28 dezembro, 2009

Metros Quadrados

Palavras. Que disseste. Que devias ter dito.
Palavras que não significam nada.
Que mudam com a distância e que se perdem no tempo.
Elas não provam nada. Não trazem nada real.
Talvez só a comunicação. Mas é um meio falso, enganador. Dissimulado.
Quanto tempo dura a palavra amo-te?
E para sempre? Pode ser tão efémuro...
Ouço os teus passos. Ecoam no meu passado e no meu presente. Futuro não sei.
Sei apenas que nada é garantido. Nada é provável. Nada é certo.
Vejo o brilho do sol através deste vidro, janela transparente. É como a minha alma.
Deixa passar a luz e a felicidade.
Ouço os meus passos a ecoar no teu futuro.
Este apartamento está vazio e poeirento. Não há nada aqui.
Só o sol que inunda todas as divisões até já não haver penubra aqui. E em mim.
Se te atirar uma corda, sobes até cá a cima?
Vá, trepa lá. Faz esse esforço.
Mão, mão, pé, pé, mão, pé. Um atrás do outro, um atrás do outro, atrás do outro...
E tentas, tentas, tentas. Puxão atrás de puxão, avanças mas não consegues sair do sítio.
Não consegues alcançar este lugar. Não me consegues alcançar. O teu futuro.
E que importa o passado ou o presente?
Tudo o que me interessa está cingido nestas paredes. Nestes metros quadrados.
Alcança-nos! Engana o tempo e o espaço.
Sobe até aqui e sente o sol a bater-te na cara, comigo.
Eu vejo a tua luta, aqui de cima, mas assim que aqui chegares, tudo vai ser melhor.
Eu estou aqui. E o que passou, acabou. Ficou para trás.
O que se passa agora, vai passar. E tudo o que sobra sou eu, somos nós. O futuro.

21 dezembro, 2009

Falsa Sensação

A falsa sensação de equilíbrio. De segurança.
Os mecanismos da humanidade para que se sintam capazes de viver a vida.
Para que não se afoguem no medo e na dúvida.
A falsa sensação de liberdade. De felicidade.
Desde que penses que tens o controlo do que te acontece, tudo está bem.
Ah! A falsa ilusão de controlo.
Controlo esse que não depende de ti, nem de mim. Controlo que não está nas nossas mãos.
Acreditas que és tu que crias a tua própria sorte. És tu que fazes a tua sina.
Estás cego com o teu falso poder. Pensas que possuis o controlo, o teu controlo.
A falsa sensação de iluminação. De inteligência. De objectivos.
Ao mesmo tempo que todos se esforçam por ter mais, eu tento ter cada vez menos.
Esforço-me por perder o que tenho, para que um dia, não tenha nada a perder.
Esforço-me para possuir cada vez menos coisas, porque essas vão acabar por me possuir.
Enquanto que todos se prendem ao caminho que vos fizeram escolher, eu sigo um muito diferente do vosso.
Eu, largo o volante e deixo que o medo se perca. Deixo o meu ser à deriva e vejo até onde é que ele me leva.
A ilusão de amizade. De amor.
Vocês esforçam-se uma vida inteira, em busca de algo que no fundo, não irão nunca receber.
Esforçam-se para alcançar metas que estabeleceram, metas que não fazem sentido. Que nunca serão acabadas. Metas ilógicas.
E eu, tento a todo o momento fazer aquilo que ninguém previa. Faço o inimaginável. Algo que nunca farão.
Enfrento o desconhecido, a noite escura.
E sei que a vidaé feita de riscos que temos de cometer.
Podem dizer que já conhecem tudo isto, mas eu sei a verdade.
Falsa sensação de saber. Falsa sensação de pensar.

20 dezembro, 2009

Espera (parte III)

Até que enfim.
Chegaste por fim. Mas não fizeste tudo sozinho.
Eu encontrei-te a meio caminho.
Ajudei-te no que tinhas de fazer.
Mais uma vez, eu encarreguei-me da tua tarefa, mas não me importo.
Estou feliz. A mágoa e a dúvida acabaram.
A tristeza foi embora, finalmente.
Sei que fizeste um pequeno esforço, reconheço que sim.
Obrigada. Percebo que foi melhor do que nada.
Estou-te muito agradecida por teres vindo, por teres ouvido o meu pedido.
Obrigada. A espera acabou.

