem nunca esteve ao meu alcance de decidir.
Ignorei as vozes que me chamavam, que me diziam para ver
Por onde ia. As que me diziam para não vir por aqui. As que
Temiam que me perdesse para sempre, em algo etéreo.
Temiam que caísse no esquecimento, que adormecesse para a vida.
Desta vez não fiquei parada, à espera que a felicidade desaparecesse.
Não, agora já não tenho receio deste algo indefinível, esmagador, opressivo.
A âncora irreprimível já não me afoga, já não me empurra. Apenas me traz à superfície.
Finalmente cheguei.

27 novembro, 2012

Now we are free


Desta vez vai ser mais fácil.
Espero que agora custe menos.
Se eu for, talvez algo melhore.
Mas já não é isso que importa. Já não devo ser eu.
Porque de cada vez que tento, magoa mais fundo.
A desilusão esperada, a previsibilidade que queima
Atira-me para esse transe pacífico de quem já devia
Ter aceitado a realidade inevitável.
De cada vez que tento, o vidro crava o coração 
E eu desisto, só para voltar a tentar assim que possa,
Mal esse coração tenha esquecido a pontada que o enfraqueceu.
Não sei, desta vez é diferente. O fim? É possível...
Tento convencer-me disto, lembrar-me do que já sei;
Tento pensar que se for paciente, que se aprender a deixar ir,
Irei conseguir finalmente perceber que tudo tem um fim.
Sobretudo as melhores coisas, as que me iluminavam a alma.
Desta vez vai ser mais fácil, tem de ser mais fácil.
Espero que desta, não me leve ao fundo.
Demasiado fundo, por demasiado tempo...

21 novembro, 2012

11 novembro, 2012

Barely Breathing

Talvez numa outra vida pudesse.
Numa outra dimensão, talvez quisesse.
Mas não aqui, agora, assim.
Levem-me ao início, onde tudo era diferente,
Onde nada disto existia; quem me dera poder.
Quem me dera esquecer, respirar, ser de outra
Maneira. Isto sufoca, encurrala, enlouquece.
Mantêm-me acordada à noite, quando tudo
É escuro, silencioso, vazio. Quando há espaço,
Para perceber o que resta.
O que eu não quero que haja, o que talvez queira,
O que não sei se quero. Não sei querer isto.
É um impasse que não sai daqui.
Nunca deixa de ser. Simplesmente.
Talvez numa outra vida eu pudesse...
Quem me dera poder.

28 outubro, 2012

«Nesta, era severa quem me dera
A paz de todos os astros, para além da estratosfera.
Ser pioneiro viajante,
A um planeta distante,
Anos luz deste caos citadino violento e sufocante.
Sentar-me na calma de um cometa,
Com uma folha e uma caneta,
Obter inspiração divina em cada rima, em cada letra»

13 outubro, 2012

Seventh Seal

There comes a time in life where you must make a choice. You must choose between what you are doomed to know, and your heart.
Between fighting for your rightful place, and walking away from it all, your fate or your life. It is up to you.
Blinded, not by choice, but by power, you forsake everything else; you can only hear that poisonous voice that whispers slowly in your ear, tempting with the promises of the divine. You cannot let go, since it's so intoxicatingly beautiful and haunting - you want to see where it leads, how it ends. You never want it to stop.
The storm is here, upon us, you are drowning in the water from above and yet, you simply stand there, between the abyss and the glory. The thunder claims blood...Will you answer his call? Oblige the gods, so that they let you become everything you've been sworn to be?
You want to follow your will, the whim to be bigger, the desire to become stronger. You feel it running through your veins, right into your fast beating heart. It controls you, drives you into action - you sense your body move, to honour your destiny and suddenly you cannot command it anymore.
You have fire in your eyes now, no one can stop you. Life and death, ruin and triumph spin dangerously overmuch close to each other in the wheel of fortune. The tide will turn; it is all bound to fall, and burn and start again, reborn from the ashes.
There comes a time when you must make your choice. It's time.

04 outubro, 2012

Linked

O meu erro? Talvez amar-te demais...
O único passo em falso? Querer tudo. Logo.
Tentar agarrar-me desesperadamente à tua mão,
Quando a vi desaparecer. Aos poucos.
Lutar com tanta força para te marcar, para te
Fazer ver que vale a pena. Temo o fim breve.
Como será vislumbrar isto, a tua face, e saber
Que nunca mais haverá? Que terá morrido.
Não me falem em inevitabilidade, não ousem
Referir o curso natural da vida. Isso não me acalma,
Não amortece a dor, e a mágoa, e a tristeza constantes.
Nem sempre vêm ao de cima, mas fazem barulho,
Cá dentro.
Isto não acabou. É-me impossível ver-te ao longe,
Empurrada pela maré, e ficar aqui. A acenar o adeus
Que parte o meu coração...
Que adeus é esse? O que é este pedaço de mim
Que querem arrancar contra a minha vontade?
O medo alimentado pela insegurança da realidade
Ganha asas e escapa. Incontrolável.
Recuso-me a dizer que isto é impossivelmente doloroso,
Que corrói, que mata.
Não vou gritar ao vento que ninguém me alertou,
Que ninguém teve a ousadia de me dizer que
Nada disto é fácil...Nem se irá tornar. Não para mim.
Mais uma vez. E outra, e novamente, se for preciso.
Nunca acreditarei que isto é um erro. Nunca acreditarei
Que devia ter ouvido a razão e não o sentimento. Nunca.
Vale a pena tentar, por isto, vale a pena segurar-me até
Ao meu último sopro àquilo que me faz feliz, que me permite viver.
Não me falem de inevitabilidade.
Isto não é ciência, trata-se da melhor loucura que tenho.
Vou guardá-la...

