22 setembro, 2012

Autumn Leaves

Abro a porta ao Outono. Ele chegou.
O sol, o vento, as folhas? Bem vindos.
Assaltam-me pensamentos e sonhos antigos
Que tinham ficado para trás com o tempo.

O ar carrega já o toque frio do que virá,
Suficiente para me acariciar a alma com
Um arrepio feliz da promessa por cumprir.
Há tranquilidade aqui, cheira a harmonia.

Vislumbre do futuro - é instável, mas
Significa alegria, esperança. A imagem
De ti enche-me de eletricidade, enche-me
De vontade de ser o que quero. Fé.

A música continua a tocar, porque nunca
É demasiado tarde para a ouvir. E os
Mesmos sonhos e pensamentos, cansados
E poeirentos, voltam numa rajada de vento incontrolável.

Acredito que se inicia uma nova era; as
Possibilidades estão em cada canto.
Sinto-me leve, volátil, imprevisível como
Qualquer outra chama. Como o fogo que arde.

Sinto-me capaz de tudo...E não é demasiado
Tarde, ainda. Ainda é possível, neste turbilhão.
Abro as portas ao Outono, as janelas, o coração.
Porque ele voltou..

11 setembro, 2012

Multidão

Não me faças abrir os olhos.
Não quero abri-los. Não me obrigues. Eu não quero ver, não quero ter a perceção da realidade, não quero ter de enfrentar os rostos e as vozes e o medo.
Posso apenas mantê-los fechados? Juro que não vou contar a ninguém, prometo que ninguém dará por mim aqui ao canto, sem ver, sem respirar, sem vida. Ninguém dará por mim.
Eles continuam, destemidos, sem a sombra do passado sobre a sua vida; esquecem o que existiu, o que ficou para trás, o que já não voltará. Não hesitam sequer para contemplar a perda de si.
Talvez se me esquecer, isto desapareça. Talvez acorde no dia em que adormeci para isto, há muito muito tempo. Talvez seja uma ilusão muito má.
Não me faças abrir os olhos, não posso apenas mantê-los fechados? Eu não quero ver...

09 setembro, 2012

Resistência

Há uma frágil diferença entre a dor crua
E vívida e a dor aceite, conformada.
Essa última já não pesa, porque já só
Existe no ar. Na memória, na minha.

Neste misto de arrependimento, vejo-te.
Encontro todos os caminhos que se
Fecharam para mim, como um portão
Definitivo. Perdi a minha hipótese, decerto.

Porque é que o fim de tudo custa tanto?
Porque motivo é que perder alguém é
Sempre tão dolorosamente dilacerante?
O desespero tão tamanho, a tristeza tão avassaladora?

Sinto-me inacreditavelmente sozinha, aqui.
Pelos vistos, esse pedaço de mim ainda
Não apareceu, só para fugir outra vez.
Nunca chega, deixando-me a contemplar as horas mortas.

A um passo, a um toque, a um sopro
De distância; era tão possível trazer-te
De volta. Acreditar na felicidade, na simplicidade...
Mas sei que seria um erro demasiado belo,

Uma mentira suave que me faria sorrir.
A recordação serve para lembrar o que houve.
Inevitavelmente, diz-me sem rodeios o que já não há.
Existe uma diferença entre a dor ferida e a que já não queima:

Mas ambas trazem, saudade.

07 setembro, 2012

Temptation


Os olhos febris seguem o seu movimento sem hesitar. O corpo não pede sequer permissão, age apenas porque é o que precisa.
A visão perde-se pelas suas curvas sinuosas, pelo pedaço de pecado que contempla...Tão preciosa, tão rara, tão sedutora, tão exatamente aquilo que quer...Tem de tê-la, tem de torná-la sua.
Aproxima-se e consegue sentir o seu cheiro intoxicante que o leva a imaginar mais. Consegue quase tocar o seu cabelo, mas este escapa-lhe por entre os dedos que se fecham tarde de mais. A presa fugiu, mas é impossível não a seguir, não procurar chegar mais perto para prová-la. Para saber como sabe. Só uma vez, seria o suficiente - convence-se disso, embora saiba que está a alimentar uma mentira. Mal esteja na sua posse, nunca a poderá deixar ir; nunca irá saciar a sede, nunca bastará.
Cobiça, a inveja, o ciúme enchem-no diariamente de uma ânsia dolorosa que não lhe é permitida controlar; a falta de controlo já é tão absoluta que o fim da obsessão é impensável. É movido por uma vontade própria, que não se vê, mas que se faz impôr, guiando os seus passos, os seus pensamentos. É movido por um motivo mais forte que ele, por uma necessidade que não pode ser silenciada.
Vê-la ali, tão ao alcance do seu toque, o seu cabelo negro como a treva, os seus lábios de sangue obsceno, a sua pele clara como a morte...Perfeição como esta só pode ser obtida através de um qualquer acordo com o demónio, só que a serpente não o deixa viver em paz - a paz acabou e agora só voltará a haver silêncio na sua cabeça quando possuir a tentadora maçã. Aí, as vozes cessarão...
Os seus olhares cruzam-se e, apesar de ela não parecer real, sabe que ela está atenta, fixada no seu escrutínio. Tem perfeita noção que ele a quer, que basta dar um passo em direção à sua entrega, e ele será livre - ainda que preso, de outra maneira. Ele sabe-o. Talvez o fim esteja próximo (o seu início).
O ritmo cardíaco aumenta, respirar torna-se mais difícil, está ofegante. Não há espaço para mais nada naquele segundo, naquele momento. A expectativa corta-lhe a possibilidade de ar, a espera dá-lhe alento e provoca-o. Estimula-o a agir.
Há finalmente uma inclinação e a escolha é feita. Terá a ousadia de ir buscar o que deseja e lhe pertence? Irá resistir à tentação?...

04 setembro, 2012

«Daylight dims leaving cold fluorescents.
Difficult to see you in this light.
Please forgive this bold suggestion, but
Should you see your Maker's face tonight,
Look Him in eye, look Him in the eye and tell Him:
"I never lived a lie, never took a life, but surely saved one".»

03 setembro, 2012

Blaze

O fumo aumenta no ar. Algo  está morto.
O nevoeiro adensa-se, espesso.
O inalar do queimado tóxico prende-se
Na garganta. Fica travado, impede-me.

Vi o sol a arder. Pensei que o mundo
Ia acabar. Tinha de o fazer, por fim.
Em chamas, parecia de luto por si.
Espalhava a sua mágoa, contra nós.

O oxigénio já não chega, não basta
Para respirar em segurança. Em breve,
Morreremos; o pilar de luz esmorecerá
E a treva irá fixar-se indefinidamente.

Toda a vida? Finda, perdida no escuro.
O homem? Réstia de uma criatura inútil,
Desesperada, faminta, bestial. Inumana.
Viver na miséria, no caos destrutivo, queima.

Destrói o que em tempos pensámos nosso.
A realidade que outrora vivemos desapareceu.
O nevoeiro apagou tudo, abafou o que existiu:
O fumo aumenta. O fogo é a única coisa que resta.

02 setembro, 2012

Definition of Insanity:

«Doing the very same thing over and over again, expecting different results...»