12 dezembro, 2009

Espera (parte II)

Olho para o vazio e tento recordar a última vez que nos falámos.
Parece que foi à mil anos, quando na verdade o ponteiro quase não se moveu.
Entra por essa porta, agora. Vá lá!
Pede desculpa, admite a tua culpa, nem que seja só desta vez.
Abraça-me só, se for preciso, olha só para mim e sorri.
Entra por essa porta, agora. Estou-te a pedir.
Estou a implorar que acabes com o meu sofrimento. Faz só esse esforço.
Não te custa ver-me assim? Onde está todo o teu amor, a tua compaixão? Onde estão?
Não vês que o meu coração está desfeito?
Entra por essa porta, agora. Por favor.
Faz qualquer coisa. Nem que seja olhar para mim.
Tu podes mudar tudo, é só quereres.
Eu estou aqui, e nunca irei embora.
Estou à tua espera, lembras-te?
Vá lá, até as minhas lágrimas já esgotaram porque o tempo vai passando.
E não volta atrás, infelizmente.
Entra por essa porta agora. Peço-te.
Entra e muda a minha vida.


To Be Continued...

11 dezembro, 2009

Espera (parte I)

Ainda te lembras? Estou aqui.
Estou e não irei embora até voltares para me levar.
Ainda te lembras?
Estou aqui ao frio, no meio do vendaval.
O vento atravessa-me por todos os lados e eu estou aqui sozinha, em cima desta rocha a olhar para o mar e a sentir os salpicos das ondas que me molham.
Olho e vejo o céu carregado de nuvens, carregado como o meu coração.
Ainda aqui estou. E por muito que me custe às vezes, não vou embora. Nunca.
Ainda te lembras? Eu estou aqui!
Entro dentro de casa. Sento-me a tremer de frio. Sento-me à espera.
À tua espera. Para me vires limpar as lágrimas que caem sem controlo.
Ainda te lembras? Eu, estou aqui...


To Be Continued...

07 dezembro, 2009

Dúvida

As imagens ficam. As sensações vêm. Palavras, não tanto.

Tal ironia do destino assombra-me.

Um dia tão vivo e radioso, dia que podia ser feliz, foi o dia que representou o teu fim.

Ele começou muito antes, mas foi aí que tudo foi enterrado. Tu foste enterrado.

E embora não recorde tudo, recordo qualquer coisa. Algo que podia ter sido maravilhoso.

Mas o destino não o permitiu, não nos deixou acabar o que já estava começado.

E vi a dor em todo o lado. Multidão a prestar-te homenagem. Angústia, desespero.

Nunca pensei vê-la assim. E pensei que ela não ia sobreviver a isso.


Passada toda a mágoa pelo meio, que foi muita, também fiquei sem ti.

E desta vez, não teve mesmo sentido.

Deixaste devastação e dor, essa constante dor, dor profunda marcada nos que mais amavas.

Isto foi o que causaste com a tua partida.

Deixaste-nos com a pergunta, essa horrível pergunta que embarca culpa, tristeza e sofrimento.

A pergunta que paira no ar e no tempo. Aquela a que nunca teremos resposta.

Esse horrível porquê. O porquê…

Durante quase meio-dia vivi feliz num mundo onde pensava que existias. E 24 horas depois,

Tive de viver na certeza de que me tinhas deixado. Fiquei perplexa, parada no tempo, presa

Entre o passado e o presente que parecia irreal.

Como viver num mundo sem ti? Como continuar a minha rotina, sem ti, em todos os lados onde

Eras precisa? Como encarar o lugar vazio da última fila? Vazio de toda a vida que havia, vazio

De ti.

E ela, destroçada, todos eles, a fazerem a mesma pergunta insistente. Porquê?

Acho que nunca vi tanta dor como vi nela. Parecia prestes a desfazer-se e tu não estavas lá

Para apanhar os pedaços! Porquê?


Vocês todos. Uma capa que não mostra quase nada; que mostra muito pouco. Uma capa que

Engana. Mas afinal já todos estiveram lá, nesse lugar a perguntar porquê.

Já todos sofreram muito sem esperarem, sem contarem com isso.

E eu, apenas pergunto, porquê?

24 novembro, 2009

Aparências

Nem tudo é o que parece.
Tu que és tão comum em plena luz do dia, transformas-te no monstro que ambos sabemos que és.
Dentro das quatro paredes que te protegem, entregas-te aos teus vícios mais profundos, segredos ocultos.
Entregas-te ao prazer delicioso da carne. Carne da tua própria carne, sangue do teu sangue.
Mas não é condenável se ninguém souber, não é?
Roubas, traficas. É pelo bem da sobrevivência, não é? Pelo menos da tua...
Tu fazes o que for preciso para por comida na mesa. Vá, silencia a tua presa.
Ela era uma esposa, filha, mãe e avó adorada. Próximo crime!
Engana, mente. Desvia, desfalca. Menos uns milhões, que diferença faz?
Já está tudo tão mal de qualquer maneira, ao menos tu tens dinheiro a encher-te os bolsos que foram feitos por crianças desnutridas que provavelmente já morrerram.
E o padre? Que deu missa hoje na igreja da paróquia. Que ouviu confissões, que rezou Avé Marias.
Que chamou pelo nome do senhor!
Agora também o faz, dentro do seu quarto, enquanto comete o seu pecado favorito: LUXÚRIA.
Quem paga? Esse pobre adolescente que tem demasiado medo de denunciar o santo padre.
Nem tudo é o que parece. E as aparências iludem.
Passem por qualquer rua, por qualquer cidade.
Em cada esquina, em cada casa, há sempre o mal ao qual se entregam.
Temos a ganância, hipócrisia, o adultério, pedófiia, tráfico, morte, roubo, mentira, luxúria, inveja, gula, corrupção, entre tantas, tantas outras!
Em cada casa, em cada esquina, deixam cair a máscara, quando estão em segurança.
Mostram ao mundo quem realmente são.
Vocês precisam de observar o caos, o pecado, o mal.
Precisam de ver as coisas, as pessoas, a civilização morrer.
Não finjam, sabem que é a verdade.
A tragédia é a vossa felicidade, a miséria o vosso deleite.
O mar onde se banham, eternamente.
Avisem os políticos, a igreja, os ladrões, os assassinos...
Nem tudo é, o que parece.