22 setembro, 2012

Autumn Leaves

Abro a porta ao Outono. Ele chegou.
O sol, o vento, as folhas? Bem vindos.
Assaltam-me pensamentos e sonhos antigos
Que tinham ficado para trás com o tempo.

O ar carrega já o toque frio do que virá,
Suficiente para me acariciar a alma com
Um arrepio feliz da promessa por cumprir.
Há tranquilidade aqui, cheira a harmonia.

Vislumbre do futuro - é instável, mas
Significa alegria, esperança. A imagem
De ti enche-me de eletricidade, enche-me
De vontade de ser o que quero. Fé.

A música continua a tocar, porque nunca
É demasiado tarde para a ouvir. E os
Mesmos sonhos e pensamentos, cansados
E poeirentos, voltam numa rajada de vento incontrolável.

Acredito que se inicia uma nova era; as
Possibilidades estão em cada canto.
Sinto-me leve, volátil, imprevisível como
Qualquer outra chama. Como o fogo que arde.

Sinto-me capaz de tudo...E não é demasiado
Tarde, ainda. Ainda é possível, neste turbilhão.
Abro as portas ao Outono, as janelas, o coração.
Porque ele voltou..

11 setembro, 2012

Multidão

Não me faças abrir os olhos.
Não quero abri-los. Não me obrigues. Eu não quero ver, não quero ter a perceção da realidade, não quero ter de enfrentar os rostos e as vozes e o medo.
Posso apenas mantê-los fechados? Juro que não vou contar a ninguém, prometo que ninguém dará por mim aqui ao canto, sem ver, sem respirar, sem vida. Ninguém dará por mim.
Eles continuam, destemidos, sem a sombra do passado sobre a sua vida; esquecem o que existiu, o que ficou para trás, o que já não voltará. Não hesitam sequer para contemplar a perda de si.
Talvez se me esquecer, isto desapareça. Talvez acorde no dia em que adormeci para isto, há muito muito tempo. Talvez seja uma ilusão muito má.
Não me faças abrir os olhos, não posso apenas mantê-los fechados? Eu não quero ver...

09 setembro, 2012

Resistência

Há uma frágil diferença entre a dor crua
E vívida e a dor aceite, conformada.
Essa última já não pesa, porque já só
Existe no ar. Na memória, na minha.

Neste misto de arrependimento, vejo-te.
Encontro todos os caminhos que se
Fecharam para mim, como um portão
Definitivo. Perdi a minha hipótese, decerto.

Porque é que o fim de tudo custa tanto?
Porque motivo é que perder alguém é
Sempre tão dolorosamente dilacerante?
O desespero tão tamanho, a tristeza tão avassaladora?

Sinto-me inacreditavelmente sozinha, aqui.
Pelos vistos, esse pedaço de mim ainda
Não apareceu, só para fugir outra vez.
Nunca chega, deixando-me a contemplar as horas mortas.

A um passo, a um toque, a um sopro
De distância; era tão possível trazer-te
De volta. Acreditar na felicidade, na simplicidade...
Mas sei que seria um erro demasiado belo,

Uma mentira suave que me faria sorrir.
A recordação serve para lembrar o que houve.
Inevitavelmente, diz-me sem rodeios o que já não há.
Existe uma diferença entre a dor ferida e a que já não queima:

Mas ambas trazem, saudade.

07 setembro, 2012

Temptation


Os olhos febris seguem o seu movimento sem hesitar. O corpo não pede sequer permissão, age apenas porque é o que precisa.
A visão perde-se pelas suas curvas sinuosas, pelo pedaço de pecado que contempla...Tão preciosa, tão rara, tão sedutora, tão exatamente aquilo que quer...Tem de tê-la, tem de torná-la sua.
Aproxima-se e consegue sentir o seu cheiro intoxicante que o leva a imaginar mais. Consegue quase tocar o seu cabelo, mas este escapa-lhe por entre os dedos que se fecham tarde de mais. A presa fugiu, mas é impossível não a seguir, não procurar chegar mais perto para prová-la. Para saber como sabe. Só uma vez, seria o suficiente - convence-se disso, embora saiba que está a alimentar uma mentira. Mal esteja na sua posse, nunca a poderá deixar ir; nunca irá saciar a sede, nunca bastará.
Cobiça, a inveja, o ciúme enchem-no diariamente de uma ânsia dolorosa que não lhe é permitida controlar; a falta de controlo já é tão absoluta que o fim da obsessão é impensável. É movido por uma vontade própria, que não se vê, mas que se faz impôr, guiando os seus passos, os seus pensamentos. É movido por um motivo mais forte que ele, por uma necessidade que não pode ser silenciada.
Vê-la ali, tão ao alcance do seu toque, o seu cabelo negro como a treva, os seus lábios de sangue obsceno, a sua pele clara como a morte...Perfeição como esta só pode ser obtida através de um qualquer acordo com o demónio, só que a serpente não o deixa viver em paz - a paz acabou e agora só voltará a haver silêncio na sua cabeça quando possuir a tentadora maçã. Aí, as vozes cessarão...
Os seus olhares cruzam-se e, apesar de ela não parecer real, sabe que ela está atenta, fixada no seu escrutínio. Tem perfeita noção que ele a quer, que basta dar um passo em direção à sua entrega, e ele será livre - ainda que preso, de outra maneira. Ele sabe-o. Talvez o fim esteja próximo (o seu início).
O ritmo cardíaco aumenta, respirar torna-se mais difícil, está ofegante. Não há espaço para mais nada naquele segundo, naquele momento. A expectativa corta-lhe a possibilidade de ar, a espera dá-lhe alento e provoca-o. Estimula-o a agir.
Há finalmente uma inclinação e a escolha é feita. Terá a ousadia de ir buscar o que deseja e lhe pertence? Irá resistir à tentação?...

