Às 4:40 da manhã o meu relógio parou.
Isso implica que o tempo também o tenha feito?
Deduzo que não, porque olho à volta e tudo parece normal.
Acho que se o tempo tivesse parado, nada estaria igual.
Nem mesmo eu.
Levanto-me e olho pela janela. Não se vê ninguém,
Mas que horas serão? O sol ainda nem nasceu...
Procuro pelo relógio, mas relembro que ele parou: 4:40.
E agora? Estou tão acostumada a este pequeno objecto que
Marca todos os segundos do meu dia!
Estou demasiado habituada a consultá-lo várias vezes,
Na esperança de ver o dia aumentar algumas horas.
Descubro que são 5:30, o que explica a falta de pessoas na rua.
No resto da casa a minha família repousa descansada, sem sequer
Imaginar que eu estou acordada a pensar se o tempo parou.
Bebo água na cozinha, na esperança de dissolver este nó que se
Formou na minha garganta, mas sem resultado.
Olho o céu, pela janela agora da cozinha, e encontro-o com uma tonalidade completamene banal. Nada de estranho, outra vez.
Volto ao meu quarto e tento adormecer, mas na verdade,
Por muito que tente, não consigo.
É que o silêncio é demasiado esmagador.
Experimentem tentar ouvir o silêncio, e vejam como ele é barulhento.
Sento-me e olho à volta. Está tudo normal, mas porque me sinto assim?
Está tudo normal!
Ligo o rádio e ouço as notícias: acidentes, trânsito e previsões de bom tempo, ou seja, tudo como costume.
Consulto o relógio para ver quanto tempo passou, mas lembro-me que está parado.
Se não estivesse, tinha de ser o tempo, porque ainda eram 4:40.
O tempo passava, e nada acontecia.
Começo a rir baixinho e penso "deixa-te disso".
Mas começo a pensar que até um relógio parado está certo duas vezes ao dia.
Como adivinhar essas duas alturas se ele está parado?
E se perguntarmos ao tempo, quanto tempo ele tem, o que nos responderá?
Fico nesta espiral de pensamentos sobre o tempo, que me afligem. Confundem-me.
É que parece que ele me escorre por entre os dedos, e que todos os segundos me fogem, obrigando-me a correr atrás dele o tempo todo.
O meu relógio parou às 4:40 da manhã.
Isso implica que também eu o tenha feito?
28 fevereiro, 2010
25 fevereiro, 2010
Alegoria da Caixa
Escuridão é tudo o que vejo.
Tento mexer-me, mas estou presa. Algemada.
Tento gritar, mas estou silenciada. Amordaçada.
Onde estou? Como vim aqui parar?
Só me lembro de ver esta escuridão à minha volta.
É a minha última lembrança.
Quem me trouxe? E porque o fez?
Estas e outras tantas perguntas percorrem a minha
Cabeça à velocidade da luz.
O que é que me está a acontecer?
Estou assustada, encurralada.
Não sei o que fazer ou o que pensar.
Aos poucos, se mexer as mãos, sinto o pano que as ata,
A desfazer-se. É aí que reside a chave para a minha
Salvação. Mas o pano não dá de si e começo a perder
A ponta de esperança que tinha ganho.
Sou uma paciente forçada, com pouca paciência.
Levanto-me na penumbra e procuro por algo que me ajude.
Encontro uma maçaneta e ouço vozes do outro lado.
Corto o pano com a sua ajuda e retiro a mordaça.
Respiro fundo e empurro a porta com força, para tentar
Demonstrar que não tenho medo (embora tenha),
E que tenho coragem (isso já não tanto).
Afasto a luz do sol, com a mão, da frente dos olhos. Claridade.
Estou numa rua, repleta de pessoas embrenhadas nas suas vidas.
A falar ao telemóvel e a enviar mensagens de importância.
Olho à minha volta enquanto caminho. Mas afinal o que se passou?
Como fui ali parar, àquele cubículo sem luz?
Será que me perdi algures? Foi isso!
Perdi-me de mim, deixei de me ver, deixei-me perder. E agora?
Como me encontro?
De repente, aparecem pessoas muito altas, de todos os lados.
Não parecem ver-me, ou melhor parecem fingi-lo.
E dirigem-se todos a mim. Empurram-me de um lado para o outro
Como uma pequena partícula de ar, comandando o meu destino.
Fizeram-me caminhar alguns metros no meio deles, sem ver mais nada
À frente, o que me levou a um beco sem aparente saída.
Mas havia uma porta (há sempre um caminho a seguir) na qual eu entrei.
De volta à escuridão, com um vislumbre de claridade.
Eis que me descobri amordaçada dentro de mim mesma, sem saber onde me encontrava realmente.
Sei agora que nunca mais me quero voltar a perder.
Tento mexer-me, mas estou presa. Algemada.
Tento gritar, mas estou silenciada. Amordaçada.
Onde estou? Como vim aqui parar?
Só me lembro de ver esta escuridão à minha volta.
É a minha última lembrança.
Quem me trouxe? E porque o fez?