23 novembro, 2009

Redenção

Eu fi-lo por ti. Tudo, por ti.
Livrei-te do pecado, da culpa, do perigo.
Fiz tudo sem te pedir autorização, fi-lo para o teu bem.
Eu sei o que é melhor para ti!
Tomo as tuas decisões, as tuas acções. Faço tudo para o teu próprio bem.
Minto, engano, destruo os outros.
Eu fi-lo por ti.
As minhas mãos estão cobertas de sangue derramado, de culpa. Mas não de arrependimento.
Fiz o que tinha a fazer.
A chuva lava o sangue, leva o que é mau, arrasta o que não pertence em mim.
Olho para o céu. Isto não é chuva.
São as lágrimas de um anjo caído. Anjo negro. Que fizeste tu? Que tens tu para verteres tal dilúvio?
Talvez tenhas vindo tentar salvar a minha alma.
Foi isso? Vieste, desceste do teu lugar celeste para tentares a minha salvação?
Bates as tuas asas negras e pairas à minha frente. Páras de chorar. Tomo isso como um sim.
Caio de joelhos no chão, abro os braços.
Estou a pedir a minha redenção.
Lava-me, purifica-me, querido anjo. Salva-me, ensina-me o que souberes.
Sim, agora percebo. Ter feito tudo foi um erro.
Agora sim, arrependo-me.
Que fui eu fazer? Que posso fazer me redimir?
Desfazer tudo o que fiz? Guia-me, por favor! Só tu me podes ajudar, anjo negro! Só tu.
Desço ao Inferno, percorro os seus nove círculos.
Enfrento o fogo eterno, demónios e horrores e quando volto, finalmente percebo os meus erros.
Mas os portões estão fechados. Tu trancaste-os. Trancaste-me cá dentro!
Porquê, pequeno anjo? Porque choras outra vez?
Eu fi-lo por ti, tudo por ti...Outra vez. Não consegui aprender, não quis perceber. Fi-lo outra vez.
Não consegui a minha redenção.
Fui eu que ditei o meu destino, a minha sentença, quando estava mesmo empenhada em mudar. Juro que sim! Ou assim pensava...
Fui eu que me entreguei a este lado, a este mal.
E tu, tentaste, em vão salvar-me da minha condição meramente humana e imperfeita.
Não chores mais, lindo anjo. Esta foi a minha escolha.

20 novembro, 2009

Cerimónia (continuação de Círculo Perfeito)

Abres caminho por entre os rostos encapuçados.
Fazem parte do cenário, da tua peça tão bem ensaiada.
Os teus discípulos estiveram à tua espera. Durante muito tempo. Muito tempo.
Alguns ainda assim voltaram. Deram-te uma nova oportunidade.
Eu já fiz parte dessa seita. Desse inferno que tu geres e governas.
Deixaste-me sem esperança, sem fé.
Deixaste-me apenas com uma lição.
Não confiar nunca mais nas tuas mentiras, nas tuas falsas promessas.
Levantas os braços e inclinas a cabeça.
Vais dar ínicio à cerimónia.
Levanta a tua luz, que é tão ténue agora! Essa que já foi brilhante, quando a dúvida do teu povo não tomava conta dele.
Eles ainda seguem todos os teus gestos atentamente, é certo. Como bons seguidores que são.
Ajoelham-se e rezam. Rezam por ti. Rezam a ti. Rezam sobre ti.
Pedem que continues a iluminar a pobre escuridão deles.
Eu encontrei o meu caminho, sem ti.
Deixaste-me sem fé, sem esperança.
Deixaste-me quando mais precisava de orientação.
Quando precisava que me dissessem o que fazer, o que pensar.
Obrigada por me teres feito esperar.
Assim pude abrir os olhos e compreender finalmente quem eras. O que eras.
Uma fraude. Uma mentira. Uma farsa que alimenta a insegurança e a ignorância dos mais fracos de espírito.
Levanta a tua luz! Levanta-a para que todos te possam ver como és!
Mostra-lhes o caminho. Tal como outrora pensei que me mostrasses...
Imagina o que é perderes a tua estabilidade, a tua crença, a tua devoção.
Deixaste-me sem nada, à chuva, a esperar por ti.
Fizeste-me esperar por uma mentira bem real. Uma mentira que ainda hoje é tomada por verdade.
E eles podem seguir-te, por enquanto.
Podia mostrar-lhes quem és. Podia até guiá-los, indicar-lhes o caminho.
Mas não é preciso.
Eventualmente, tu vais-te encarregar disso. Vais mostrar-lhes, involuntariamente. Por ti próprio, à tua custa, vais mostrar a verdade. E não vai ser preciso eu fazer nada.
Aí vais perceber. Vais perceber finalmente, ao sofrer com os teus pecados.
Vais sentir na carne o preço dos teus próprios erros.
Vais perceber que não és iluminado. Só finges iluminar.
E vais saber o que é ficar, sem nada.