04 setembro, 2012

«Daylight dims leaving cold fluorescents.
Difficult to see you in this light.
Please forgive this bold suggestion, but
Should you see your Maker's face tonight,
Look Him in eye, look Him in the eye and tell Him:
"I never lived a lie, never took a life, but surely saved one".»

03 setembro, 2012

Blaze

O fumo aumenta no ar. Algo  está morto.
O nevoeiro adensa-se, espesso.
O inalar do queimado tóxico prende-se
Na garganta. Fica travado, impede-me.

Vi o sol a arder. Pensei que o mundo
Ia acabar. Tinha de o fazer, por fim.
Em chamas, parecia de luto por si.
Espalhava a sua mágoa, contra nós.

O oxigénio já não chega, não basta
Para respirar em segurança. Em breve,
Morreremos; o pilar de luz esmorecerá
E a treva irá fixar-se indefinidamente.

Toda a vida? Finda, perdida no escuro.
O homem? Réstia de uma criatura inútil,
Desesperada, faminta, bestial. Inumana.
Viver na miséria, no caos destrutivo, queima.

Destrói o que em tempos pensámos nosso.
A realidade que outrora vivemos desapareceu.
O nevoeiro apagou tudo, abafou o que existiu:
O fumo aumenta. O fogo é a única coisa que resta.

02 setembro, 2012

Definition of Insanity:

«Doing the very same thing over and over again, expecting different results...»

31 agosto, 2012

Expectativa

 «It's always darkest before the dawn...»

Quando é tão fácil entregar-me às trevas, quando era tão confortável deixar-me levar ao fundo por este mundo partido e corrupto, lembro-me de fechar os olhos e respirar.
Sentir que apesar de querer a chuva, o sol precisa de aqui estar, para aquecer a alma de todos nós; o alívio irá chegar, um dia. Em breve.
Tenho de pensar que já tentei essa hipótese, essa de largar o volante, de deixar as decisões de lado, a da negligência, da dormência. Mas já chega.
Isso não trouxe nada de bom, a minha vida não se tornou melhor; às vezes, penso que nem sequer se tornou mais fácil. Apenas mais vazia, mais desfocada. Silenciosa.
Podia continuar nesse estado desatento - a tentação está lá, o desejo profundo de sucumbir à gravidade que pressiona é imensa. Podia, mas sei que no fim de tudo, não é isso que quero. Porque, apesar de tudo, a luta, o esforço, a coragem de nadar contra a maré é que farão a diferença; se for vão, se for inútil? Nunca será...Tenho de acreditar nisso, a força para conseguir suportar a insustentável leveza de viver tem de surgir da fé. Da esperança.
A vontade de sentir isso tem de aparecer, tem de estar na capacidade de olhar para o pôr-se do sol com um sorriso nos lábios, afastando o desespero. A frustração, a tristeza.
Esperar que algo mude não basta, é preciso transformar a dor em algo alegre, a mágoa em amor, o vazio em tudo. Basta abrir os braços à esperança, rezando para que ela volte do sítio onde se escondeu à muito (ela traz consigo tudo o que precisamos de saber).
E sim, ela está a regressar, embora demore..

30 agosto, 2012

Wide Awake

«Tyler, my eyes are open.»

Lá vem a mesma velha história de sempre, já anteriormente vista. Pedaço do que já se viveu antes, infinitamente.
Não será novidade nenhuma se disser que finalmente aprendi após tanto tempo nessa cegueira; como tantos outros, sou só mais uma a demorar uma eternidade a chegar lá.
Já percorri estes mesmos trilhos de felicidade, mágoa, raiva, desconfiança. Traição, outrora. À primeira, à segunda, pensei que fosse apenas natural. Calculei que fosse o preço a pagar por isto - todas as coisas boas têm o seu lado negro, mas cheguei à conclusão de que valia a pena o esforço.
Talvez à terceira tenha começado a vislumbrar a verdade do que já sabia, embora ainda fingisse não ver. Tentava, desesperadamente, fechar os olhos, ignorar o que tinha de ser verdade. Terá tudo isto sido um sonho ou ilusão? 
Sinto-me tentada a responder que sim, sem hesitar, por muito que arda. Por muito que doa. Alguma vez me olhaste nos olhos e disseste a verdade? Porque acho que de cada vez que os meus olhos fitaram os teus, tu te limitaste a contar essa familiar doce história que nos aquece o coração. Palavras que pairam no ar, por não terem peso nenhum. Por significarem menos que pó.
Gostava de poder acreditar, mas é tarde demais agora. Por muito que o teu sorriso vá apaziguando a dúvida, por muito que o teu discurso tenha todas as palavras certas a dizer (e acredita, nós queremos sempre tanto acreditar nelas!), ela instalou-se e nunca mais conseguirei não-ver a tua verdadeira essência. Os meus olhos estão abertos para a realidade, não me é possível fechá-los.
Foste como uma droga, algo que me fez adormecer para o que normalmente não demoraria muito tempo a ver, mas a mentira era algo tão puro, tão agradável, tão meu...Deixei-me levar.
Resta agora saber se apesar da aversão, eu ainda consigo engolir o desagrado incrível que sinto com a tua presença, para poder olhar para ti, enquanto me tentas enganar, uma vez mais.

