Os olhos febris seguem o seu movimento sem hesitar. O corpo não pede sequer permissão, age apenas porque é o que precisa.
A visão perde-se pelas suas curvas sinuosas, pelo pedaço de pecado que contempla...Tão preciosa, tão rara, tão sedutora, tão exatamente aquilo que quer...Tem de tê-la, tem de torná-la sua.Aproxima-se e consegue sentir o seu cheiro intoxicante que o leva a imaginar mais. Consegue quase tocar o seu cabelo, mas este escapa-lhe por entre os dedos que se fecham tarde de mais. A presa fugiu, mas é impossível não a seguir, não procurar chegar mais perto para prová-la. Para saber como sabe. Só uma vez, seria o suficiente - convence-se disso, embora saiba que está a alimentar uma mentira. Mal esteja na sua posse, nunca a poderá deixar ir; nunca irá saciar a sede, nunca bastará.
Cobiça, a inveja, o ciúme enchem-no diariamente de uma ânsia dolorosa que não lhe é permitida controlar; a falta de controlo já é tão absoluta que o fim da obsessão é impensável. É movido por uma vontade própria, que não se vê, mas que se faz impôr, guiando os seus passos, os seus pensamentos. É movido por um motivo mais forte que ele, por uma necessidade que não pode ser silenciada.
Vê-la ali, tão ao alcance do seu toque, o seu cabelo negro como a treva, os seus lábios de sangue obsceno, a sua pele clara como a morte...Perfeição como esta só pode ser obtida através de um qualquer acordo com o demónio, só que a serpente não o deixa viver em paz - a paz acabou e agora só voltará a haver silêncio na sua cabeça quando possuir a tentadora maçã. Aí, as vozes cessarão...
Os seus olhares cruzam-se e, apesar de ela não parecer real, sabe que ela está atenta, fixada no seu escrutínio. Tem perfeita noção que ele a quer, que basta dar um passo em direção à sua entrega, e ele será livre - ainda que preso, de outra maneira. Ele sabe-o. Talvez o fim esteja próximo (o seu início).
O ritmo cardíaco aumenta, respirar torna-se mais difícil, está ofegante. Não há espaço para mais nada naquele segundo, naquele momento. A expectativa corta-lhe a possibilidade de ar, a espera dá-lhe alento e provoca-o. Estimula-o a agir.
Há finalmente uma inclinação e a escolha é feita. Terá a ousadia de ir buscar o que deseja e lhe pertence? Irá resistir à tentação?...

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