Sete foram os teus pecados. Pecados que nunca serão esquecidos,
Pecados que nunca serão perdoados.
Pecados imortais.

16 novembro, 2009

Eclipse

Contemplo a tua face.
Transmite serenidade. Paz inpagável.
Quase vislumbro um sorriso leve nos teu lábios.
Acorda. Acorda em breve.
Carícia suave no teu rosto. Sorrio e encosto a porta devagar.
O fim está próximo. O fim, está próximo. Ou talvez, seja o ínicio. Não sei.
A verdade é que tudo à nossa volta parece indicar o teu regresso.
As folhas caem das árvores; o vento sopra furiosamente e o céu está deliciosamente encoberto.
Quase consigo ouvir as árvores sussurrar.
Quase consigo ver-te a acordares desse sono quase eterno, que demorou uma eternidade.
Acorda. Acorda em breve.
Não tarda, começa o espectáculo.
O ínicio do fim, e tu tens de estar aqui.
O apocalipse. Um dos nossos fins, que dão origem a outros.
Tu tens de estar aqui. Para eu ver a minha vida escapar-me, perdida no vento.
Para vê-la, contigo.
Nunca lhe chamei vida utópica, mas foi a minha vida. E quero vê-la passar, contigo.
Acorda. Acorda!
Abres os olhos. Olhas para mim e sorris.
Parece quase cruel acordar-te para voltares a adormecer muito em breve.
Levantas-te e olhas lá para fora.
Vês o céu em tons violeta.
O sol e a luz aproximam-se cada vez mais.
Em breve, estaremos mergulhados em profunda escuridão.
Chove torrencialmente. O vento consegue até arrancar árvores do chão.
Não se vê ninguém na rua.
Tentam esconder-se do inevitável. Somos os únicos que ao menos queremos estar de olhos bem abertos.
Sentamo-nos num muro a ver o eclipse final. Está tão próximo. Tão próximo, o fim.
Olho para ti e aperto-te a mão com força.
Olhas para mim e sorris.
Olhamos para o céu no momento em que a lua toca no sol.
Eu sei que foi o meu último dia na terra, e no entanto, foi bem melhor do que muitos outros.
Nunca lhe chamei vida utópica, e no entanto, gostei de a viver.

11 novembro, 2009

Ponto Final

Sei que sim. Sei que as palavras de ódio ou raiva são as que fluem mais rapidamente da caneta. Mas não te dou esse prazer. Isso, há muito que correu e escou por mim como água em folha de árvore.
Tão grata! Tão agradecida! Foste uma lição a juntar a todas as outras.
Tão preciosa, valiosa lição!
Estou mais do que curiosa para saber o que tu ganhaste com tudo isto.
Da minha parte não tens mais nada a receber. Nada que possas identificar, pelo menos.
E não é o rancor que me move. Não. É talvez a vontade de justiça.
A vontade de finalizar tudo, de uma vez por todas.
Assisto francamente ansiosa pelos teus nobres actos.
Não por me interessarem, mas para ver até onde te leva a tua miséria. De espírito. Porque cada passo teu, só me alimenta o sarcasmo.
Mas sim, tu tens razão. Sei o que me dirias, se pudesses.
Que foi pelo melhor. Que as coisas tinham de ser assim.
Não vale a pena perder tempo com as pessoas que o vão tornar em tempo perdido!
Dizer mais, para quê? Guardas-as, guarda as tuas palavras.
Palavras que me enchem a alma de mal. Que a transformam numa aura negra.
Portanto, antes de desperdiçares mais do meu precioso tempo, vou-me embora. Afasto-me.
Nunca mais me irás ver.
Nunca mais me irás falar.
Espero que nunca mais penses em mim.
Abri a caixa de horrores e soltei-te, de vez. Não te tentes agarrar ao que claramente foi um erro, ao tempo perdido. Não tentes ficar!
Só o fazes para me destruires.
Mas eu, não te permito.
Sou superior a ti, e olho-te de cima para baixo.
Não tentes ficar, não tentes agarrar-te ao que já passou.
Já nem eu faço isso.
Libertei-te. Por isso vai, sem olhar para trás, de uma vez por todas!
Vai, e por favor, não voltes!
Não é a revolta que me move.
É a necessidade de saber que para mim, morreste.
Nunca mais me irás ver.
Nunca mais me irás falar.
E espero que nunca mais penses em mim.
Eu sei que em ti, não vou desperdiçar mais tempo.
Em ti, nunca mais vou pensar.