28 agosto, 2012

Not too late

I don't know if I am awake or asleep.
Not yet, at least.
I'm still not entirely sure what this is...
It came suddenly, but it doesn't seem to leave.

Willing, wild, soft, happy - I do not control it
I wish I could. I wish I could tell it exactly
What to do; when to stay with me, when to
Lift me up, all the way up to the clouds.

The wind comes and carries me to far away places.
Places I've never seen, places where I can feel whole.
I wish I could stop by for a while - seeing you from up
Here makes me sick of missing you. It makes me ache.

Someday I'll bring you along, to where the trees are so
High, it's leaves so green, the sun warm and comforting.
Maybe I will steal you away, just like the wind did,
And we'll live there where they can't find us.
Where they can't haunt us.
I wish I could...

26 agosto, 2012

Que deus?

O escuro oculta tudo o que não queremos ver; deixa por imaginar todos os cantos, portas, caminhos e corredores que permitem a passagem no mundo das sombras.
Mas, e se vislumbrar algo que prefiro esquecer? E se encontrar neste labirinto negro algo que escolheria ignorar?
Cheguei ao submundo, ao centro da nossa terra...Estaco porque o medo e a ânsia me paralisam, deixando-me indecisa entre que túnel escolher - qualquer que seja a hipótese, já consigo ouvir (os passos lentos e arrastados, a respiração dolorosa e sem fôlego, o cheiro de algo que não está vivo). Sei que a qualquer momento vou ter de me deparar com o que achei só existir nos meus piores e mais obscuros sonhos.
No subsolo quente e infernal que suga toda a vontade e energia em mim, sinto o inexplicável a escorrer viscosamente pelas paredes à minha volta, ouço os gritos sufocados dos demónios que desejavam ter escapado a este sítio - não houve saída para eles.
Mais adiante vejo-os com o fogo das labaredas nos seus olhos; fitam-me com uma calma imortal, que advém apenas da inevitabilidade, como se que quisessem engolir, consumir de forma total e animalesca, sem pensar na dor, na destruição, na morte... Só pelo simples prazer de o fazer.
A multidão que me rodeia aumentou sem eu dar por isso, tenho de ser mais rápida, tenho de continuar em frente, desviando-me das suas bocas vorazes e das suas unhas cortantes. Nem páro para olhar para trás, o rio de sangue começou a correr e os tambores que soam conduzem a velocidade da ação, dos corpos sedentos por mais - ritmo frenético, diabólico.
A devastação vai-se alastrando à medida que me embrenho neste pesadelo subterrâneo, o monte de cadáveres vai sendo cada vez maior, a destruição é incontrolável, impensável. A pestilência aqui está instalada e nunca vai cessar de existir (o mal, o impuro, o venenoso, o horrendo nunca poderão desaparecer porque estão dentro de nós: o que aqui testemunhei foi obra da criação do homem, mesmo que com um sussurro pecaminoso do diabo).
Não consigo respirar com tantas almas condenadas a tentar inalar-me, abandonadas pelo seu deus - e que deus amaldiçoaria assim os seus próprios filhos? Que deus conseguiria manter-se impávido perante tanto caos, tanta epidemia que todos os dias se espalha a mais mortais?...Sem hesitar, sem duvidar se estaria a fazer a coisa certa...Que deus?
O fumo torna tudo cinzento e a cinza enche-me os pulmões de negro, faz-me fechar os olhos para não ver o que nunca quis.
Desperada, por fim encontro a saída, a porta que me leva à liberdade, que me leva à luz. Território familiar onde estou rodeada do mesmo pó e ar de sempre, mas que não me permite esquecer o que acontece debaixo dos nossos pés.

09 agosto, 2012

Expiação (fim de Konstantine)

Enterrados na areia, os meus pés não parecem reais. Não os sinto aqui, por terem andado tão longe, por tanto tempo.
As ondas vão e vêm e trazem-me o conforto de saber que algumas coisas nunca mudam, por muito que o mundo pareça perdido ou fora do sítio.
Com a suavidade típica de quem paira, consigo distinguir passos incertos no areal; passos que só quem esteja constantemente à espera de algo consegue ouvir.
Vi os seus graciosos pés primeiro, depois o seu vestido branco comprido, o seu cabelo a esvoaçar com o vento, os seus olhos claros capazes de conter tudo dentro de si.
Inicialmente não me vislumbras, absorta na beleza do oceano, do céu azul, do sol que aquece apenas o corpo, mas não a alma - viras a cabeça na minha direção e vês-me. Mais ainda não sabes quem sou. Encaminhas-te para mim e nesse momento vejo a tua luta interior (a tua face muda de nervosismo para tristeza, para um misto de alegria e remorso e disso para antecipação).
Não consigo proferir palavras, porque não consigo acreditar o quão bela tu verdadeiramente és; nem na maneira como tudo em ti faz com que o meu corpo sinta pontadas de dor e saudade...Fito apenas o teu rosto, procuro os teus olhos com os meus e tento absorver o que mudou, os estragos visíveis que causámos um ao outro. Verifico que também ela não consegue falar porque está nessa busca incessante de matar a sede de mim, do que sobrou.
E então, digo-lhe tudo sem palavras:

