28 fevereiro, 2010

Paragem

Às 4:40 da manhã o meu relógio parou.
Isso implica que o tempo também o tenha feito?
Deduzo que não, porque olho à volta e tudo parece normal.
Acho que se o tempo tivesse parado, nada estaria igual.
Nem mesmo eu.
Levanto-me e olho pela janela. Não se vê ninguém,
Mas que horas serão? O sol ainda nem nasceu...
Procuro pelo relógio, mas relembro que ele parou: 4:40.
E agora? Estou tão acostumada a este pequeno objecto que
Marca todos os segundos do meu dia!
Estou demasiado habituada a consultá-lo várias vezes,
Na esperança de ver o dia aumentar algumas horas.
Descubro que são 5:30, o que explica a falta de pessoas na rua.
No resto da casa a minha família repousa descansada, sem sequer
Imaginar que eu estou acordada a pensar se o tempo parou.
Bebo água na cozinha, na esperança de dissolver este nó que se
Formou na minha garganta, mas sem resultado.
Olho o céu, pela janela agora da cozinha, e encontro-o com uma tonalidade completamene banal. Nada de estranho, outra vez.

Volto ao meu quarto e tento adormecer, mas na verdade,
Por muito que tente, não consigo.
É que o silêncio é demasiado esmagador.
Experimentem tentar ouvir o silêncio, e vejam como ele é barulhento.
Sento-me e olho à volta. Está tudo normal, mas porque me sinto assim?
Está tudo normal!
Ligo o rádio e ouço as notícias: acidentes, trânsito e previsões de bom tempo, ou seja, tudo como costume.
Consulto o relógio para ver quanto tempo passou, mas lembro-me que está parado.
Se não estivesse, tinha de ser o tempo, porque ainda eram 4:40.
O tempo passava, e nada acontecia.

Começo a rir baixinho e penso "deixa-te disso".
Mas começo a pensar que até um relógio parado está certo duas vezes ao dia.
Como adivinhar essas duas alturas se ele está parado?
E se perguntarmos ao tempo, quanto tempo ele tem, o que nos responderá?
Fico nesta espiral de pensamentos sobre o tempo, que me afligem. Confundem-me.
É que parece que ele me escorre por entre os dedos, e que todos os segundos me fogem, obrigando-me a correr atrás dele o tempo todo.
O meu relógio parou às 4:40 da manhã.
Isso implica que também eu o tenha feito?

25 fevereiro, 2010

Alegoria da Caixa

Escuridão é tudo o que vejo.
Tento mexer-me, mas estou presa. Algemada.
Tento gritar, mas estou silenciada. Amordaçada.
Onde estou? Como vim aqui parar?
Só me lembro de ver esta escuridão à minha volta.
É a minha última lembrança.
Quem me trouxe? E porque o fez?
Estas e outras tantas perguntas percorrem a minha
Cabeça à velocidade da luz.
O que é que me está a acontecer?
Estou assustada, encurralada.
Não sei o que fazer ou o que pensar.
Aos poucos, se mexer as mãos, sinto o pano que as ata,
A desfazer-se. É aí que reside a chave para a minha
Salvação. Mas o pano não dá de si e começo a perder
A ponta de esperança que tinha ganho.
Sou uma paciente forçada, com pouca paciência.
Levanto-me na penumbra e procuro por algo que me ajude.
Encontro uma maçaneta e ouço vozes do outro lado.
Corto o pano com a sua ajuda e retiro a mordaça.
Respiro fundo e empurro a porta com força, para tentar
Demonstrar que não tenho medo (embora tenha),
E que tenho coragem (isso já não tanto).
Afasto a luz do sol, com a mão, da frente dos olhos. Claridade.
Estou numa rua, repleta de pessoas embrenhadas nas suas vidas.
A falar ao telemóvel e a enviar mensagens de importância.
Olho à minha volta enquanto caminho. Mas afinal o que se passou?
Como fui ali parar, àquele cubículo sem luz?
Será que me perdi algures? Foi isso!
Perdi-me de mim, deixei de me ver, deixei-me perder. E agora?
Como me encontro?
De repente, aparecem pessoas muito altas, de todos os lados.
Não parecem ver-me, ou melhor parecem fingi-lo.
E dirigem-se todos a mim. Empurram-me de um lado para o outro
Como uma pequena partícula de ar, comandando o meu destino.
Fizeram-me caminhar alguns metros no meio deles, sem ver mais nada
À frente, o que me levou a um beco sem aparente saída.
Mas havia uma porta (há sempre um caminho a seguir) na qual eu entrei.
De volta à escuridão, com um vislumbre de claridade.
Eis que me descobri amordaçada dentro de mim mesma, sem saber onde me encontrava realmente.