08 novembro, 2009

Auto-Retrato

Sinto o sangue a correr-me nas veias.
Sinto-o a tentar esvair-se, por todo o corpo.
Vejo-o passar por todas as imperfeições da minha pele.
Afinal, fazem parte de mim...
Mergulho nos meus pensamentos e memórias.
Ordeno-os sem qualquer ordem, qualquer lógica.
Percorro-os, um a um, lentamente.
Não para os reviver, mas para recordar o meu caminho.
O vivido e o que falta viver.
Há algo de primitivo, algo primário na minha essência.
Algo adormecido.
Algo que faz parte da condição humana.
Algo que poderia tomar conta de nós se não o soubéssemos controlar.
Por vezes esquecemos ou fingimos esquecer.
Mas faz parte de mim...
Já esqueci todo o rancor, a raiva, o desgosto. A revolta.
Dei as boas-vindas à paz, à serenidade. Ao crescimento, à mudança.
Olho para o que me rodeia.
Material ou não-material. Faz tudo parte de uma história ainda inacabada.
Melodia que comecei mas que não sei acabar. Por enquanto.
São tudo peças cruciais do puzzle. Sem uma delas, nada seria a mesma coisa.
Tudo ocorreu de certo modo, por um motivo.
Tudo o que foi vivido, aprendido, dito e pensado, teve uma razão.
E sei que faz parte de mim...
Ouço-a (a voz) aprisionada a chamar-me...
Quer que regresse à minha origem.
Antes de ter sido envenenada, antes do antídoto.
Antes de qualquer coisa.
Chama-me. Incita-me a deixar-me ir. A deixá-la controlar.
Será que me atreverei?

(Auto-retrato inacabado)

07 novembro, 2009

Quem Mudou o Mundo

Quem sabe...Eu sei que não.
Pensei que já tivesses morrido há muito, muito tempo.
Porque ninguém deu pela tua falta. Ninguém reparou que desapareceste, de um momento para o outro.
Achaste que iam aperceber-se?
Quem sabe...Eu sei que não.
Surpreendentemente, parece que o teu lugar no mundo é irrelevante, não tem valor.
Ninguém sentiria a tua falta.
Ninguém iria reparar que paraste de aparecer; ninguém ia perguntar por ti.
Achaste que iam pensar em ti?
Quem sabe...Eu sei que não
Nunca se lembraram, sequer.
E eu, enterrada na minha miséria, no meu remorso, apenas me lembrei de ti, por mero acaso.
Porque me lembrei do lugar que costumava estar ocupado.
Lembrei-me da tua presença no meu dia-a-dia. Eu lembrei-me, por mero acaso.
E se não tivesse pensado na mesa vazia atrás de mim, há muitos, muitos anos?
Nunca serias recordado.
Se morresses, será que alguém ia ficar triste?
Será que alguém ficava afectado com isso?
Provavelmente, ninguém ficava com o seu mundo mudado pela tua perda.
Achaste que ias ser relembrado?
Quem sabe...Eu sei que não.
Mas sei que devias! Sei que te esforçaste durante muito, muito tempo para ajudares, para mudares a vida dos que te rodeavam.
Esforçaste-te e devias ser recordado por isso.
Devia ser exposto por todo o lado que tu desapareceste!
Que não apareceste naquele dia!
Para que toda a gente se apercebesse de que faltavas tu!
Tu que sempre te esforçaste para ser visto e ouvido! E devias ter ganho esse direito!
Achaste que eu não ia reparar? Que nunca me ia lembrar?
Quem sabe...Eu sei que sim.