"Konstantine...meu amor, nem acredito que estás à minha frente outra vez! Pensei ter-te perdido para sempre, mas voltei a este lugar uma última vez, talvez para perceber o que devia fazer, agora que voltei. Ele trouxe-me a tua presença adorável...
Não vou mentir, neste longo espaço de tempo, eu mudei, tu mudaste, ambos nos tornámos pessoas diferentes. Mas o meu amor por ti não desapareceu; trago-o sempre comigo cá dentro, porque me guia e me ilumina na noite. Também não vou dizer que não existiram momentos em que me apeteceu desistir, tentar apagar-te da minha memória; o caminho até onde estou hoje não foi nem fácil, nem indolor. Ressenti-te, senti-me injustiçado por não saber as razões que te moveram, por perceber que nunca te compreendi bem. Odiei-me por não te impedir de ires. Mas depois veio a calma, a compreensão, o perdão a tudo. Até a mim mesmo e decidi vir retomar este pedaço que ficou para trás quando também eu fui."

"Nem eu própria acredito no que os meus olhos vêem aqui à minha frente, sentado no mesmo sítio onde já estive inúmeras vezes, só para te relembrar. Apesar de parecermos os mesmos, eu sei que mudámos. E sim, sei que a culpa foi minha - calculo que não pareçam as melhores razões, mas o meu coração culpado ordena-me que te diga que não foi por não te amar...Isso nunca.
Mas tive medo, medo de estragar tudo (a primeira coisa boa da minha vida), medo de sentir que preciso tanto de ti, medo de saber que és real e que a qualquer momento te posso perder, medo do futuro, da vida. Medo por mim e por ti - medo de tudo, do rumo que estávamos a levar, possivelmente demasiado, demasiado rápido. O que nós criámos assustou-me com a sua intensidade, pensei que fosse muito bom para ser real. Tu viste-me, mesmo a mim, com tudo o que é mau e melhor, com os meus segredos e sonhos; tu conheces-me e isso encheu-me de pânico...Não estava habituada a ter alguém em quem me apoiar...Estava habituada a ser sozinha.
Mas desde que fui, a minha vida tornou-se um caos miserável, uma procura sem fim, sempre a tentar ver-te em todo o lado. Sem ti, perdi-me."

Ela senta-se a uma certa distância de mim na areia e continuamos a fitar-nos. Leio a apreensão por todo o seu corpo, portanto esboço um sorriso para lhe mostrar que está tudo bem. Ela solta uma gargalhada serena, coisa que me fez tanta falta. Há coisas que nunca mudam.
-"Então...?"
-"Então..."
Ambos aprendemos, mudámos, vivemos. Fizemos o que tínhamos a fazer e por isso deixei o passado ficar no seu sítio; a mágoa ou a raiva esgotaram-se assim que compreendi que nada disso me interessava. Tudo o que eu queria era tê-la nos meus braços de novo.
-"Já não tens receio, Konstantine?"
-"Já não...Não volto a deixar as minhas dúvidas arruinarem o melhor que já me aconteceu."
-"Ainda bem, porque desta vez, não vou a lado nenhum."

Parte I - 
Parte II -
Parte III -
Parte IV - 
Parte V -
Parte VI -

01 agosto, 2012

«You and me, I can see us dying...Are we?»

26 julho, 2012

Madrugada

Madrugada trabalhosa e quente.
Madrugada que nunca mais acaba.
E para que quero eu o seu fim?
Se é nela que encontro o conforto. A paz.

O tumulto cresceu, porque já se avizinhava.
O desabar desta chuva estava fadado.
Finalmente a imensidão de tudo isto rompeu:
Palavras desencadeiam pensamentos. Lágrimas.

Existe uma tristeza bela, quase poética na verdade.
O fardo custa, é pesado, é injusto. Revolta.
Mas podia ser pior, mais cruel. Menos meu.
Esse sobra, e vai modelando quem sou. Quase sempre.

Há algo de desesperante na solidão, na dormência.
Algo de inevitabilidade no vazio que ecoa cá dentro.
Nas palavras que ardem como se o sol me ferisse o
Coração. Que nunca vão, porque são a realidade.

Quando me sinto neste impasse, neste transe de
Pura mágoa, de pura aceitação do que é, tento
Abrir um pouco de caminho para a liberdade.
Encontro-a no silêncio, na calma do exterior.

Algo que isola, pode também libertar. Entra o vento.
Entra ele, mas saio eu, de cabeça baixa, alma pesada.
Entra o ar, a capacidade de respirar fundo. De me acalmar.
Entra tudo isso, e o desespero parte em busca de outrém.

A noite escura oculta o que nunca se poderá dizer.
O que eu nunca farei, o que eu sinto cá no fundo.
Coração abranda; a chuva torrencial cessa por hoje.
A madrugada chega ao fim, e eu abraço a ideia de partir.

23 julho, 2012

Addiction

Deixaste-o cair e eu apanhei-o.
Vi-o no chão e não pude recuar.
Fiquei com o teu coração nas mãos
E vi-o consumir-se como um cigarro.

Vi-o a desaparecer à medida que o
Tempo corria, à medida que ias.
Ias percorrendo esse trajeto.
Não tenho como voltar atrás.

Estas mãos, as minhas, seguram-te,
Mantêm-te vivo. Talvez uma parte de ti.
Talvez uma parte de mim também.
Não sei o que isto é, mas ainda o sinto bater.

Foste para longe, mas é possível.
Ele palpita sobre o meu próprio sangue.
De alguma maneira, eu trouxe-te à vida.
Trouxe-te a leveza da simplicidade.