Estas e outras tantas perguntas percorrem a minha
Cabeça à velocidade da luz.
O que é que me está a acontecer?
Estou assustada, encurralada.
Não sei o que fazer ou o que pensar.
Aos poucos, se mexer as mãos, sinto o pano que as ata,
A desfazer-se. É aí que reside a chave para a minha
Salvação. Mas o pano não dá de si e começo a perder
A ponta de esperança que tinha ganho.
Sou uma paciente forçada, com pouca paciência.
Levanto-me na penumbra e procuro por algo que me ajude.
Encontro uma maçaneta e ouço vozes do outro lado.
Corto o pano com a sua ajuda e retiro a mordaça.
Respiro fundo e empurro a porta com força, para tentar
Demonstrar que não tenho medo (embora tenha),
E que tenho coragem (isso já não tanto).
Afasto a luz do sol, com a mão, da frente dos olhos. Claridade.
Estou numa rua, repleta de pessoas embrenhadas nas suas vidas.
A falar ao telemóvel e a enviar mensagens de importância.
Olho à minha volta enquanto caminho. Mas afinal o que se passou?
Como fui ali parar, àquele cubículo sem luz?
Será que me perdi algures? Foi isso!
Perdi-me de mim, deixei de me ver, deixei-me perder. E agora?
Como me encontro?
De repente, aparecem pessoas muito altas, de todos os lados.
Não parecem ver-me, ou melhor parecem fingi-lo.
E dirigem-se todos a mim. Empurram-me de um lado para o outro
Como uma pequena partícula de ar, comandando o meu destino.
Fizeram-me caminhar alguns metros no meio deles, sem ver mais nada
À frente, o que me levou a um beco sem aparente saída.
Mas havia uma porta (há sempre um caminho a seguir) na qual eu entrei.
De volta à escuridão, com um vislumbre de claridade.
Eis que me descobri amordaçada dentro de mim mesma, sem saber onde me encontrava realmente.
Sei agora que nunca mais me quero voltar a perder.
20 fevereiro, 2010
A Praia
Leve brisa que me afaga a cara e que
Mexe nos meus cabelos.
Sorrio. Se todas as noites fossem com esta...
Oiço uma nota de piano, ao longe e o som feliz de
Trechos de conversas animadas e risos.
Passo as mãos pelos ombros, não por ter frio,
Mas para aconchegar a alma que teima em fugir
De sítio, irrequieta.
Faz sempre isto, quando está contente e calma.
Vou caminhando, sentindo a areia ligeiramente húmida
E uma ocasional orla de espuma que me molha a bainha do vestido.
Olho para a tela negra cheia de pontos brilhantes que me acenam
Lá de cima, e para a luz que me guia, a Lua.
Tão branca e cheia que me faz sentir protegida.
Sorrio. Se todas as noites fossem assim...
Avanço no areal e vou-me aproximando cada vez mais de rochas negras
Que namoriscam com o mar de cada vez que ele as visita.
Estão cheias de algas vistosas que não têm pressa de as abandonar.
Assim que as alcanço, dou meia volta e o meu destino é agora outro.
O guia de muitos barcos não naufragados, o guia de muitos perdidos.
Inalo o cheiro a maresia, forte, e nesse preciso instante, só durante escassos
Segundos, senti-me parte da praia.
Gotas finas e suaves; leves e pequenas começam a cair lentamente em cima de mim.
Começam a afagar-me ternamente enquanto eu levanto os braços
Para poder sentir ainda mais a chuva.
Cheguei ao farol que me banhou com a sua luz intensa.
Passei a mão pela sua superfície rugosa e de seguida
A brisa conduziu-me de volta ao pontão que me levou de volta a casa.
Antes de entrar, olhei para o cenário que decorria atrás de mim.
Havia pessoas a passearam à beira-mar, umas a irem, outras a virem,
Mas todas riam e estavam felizes, como eu.
Sorri. Se todas as noites fossem como esta, esta não teria sido tão diferente.
Mexe nos meus cabelos.
Sorrio. Se todas as noites fossem com esta...
Oiço uma nota de piano, ao longe e o som feliz de
Trechos de conversas animadas e risos.
Passo as mãos pelos ombros, não por ter frio,
Mas para aconchegar a alma que teima em fugir
De sítio, irrequieta.
Faz sempre isto, quando está contente e calma.
Vou caminhando, sentindo a areia ligeiramente húmida
E uma ocasional orla de espuma que me molha a bainha do vestido.
Olho para a tela negra cheia de pontos brilhantes que me acenam
Lá de cima, e para a luz que me guia, a Lua.
Tão branca e cheia que me faz sentir protegida.
Sorrio. Se todas as noites fossem assim...
Avanço no areal e vou-me aproximando cada vez mais de rochas negras
Que namoriscam com o mar de cada vez que ele as visita.
Estão cheias de algas vistosas que não têm pressa de as abandonar.
Assim que as alcanço, dou meia volta e o meu destino é agora outro.
O guia de muitos barcos não naufragados, o guia de muitos perdidos.