04 novembro, 2009

Magnetismo

Como duas forças atraídas involuntariamente.
Duas partículas que caminham lentamente, uma para a outra.
Dois seres, em mundos diferentes, que tentam desesperadamente comunicar.
Tentam arranjar uma maneira de se juntar. Mas sempre que estão próximos,
A força repulsiva obriga-os a recuar.
Sempre que estão quase a tocar-se, a alcançar-se, são repelidos.
São obrigados a ver o seu corpo a fazer aquilo que menos querem. Separar-se.
Eles sabem que tem de haver uma maneira. Já houve uma altura em que encaixavam na perfeição.
Mas foram perdendo a ligação que os unia, a atracção que os juntava.
E então foram afastados.
Agora têm de re-descobrir a comunicação. Porque não podem estar separados. Têm de continuar a tentar.
A linha que os separa é tão ténue! Se ao menos eles soubessem...
A atracção magnética é incontrolável, tão inexplicável! E eles, só querem que o corpo ceda. Que os mundos se juntem, querem que tudo encaixe, outra vez.
A tristeza nos seus olhares revela a falta de força. Que começa a desvanecer.
Já a gastaram toda ao tentar chegar perto. Mas de todas as vezes, foram repelidos.
O desejo é tudo o que têm, como dois ímanes demasiado usados.
Olham um para o outro.
Têm aquele brilho nos olhos. Vão tentar uma última vez. Desta, têm de conseguir.
Correm à velocidade da luz. Ela consegue até sentir o cheiro dele, mas começa a ser puxada para trás.
Ele estende-lhe a mão, que ela toma, imensamente grata.
Finalmente quebram a barreira e conseguem estar na mesma dimensão; num mundo no meio dos outros dois.
Eles sabiam que as peças encaixavam! Sabiam que eles encaixavam. E nunca desistiram.
Nunca desistiram de comunicar e hoje, são um só.
A atracção juntou o positivo e o negativo e permitiu que estes se juntassem. Por fim.

30 outubro, 2009

Olhar

Não posso! Não posso olhar à minha volta.
Sei que não posso, mas estou sempre a fazê-lo.
Continuamente, sempre o mesmo erro.
Sei que não devo. Sei que não quero! Mas olho.
Olho para quê? Para ver o que não quero. Olho para descobrir coisas que não queria saber.
Olho e nada vejo. Vejo tudo, tanta coisa! Mas nada me interessa. Nem devia interessar.
Como posso não olhar? Tento convencer-me de que não quero, que é melhor não, que já não me interessa, mas na verdade lá bem no fundo de verdade, quero olhar. Quero saber.
Quero respostas, tantas respostas que procuro! E no entanto, ao olhar, não as encontro. Apenas gero mais perguntas. Fico neste ciclo sem fim, a questionar.
Esta constante sensação de que já ouvi isso, já vi isso persegue-me. E mesmo que corra, que serpenteie por caminhos estreitos, ela encontra-me sempre e começamos onde tínhamos acabado.
O olhar. Para todos os lados, à hora completamente errada. Ouvir sem querer, tudo o que não me convém.
No teu olhar, é onde me perco. E já lá vi imensas coisas. Quero ver ainda mais.
Nos teus olhos, doces olhos que me sorriem!
Que me fazem olhar, mesmo quando não quero.
Gesto involuntário, prisioneira da tua vontade. Do teu olhar que me encaminha para sítios que nunca pensei existirem. E perco-me lá, às vezes.
Tento encontrar o caminho de volta a ti, mas não consigo.
Então deixo-te ir. E penso que nunca mais verei os teus olhos, lindos olhos que sorriam para mim.
Tento esquecê-los, apagá-los da minha memória.
Tento não lembrar o teu doce olhar.
E quando penso que já esqueci, quando penso que já não me interessam, voltas a aparecer no meu campo de visão. A testar o meu auto-controlo de te olhar.
E eu não olho. Tenho de olhar sempre em frente, para não haver tentações. Custa, como custa! Mas tem de ser.
Foste tu que me expulsaste dos teus olhos, e desta vez deixarei de cometer o mesmo erro.
Deixarei de te ver, deixarei de te olhar.
Para sempre.

29 outubro, 2009

Recado

Trespasso o pórtico e entro.
Acho que seria extremamente hipócrita se me benzesse.
Os meus passos ecoam, algumas pessoas viram-se e olham-me com desaprovação no rosto.
Eu ignoro-as e olho à volta.
Está escuro, mas assim que os meus olhos se habituam, consigo observar com nitidez as estátuas e personagens que me olham das paredes. Cobertas com o seu véu de mentiras.
E ao centro, oh claro!, está Ele, na cruz. O Seu sofrimento e os Seus sacríficios salvaram-nos, não foi?
De quem? Não penso que estejamos a salvo do que quer que seja.
Pelo contrário, nunca estivemos mais perdidos.
Nunca soubemos tanto como agora, sobre tecnologia, ciência, medicina, mas nunca soubemos tão pouco...
Algumas pessoas rezam baixo, muito baixo. Rezam tão fervorosamente que parecem genuínos. Parece que realmente acreditam nessas tretas todas que os rodeiam!