A capacidade de acreditar, de vislumbrar
O mundo como ele poderia ser, de facto.
Dei-te o presente da alegria frágil de ser;
Trouxe-te a leveza de saber o que se quer.

O meu fardo está contigo. O teu prendeu-se a mim.
Já não está nas minhas mãos, porque sumiu.
Nada que eu queira mudar fará agora diferença.
Tornei-me parte de ti, não tenho como voltar atrás.

16 julho, 2012

Diminuir a intensidade de.

«Come break me down...bury me»

Veem-na com o cabelo ao vento, com o coração cansado do peso da chuva, a alma que reflete o céu noturno ou a beleza das sombras e não conseguem lê-la. Poucos conseguem.
Olham e ficam sem saber o que é ao certo; não, não é nada simples ou concreto, é algo bem mais profundo e secreto. Talvez seja a honestidade, a falta de corrupção, a surpresa constante que fornece (o inesperado que daí advém), alguma coisa brilhante que demora a passar. Mas talvez não...Talvez seja a fortaleza sempre prestes a quebrar que mantém o mistério, o realismo cru, a espontaneidade por vezes comovedora. Talvez seja isso, não sei.
Rodeiam-na e só alguns realmente reparam, veem o que há por baixo dessa camada exterior que nunca permite que a fragilidade das profundezas chegue ao de cima, veem o que não está lá. Veem os estragos que o peso das lágrimas vai marcando - a vulnerabilidade não é fácil de aceitar, porque nos faz perder todo o controlo que julgamos ter.
Assim, consegue manter a ilusão inocente de que tem as respostas que precisa de ter, de que sabe quem é afinal ou o que realmente quer de tudo isto. Nem sempre...Com essa tentativa, evita que os olhares mais atentos ou cruéis compreendam que a triste verdade é que já não consegue respirar.
Sempre que pára, dá por si parada num espaço sem saída onde tem de dar meia volta para evitar esse fim; não consegue respirar fundo, inspirar, sentir o ar a entrar e a sair. Não lhe é mais possível pensar claramente, sem entraves que tapem a claridade, que abafem o seu espírito. Até o conseguir, vai estar sempre presa nesta maré impetuosa que não a deixa abandonar este local e que a mantém prisioneira da sua corrente: ora à tona, lutando por um suspiro, ora arrastada onde não consegue ver a luz do dia, nas profundezas.
Incapaz de findar o que foi começado, mas que se desenrolou com o tempo, sobrevive devido aos pequenos refúgios que encontra pelo caminho. Quando começou essa dita luta, não esperava que fosse assim. Nunca assim tão difícil, porque eventualmente os demónios deviam sumir da sua vida.
Vagueia para longe de todos vós, dos olhares que magoam, que instigam, que silenciam, que pressionam demasiado. Dos olhares que cortam a respiração, que sufocam até a conduzir a um buraco negro que a engole por inteiro. Asfixia.
Apertam o círculo e respiram-na, até não haver mais nada.

15 julho, 2012

Crónica de uma Velha Infância


Felizes para sempre?! Essa já é de outrora, quando o mais complicado na vida era decidir ao que brincar nesse dia.
Mas é verdade, a tentação de querer viver eternamente e (ainda por cima!) feliz assombra-nos desde que somos crianças; crescemos programadas para acreditar que num belo e soalheiro dia, um rapaz encantador nos trará prontamente um sapato de cristal ou nos fará acordar de um sono intemporal (ao qual julgo corresponder a dormência permanente da vida).
Onde é que foram buscar esta ideia absurda? De que período pré-histórico saiu o conceito de que as raparigas precisam da ajuda de um príncipe corajoso, sempre pronto a salvá-la mal ela esteja em apuros? Penso que devo chamar à atenção de que nestes ditos filmes, o conceito de emancipação feminina não existe de todo...Não pode existir.
Voltando à minha primeira questão, quem é que achou por bem inventar falácias deste género, embrulhadas num belo laço feito de corda para entregar de forma mordazmente implacável a crianças inocentes? Falando como vítima indignada desta mesma situação, digo-vos que ter recebido esta montanha de ilusões, tão nova, só me alimentou ideias que nunca deviam ter visto a luz do dia.
O que eu gostava de saber (entre outras coisas) é como é que ninguém pensa nas consequências bizarras que isto tem? Um dia, todas as jovens que entusiasticamente choraram com a aparição de tão malfadada frase final vão crescer (sim, acontecerá!) e vão fitar o vazio alheio que as rodeia, perguntando-se sobre o que tinham andado a fazer durante toda a sua curta vida, à espera do que não existe; príncipes? Deixem-me rir...
Conselho para todos os futuros cineastas da disney: não é agradável acordar um dia para perceber que tudo era uma mentira risonha, que tudo era enganador, o oposto da realidade. Enche-nos de sarcasmo, torna-nos cínicas perante o cenário que julgávamos conhecer (enterrado com o romantismo, a visão do amor ideal que não é realista); deixa-nos desfeitas, céticas.
Era uma vez uma história mal contada, mas permitam-me que a corrija - uma rapariga de classe média (o feudalismo já desapareceu há muito) que divide o apartamento com algumas amigas (as rendas estão caras, claro está!) e que conhece um rapaz num bar, que lhe paga um cocktail (talvez venha num copo de cristal, mas não prometo!), não querendo de todo viver com ela, quanto mais para sempre!
Será que foram os padrões que mudaram assim tão drasticamente, ou isto nunca aconteceu fora do cérebro utópico de algum infeliz?
Confiem em mim...Hoje em dia nada do que se vive é fantasia, isso já acabou e o que sobrou são os devaneios sonhadores de mulheres tolas que precisam de acreditar no seu final feliz. Deixem-se de contos de fadas e pode ser que um dia, num alternativo Era Uma Outra Vez, vocês sejam a segunda melhor escolha. E quem se importa? O para sempre não existe, muito menos a felicidade eterna; por isso, em vez de esperarem pelo vosso palácio ou o vosso cavaleiro andante, aproveitem a vida que têm agora, com as pessoas que já estão nela, e que talvez estejam a ser desvalorizadas por vós. Assim, pode ser que encontrem a alegria remota que tanto desejavam. Procurem-na, não esperem por ela!