Sei agora que nunca mais me quero voltar a perder.

20 fevereiro, 2010

A Praia

Leve brisa que me afaga a cara e que
Mexe nos meus cabelos.
Sorrio. Se todas as noites fossem com esta...
Oiço uma nota de piano, ao longe e o som feliz de
Trechos de conversas animadas e risos.
Passo as mãos pelos ombros, não por ter frio,
Mas para aconchegar a alma que teima em fugir
De sítio, irrequieta.
Faz sempre isto, quando está contente e calma.
Vou caminhando, sentindo a areia ligeiramente húmida
E uma ocasional orla de espuma que me molha a bainha do vestido.
Olho para a tela negra cheia de pontos brilhantes que me acenam
Lá de cima, e para a luz que me guia, a Lua.
Tão branca e cheia que me faz sentir protegida.
Sorrio. Se todas as noites fossem assim...
Avanço no areal e vou-me aproximando cada vez mais de rochas negras
Que namoriscam com o mar de cada vez que ele as visita.
Estão cheias de algas vistosas que não têm pressa de as abandonar.
Assim que as alcanço, dou meia volta e o meu destino é agora outro.
O guia de muitos barcos não naufragados, o guia de muitos perdidos.
Inalo o cheiro a maresia, forte, e nesse preciso instante, só durante escassos
Segundos, senti-me parte da praia.
Gotas finas e suaves; leves e pequenas começam a cair lentamente em cima de mim.
Começam a afagar-me ternamente enquanto eu levanto os braços
Para poder sentir ainda mais a chuva.
Cheguei ao farol que me banhou com a sua luz intensa.
Passei a mão pela sua superfície rugosa e de seguida
A brisa conduziu-me de volta ao pontão que me levou de volta a casa.
Antes de entrar, olhei para o cenário que decorria atrás de mim.
Havia pessoas a passearam à beira-mar, umas a irem, outras a virem,
Mas todas riam e estavam felizes, como eu.
Sorri. Se todas as noites fossem como esta, esta não teria sido tão diferente.

06 fevereiro, 2010

Walk Away

Não vale a pena. É o que me ocorre.
Serei odiável por isso? Por pensar asim...
Acho que não. Mas é o que sinto de verdade.
É este sentimento de individualismo que talvez me separe de vocês.
Mas, não é isso.
É algo mais. É aquela velha sensação que mistura pertença e vontade de pertencer, que eu não sinto.
Porque olho à minha volta, e apesar de me serem familiares, não são a minha família.
Não são as pessoas que quero ter à minha volta, e não consigo evitar recordar que outrora, eu tive essa família.
Pergunto-me o que lhe terá acontecido...

Agora olho à volta e o que me ocorre é, não quero saber. Não vale o esforço.
E nem me quero enterrar muito, porque sei que talvez pudesse tornar-me numa de vós.
Mas à medida que os meus tornezos se vão afundando, o meu impulso é sair dali o mais rápido possível.
Porque será? Porque não me quero ligar a vocês?
Sei que com vocês estou muitas vezes sufocada, e sem vocês, posso respirar livremente.
Com vocês caminho para a forca, sem vocês, caminho para a liberdade.
E é assim. É estranho, como tenho a capacidade de lutar tanto por uns, e tão pouco por outros, que até podem valer mais a pena do que os que desperdiçam o meu tempo.
Mas não quero saber.
Somos diferentes. E também iguais.
Só que vocês tomam essas atitudes e dizem essas coisas. São assim, e são felizes.
Enganam-se a vocês próprios. Contradizem-se e com isso só me fazem rir.
Eu não sou assim. Eu não ajo dessa maneira.
Eu não digo essas coisas. E sobretudo, eu não sou hipocrita.
Não tiro falsos juízos, não condeno, não crio pré-conceitos.
Na verdade, eu podia ser como vocês.
Eu também tenho falhas! Eu também tenho defeitos!
Simplesmente não consigo conceber o vosso pequeno mundo, a vossa mentalidade.
As vossas regras e maneiras de ser.
E é assim. É estranho, mas realmente, é isso que nos separa.
Finalmente percebi.
E embora possa estar a agir mal, eu estou a virar costas e a ir embora, na direcção oposta à vossa.