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Só quero gritar-vos a verdade, para ver se vos perturbo, para ver se consigo atingir essa camada tão serena que aparentam ter.
Subo ao púlpito. Olho para todas as caras que me observam atentamente, atónitas.
Pigarreio. Vou dizer aquilo que tenho a certeza que vai chegar para vos atingir.
-Eu sei a verdade! E espero ver a vossa reacção.
Expressões de choque tomam lugar. Indignação. O caos total! O burburinho aumenta.
O que hão de fazer? Continuar a farsa no vosso dia-a-dia? Vestir o mesmo fato de hipócrisia e de mentira?
Eu não vos vou ilibar dos vossos erros, dos vosso crimes.
Vão ter de contar a verdade aos milhares de milhões de peregrinos, católicos, ignorantes ou o nome que lhes quiserem dar.
Eu vou fazer-vos contar a verdade. Já a esconderam durante muito tempo.
Desço do púlpito e saio da igreja. Estranhamente, ninguém tentou impedir-me. Sabem que não podem. Sabem que sem mim não eram nada, nada têm contra mim.
Eu sou o vosso anjo, o que caiu do céu e ao aterrar na terra, viu a realidade, bem lúcida. Bem sóbria. E virei-vos as costas. Tive essa coragem.
Eu sou o vosso Judas. Eu traí-vos. Eu não guardarei mais os vossos segredos obscuros.
Rezo baixo, muito baixo, a pedir perdão pelos meus pecados.
A pedir perdão porque ao tentar tanto, que sei que acredito.

28 outubro, 2009

Pesadelo

Não sei se é sonho ou pesadelo.
Realidade ou ilusão.
Só sei que acordei do que quer que fosse.
Estava tão feliz, estava tão bem. E de repente, tudo se foi embora.
O que aconteceu, não aconteceu mesmo. O que se disse, o que se fez?
Não aconteceu realmente. Não aconteceu!...
E tenho esta sombra a pairar sobre mim. A tua sombra!
A perseguir-me, a relembrar-me de que aquilo foi um sonho.
E isto é a realidade.
Talvez aquilo fosse a realidade e isto um mero sonho. Mas se assim for, é um sonho impossível de acabar.
A cada passo que dou, a minha raiva aumenta.
A cada inspiração, a minha revolta ferve e brota dos meus poros.
Eu já me deixei de sonhos. Agora só tenho pesadelos. Que não o são, para mim. E sonho então com a tua mágoa, o teu sofrimento, a tua impotência. Não vou ser hipócrita, nem vou dizer que te desejo felicidade.
Eu posso não ter muito valor, mas no fim vais ficar sem nada. Vou deixar-te por terra, desfeito, sem nada. Nada!
Eu vou estudar-te. Vou encontrar o teu centro, o teu ponto fraco e vou finalmente sentir o prazer que a tua desgraça origina.
Imagina o caos, o teu caos!
O que eu quero é que te sintas inútil, sem valor, sem esperança. Sem descanso. Sem sonhos.
Eu quero deixar-te sem nada, a lamentar tudo.
Quando sentires na pele, aí vais perceber. O quão dói. O que custa.
Pedaço a pedaço, tu vais cair e só irei descansar quando te levar ao fundo comigo.
Quero deixar-te miserável, impotente, infeliz e angustiado.
Eu posso não ter muito valor, mas confia em mim, vais arrepender-te.
Deves arrepender-te. E poderás suplicar por perdão. Finalmente ele vai ser sentido, mas já não vais significar nada.
Já não, pelo menos.
Esta sombra persegue-me, ajuda-me a prosseguir. Tornou-se uma parte de mim.
Ela já não me permite sonhar.
Agora já só vejo a realidade. E vejo também o teu olhar de súplica.
O teu ar inocente que desmente o que fazes. O que dizes.
Porque isso é real. Isso aconteceu. Isso é o meu pesadelo que se tornou realidade.
E a minha vingança, também é o sonho que se vai tornar real.
O meu sonho. O teu pesadelo.
É o que eu quero! É o que eu preciso, é o que eu quero!
Por isso, dorme bem, mas tem cuidado.
Eu estarei à espera. E eu vou acontecer. Como tu me aconteceste, um dia.

25 outubro, 2009

Apanha-me...