The End

02 julho, 2012

Fundo do Meu Lugar

«I never lived a lie, never took a life..»

Quanto tempo demorará isto a sarar?
Dizem-me que as cicatrizes passam, mas que o sentimento nunca vai embora por completo. É o que dizem.
As queimaduras ainda perduram tanto à superfície que o simples facto de contemplar este fogo esquecido as faz arder. Faz-me lembrar o que perdi, o que não conheci, o que não tenho hoje.
Toco ao de leve nas feridas porque desejo que desapareçam, que deixem de ser um fardo para mim. Já pedi, já tentei, já tive o meu luto. Mas por mais que tente seguir em frente, algo mais forte que eu volta a trazer-me aqui - a este sítio onde o tempo não existe e as imagens e os sons das memórias ecoam desordenadamente à minha volta. Cada canto, cada pedra, cada árvore testemunhou a minha dita vida; estes, imutáveis e eternos, viram-me crescer, viram a rutura que houve, quando a minha vida como eu a conhecia mudou para sempre, arrastando consigo a sombra de mim.
Agora, passado tanto tempo, testemunham apenas o que restou - as lágrimas silenciosas, a mágoa, a frustração, os cortes que ainda têm de ser curados...
Sem querer, pego na lenha acumulada em várias vidas e atiro-a para a lareira que me consome. Talvez consiga incendiar-me por completo, talvez consiga depois apagar este fogo que não finda de me engolir.
Inferno na terra, aqui sou atormentada em todas as horas com as lembranças, com o peso das perguntas que inevitavelmente se seguem. As que nunca terão resposta. As que me irão eventualmente enterrar no monte de cinzas e pó que aqui apareceu depois do fogo se ter cansado de crescer.
Quanto tempo demorará isto a sarar? 
Dizem-me que as cicatrizes serão em breve, mas que o sentimento só o tempo pode curar.
Um dia.

11 junho, 2012

Assombrada

«I am Jack's broken heart...»

Sentada na ponta da espiral que desce.
Ela desce à tristeza, à loucura. Ao inferno.
Viaja levianamente até encontrar onde dói. Onde sinto.
Viaja e percorre os caminhos do não-dito.

Acho que implodi, ali sentada. Parecia calma,
Quase absorta - não estava. Gritei por dentro.
Rasguei, desfiz, peguei fogo, sangrei. Máscara.
Morri, voltei à vida. Estava partida, sem saída.

O ressentimento cria um leve veneno que sabe
Espalhar-se com o passar do tempo. Realidade.
A revolta, a raiva, a compaixão, o abandono,
A dúvida, a crueldade, a náusea...Tudo não-passa.

Vão e voltam (voltam sempre), sempre em espiral
Perfeita, que nunca desiste de me levar para baixo.
De me enterrar na verdade inconsciente, obscura.
Talvez essa me consuma de vez. Claro, não vou parar.

Nunca vou deixar tudo isto ir, nunca irei conseguir
Ver o fim, a paz, o paraíso. Ter o meu descanso.
É-me impossível apagar o passado, mas também
Sou incapaz de calar o presente obstinado.

Esse presente que causa mágoa, luto por algo vivo.
Que me confunde, que me vem mostrar a minha
Humanidade. Que me irrita, pois continua a 
Surpreender-me quando não quero (constantemente).

Não sei como recomeçar. Não me é possível apagar
O feito - nem eu o queria, verdadeiramente. Só gostava
De poder saber como, ver a luz...É demasiado tarde 
Para algo nascer aqui. O sol já secou há muito:

O chão está quebrado, todos estamos, sempre estaremos.
E é o vendaval tão incrivelmente intenso de nada a
Fazer que me impede. Que me desespera, dia após dia.
Lágrima após lágrima, pedaço a pedaço.

É o castigo infernal de querer, mas ter noção de
Que não posso; de desejar, de ter esperança,
Mas ver de uma maneira doentia que nunca será.
Nunca haverá isso aqui.

Sentada na ponta da espiral, que balança.
Não sei o que sentir, quase nunca soube -
Em tempos soube agir, mas já não. Acabou.
Liberto memórias, tento manter outras comigo.
Mas todas elas já estão rasgadas.

10 junho, 2012

Metamorfose?