Inalo o cheiro a maresia, forte, e nesse preciso instante, só durante escassos
Segundos, senti-me parte da praia.
Gotas finas e suaves; leves e pequenas começam a cair lentamente em cima de mim.
Começam a afagar-me ternamente enquanto eu levanto os braços
Para poder sentir ainda mais a chuva.
Cheguei ao farol que me banhou com a sua luz intensa.
Passei a mão pela sua superfície rugosa e de seguida
A brisa conduziu-me de volta ao pontão que me levou de volta a casa.
Antes de entrar, olhei para o cenário que decorria atrás de mim.
Havia pessoas a passearam à beira-mar, umas a irem, outras a virem,
Mas todas riam e estavam felizes, como eu.
Sorri. Se todas as noites fossem como esta, esta não teria sido tão diferente.
06 fevereiro, 2010
Walk Away
Não vale a pena. É o que me ocorre.
Serei odiável por isso? Por pensar asim...
Acho que não. Mas é o que sinto de verdade.
É este sentimento de individualismo que talvez me separe de vocês.
Mas, não é isso.
É algo mais. É aquela velha sensação que mistura pertença e vontade de pertencer, que eu não sinto.
Porque olho à minha volta, e apesar de me serem familiares, não são a minha família.
Não são as pessoas que quero ter à minha volta, e não consigo evitar recordar que outrora, eu tive essa família.
Pergunto-me o que lhe terá acontecido...
Agora olho à volta e o que me ocorre é, não quero saber. Não vale o esforço.
E nem me quero enterrar muito, porque sei que talvez pudesse tornar-me numa de vós.
Mas à medida que os meus tornezos se vão afundando, o meu impulso é sair dali o mais rápido possível.
Porque será? Porque não me quero ligar a vocês?
Sei que com vocês estou muitas vezes sufocada, e sem vocês, posso respirar livremente.
Com vocês caminho para a forca, sem vocês, caminho para a liberdade.
E é assim. É estranho, como tenho a capacidade de lutar tanto por uns, e tão pouco por outros, que até podem valer mais a pena do que os que desperdiçam o meu tempo.
Mas não quero saber.
Somos diferentes. E também iguais.
Só que vocês tomam essas atitudes e dizem essas coisas. São assim, e são felizes.
Enganam-se a vocês próprios. Contradizem-se e com isso só me fazem rir.
Eu não sou assim. Eu não ajo dessa maneira.
Eu não digo essas coisas. E sobretudo, eu não sou hipocrita.
Não tiro falsos juízos, não condeno, não crio pré-conceitos.
Na verdade, eu podia ser como vocês.
Eu também tenho falhas! Eu também tenho defeitos!
Simplesmente não consigo conceber o vosso pequeno mundo, a vossa mentalidade.
As vossas regras e maneiras de ser.
E é assim. É estranho, mas realmente, é isso que nos separa.
Finalmente percebi.
E embora possa estar a agir mal, eu estou a virar costas e a ir embora, na direcção oposta à vossa.
Serei odiável por isso? Por pensar asim...
Acho que não. Mas é o que sinto de verdade.
É este sentimento de individualismo que talvez me separe de vocês.
Mas, não é isso.
É algo mais. É aquela velha sensação que mistura pertença e vontade de pertencer, que eu não sinto.
Porque olho à minha volta, e apesar de me serem familiares, não são a minha família.
Não são as pessoas que quero ter à minha volta, e não consigo evitar recordar que outrora, eu tive essa família.
Pergunto-me o que lhe terá acontecido...
Agora olho à volta e o que me ocorre é, não quero saber. Não vale o esforço.
E nem me quero enterrar muito, porque sei que talvez pudesse tornar-me numa de vós.
Mas à medida que os meus tornezos se vão afundando, o meu impulso é sair dali o mais rápido possível.
Porque será? Porque não me quero ligar a vocês?
Sei que com vocês estou muitas vezes sufocada, e sem vocês, posso respirar livremente.
Com vocês caminho para a forca, sem vocês, caminho para a liberdade.
E é assim. É estranho, como tenho a capacidade de lutar tanto por uns, e tão pouco por outros, que até podem valer mais a pena do que os que desperdiçam o meu tempo.
Mas não quero saber.
Somos diferentes. E também iguais.
Só que vocês tomam essas atitudes e dizem essas coisas. São assim, e são felizes.
Enganam-se a vocês próprios. Contradizem-se e com isso só me fazem rir.
Eu não sou assim. Eu não ajo dessa maneira.
Eu não digo essas coisas. E sobretudo, eu não sou hipocrita.
Não tiro falsos juízos, não condeno, não crio pré-conceitos.
Na verdade, eu podia ser como vocês.
Eu também tenho falhas! Eu também tenho defeitos!
Simplesmente não consigo conceber o vosso pequeno mundo, a vossa mentalidade.
As vossas regras e maneiras de ser.
E é assim. É estranho, mas realmente, é isso que nos separa.
Finalmente percebi.
E embora possa estar a agir mal, eu estou a virar costas e a ir embora, na direcção oposta à vossa.
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