«This could be paradise»

O momento de silêncio propaga-se como o choque gradual que uma onda deixa atrás de si. O riso esmoreceu, o sorriso permanece apenas petrificado nos lábios, o ar que se respira tornou-se sério subitamente.
Ninguém consegue ver estas mudanças, elas não são captadas pelo olho humano (nem mesmo pelo que está atento); talvez a diferença entre o princípio e o fim se distinga pelo cheiro das coisas, pela maneira como os olhos sorriem com a presença ou como os pensamentos fluem e se interligam facilmente, abrindo caminho à quase-telepatia.
O olhar repara no que o coração sente, olhamo-nos infinitamente, queremos pintar este momento para sempre na memória eterna que nunca nos abandonará - pego-te na mão, tu tocas no meu cabelo, fazendo esta dança que tem por fim deixar uma impressão literal uns nos outros.
O agradecimento ritualístico e mudo faz com que o mundo à nossa volta perca a sua nitidez, o seu eco já não nos diz nada (aprisionados neste esconderijo de alegrias e tristezas acumuladas); penso que a solenidade deste fim é marcado pela incapacidade de descrever o que está escrito na minha cara, nos meus olhos, nas minhas mãos...Se calhar só o sorriso e a lágrima o podem fazer. Traduzir a dimensão do que sinto.
Mudaram-me, fizeram-me ver coisas que nunca poderia ter visto sozinha e coisas que estiveram sempre à minha frente; ensinaram-me algo sobre mim, sobre o valor do amor, da compaixão (também da tristeza, das coisas más), supreenderam-me pelo melhor e pelo pior. Fizeram-me rir, chorar, gritar de raiva, de felicidade...Fizeram-me ver o lado bom da vida quando tudo o que eu via era a sua treva. Criaram ambição em mim, avivaram a alma corajosa que eu tinha esquecido há muito, relembram-me que devemos seguir o nosso instinto, que devemos tentar atingir os nossos limites, esperar mais de nós, dar tudo por tudo até conseguirmos voar (alargar todos os horizontes possíveis, tentar mais e melhor, tentar estar em todo o lado).
Com vocês cresci, sofri, cresci mais um pouco. Tentei procurar o que faltava, tentei melhorar o que não estava bem...Tentei ajudar-vos, tornar o vosso mundo um pouco mais colorido, um bocadinho menos turvo, um bocadinho mais vosso, mais feliz. Não sei se falhei (decerto que não consegui parar a vossa trovoada sempre), mas quero que saibam que o foi o que quis de todas as vezes em que a tristeza ou a dor pairavam por perto.
Espero sinceramente que tenham ganho algo de mim: nada me deixaria mais realizada do que saber que pelo menos uma vez, iluminei o vosso mundo, que algum dia vos ajudei, vos fiz feliz, vos dei razões para sorrirem...Espero que um dia, com toda a distância do tempo que nos possa separar, olhem para trás e se lembrem desta viagem incrível que vivemos em conjunto - e que vamos ainda viver. Espero que relembrem e se riam, porque sabem que enquanto durámos, foi só preciso fechar os olhos e acreditar. Tudo é possível, obrigada!

07 junho, 2012

Ponteiros

É tudo tão efémero...
A vida, a felicidade, o amor.
Tudo chega e passa, vulneráveis ao vento.
Tornando tudo precário ou incerto.

Posso contemplar a segurança que finjo
Ter, posso recordar as memórias que
Tento guardar - é em vão. Tudo isso
Escapa demasiado rápido. Desaparecem.

Se tento agarrar o que importa, eles somem
Mais depressa. Só vejo o seu rasto, o que
Ficou da alegria, da tristeza, da paixão.
O pó que ficou de outra vida.

O que importa o passado, o futuro?
O presente ainda agora chegou e já vai
Embora. Vai a correr por mim, levando o
Que eu amo - quem eu amo, o que conheço.

(realidade)
O suspiro acorda-me, o bocejo desperta-me.
O grito que paira no ar relembra-me a imensidão
Do mundo, as possibilidades existentes criadas.
E é tudo tão efémero... Já acabou.

28 maio, 2012

Taking Chances

Desde já um grande obrigada à excelente colaboração de António Barradas com a sua leitura - sem ela, este texto não seria o mesmo!

21 maio, 2012

20 maio, 2012

Uncharted

«You have a lot of fears and maybe you're afraid of a lot of things, but you jump anyway»

 A vida brilhava no seu auge, a música crescia, subia cada vez mais alto até tocar o céu. Até tocar o sol.
O ar era leve e levava-me com ele, tornava tudo mais simples. Até aí via todos os meus movimentos a serem seguidos, controlados; tornou-se difícil respirar, tornou-se impossível continuar assim.
Perdi muita coisa, podia ter perdido muito mais. É certo. Mas não faz mal. Não faz mal. Há que aprender a dizer adeus, por vezes; ocasionalmente, temos de deixar ir o que nos faz falta, o que amamos. Tudo é breve, nada disto dura. Efemeridade tão absolutamente imprevisível e aliciante...Disseram-me que isto é crescer, que o sofrimento nunca é meramente nocivo; avisaram-me que enfrentar os meus medos, caminhar no incerto, no precário é essencial para seguir em frente. Tomar a decisão que custa, que nos assusta é o complicado, mas também o corajoso a fazer. É dar esse passo que muda tudo.
Estava trancada, encurralada, debaixo destes olhares paralisantes; a vida brilhava tão incandescente, a música crescia tanto que enchia tudo, findava tudo. Tocava até a lua. 
O ruído era tanto, a dor tão grande. E depois tudo parou.





O silêncio encheu o quarto como a maré descontrolada e furiosa. Uma golfada de vento (o mais fresco que me revolveu) entrou e limpou tudo, de rajada. Apagou as pegadas no areal, silenciou as vozes tormentosas - estava livre.
Perdi muita coisa, sim. Já perdi demais até. Mas podia ter perdido tudo. Podia não ter nada.
Não faz mal. Sinto-me viva. E estou livre.