Sento-me.
Procuro por ti mas ainda não chegaste.
Ainda não me conseguiste alcançar.
O tédio é algo que detesto, e tu fazes me esperar por ti.
Apanha-me, se puderes.
Estás perto, muito perto mais vais ter de te esforçar mais um bocado.
Queres que atrase o passo?
Posso ir mais devagar ou escolher caminhos mais longos, se preferires.
Subo montanhas, desço vales e passo falésias, só para me encontrares.
Apanha-me, se puderes.
Aqui estou eu, pronta a ser apanhada.
Eu não corro, eu não tenho pressa, e no entanto tu nunca mais chegas.
Se eu pudesse, ficava parada num sítio qualquer. Mas não posso.
Temos de passar por esta provação. Só esta, prometo.
Vá lá, apressa-te! Estás perto, tão perto! E tão distante...
Eu sei que me consegues apanhar, portanto porque é que ainda não chegaste aqui?
Odeio esta maldição! Ter de correr sempre contra o tempo!
Estou farta de andar em círculos, às voltas a tentar encontrar-te.
Mas és tu que tens de me encontrar!
És tu que tens de correr, mover mundos e galáxias para me alcançares. És tu!
E eu sei que as peças encaixam. Têm de encaixar.
Porque não podemos continuar sempre nesta espiral sem fim.
Talvez ela vá dar a algum sítio. Um sítio onde nunca ninguém esteve.
Para o descobrirmos, tens de te apressar! Por favor.
Eu estou pronta para ser apanhada. Consegues apanhar-me?

19 outubro, 2009

Diferente

(Este texto é dedicado a todas as pessoas que alguma vez me olharam de lado, que se riram de mim ou teceram comentários. Obrigada por tudo o que fizeram por mim. Tornaram-me na pessoa que sou hoje. Quem realmente riu no fim, fui eu.)

«All my life I felt I was different»

Desde pequena que me destaco nos grupos, nas multidões.
Sou uma gota de cor numa realidade cinzenta.
Sempre pensei de maneira diferente, sempre tive gostos diferentes e sempre tomei atitudes que mais ninguém toma.
Até há alguns anos, achava que isso era um defeito, uma coisa má, um fardo a carregar. O ser diferente. Mas agora sei que é um dos maiores dons que podia ter. Que tenho.
E apesar de já ter passado muitos maus bocados à custa do meu dom, a verdade é que estou muito grata por ele. E estou grata a mim própria por me ter mantido fiel a mim própria, apesar dos obstáculos.
Obstáculos esses que só me fizeram tornar mais forte, mais resistente. Que me fizeram aprender com os erros.
Eu sou o que digo, sou o que faço. Sou o que escolho ser. Sou o que sou verdadeiramente e não o que querem que eu seja.
Sim, era muito mais fácil comprar um par de chinelos, uma anilha e um colar igual ao de todos vocês, mas eu prefiro expressar-me à minha maneira. Não preciso que me digam o que fazer, o que usar.
E por mais difícil que isso possa ser, tem um sabor especial. Porque eu não ando igual a 3/4 da população feminina. Eu caminho na rua, e olho à minha volta. Como é que vocês se distinguem umas das outras? Eu sei que eu sou fácil de identificar.
Sim, eu sou diferente! E tenho orgulho nisso. Olhas-me de lado só porque não ando igual a ti? Como se isso fosse condenável, olhas-me como se estivesse a cometer um crime. Sim, se calhar cometo o único crime que é dar mais nas vistas que tu. Mas isto está tudo errado! Não era preferível andarmos todos à nossa maneira?
Sim, eu não fumo como toda a gente. Posso ser julgada, gozada ou criticada mas levanto a cabeça bem alto e prossigo o meu caminho. E é que me rio de vocês. São todos fantoches, são massas que não prosseguem sem copiar a pessoa da frente.
Eu prefiro pensar pela minha cabeça, obrigada.
Prefiro ter opiniões e pensar sobre assuntos como o HIV, a fome mundial e não em ténis de marca ou mesadas.
Prefiro ter o meu orgulho e inteligência em vez de superficialismo e ignorância, obrigada!
Eu estou muito bem deste lado.
Eu sou a excepção à regra. Eu sou diferente. E sou feliz assim com as pessoas que amo, e com as minhas paixões que fazem parte de mim, mas que não me definem. Como a vocês.
E não preciso de comprar roupa de marca e ter 600 roupas no armário para ter felicidade e pessoas que me amem.
Portanto, por muito tentador e perfeito que o vosso lado possa ser, e parecer às vezes nos dias difíceis, prefiro ficar deste lado onde a minha vista não está turva ou o meu cérebro está adormecido.
Eu sou diferente! Orgulho-me muito disso. Não te esqueças. Podes olhar de lado se quiseres, mas vocês é que são todos iguais, e não eu.
Finalmente, quero agradecer-vos mais uma vez. Levaram-me a tomar as conclusões e decisões que fazem de mim o que sou hoje. Tornei-me uma pessoa melhor graças à vossa mediocridade. E vejo os vossos actos com atenção, porque são de facto hilariantes. Pensam que são todos tão diferentes uns dos outros, quando no fundo, ainda não olharam em redor, para ver que são todos iguais.
Eu posso ser a única que continua nesta batalha contra vocês, mas sempre serei.
Obrigada.

«I am who I am»

18 outubro, 2009

Dez Mil Dias

Sentes a terra a tremer.
O que fazes? Segues o teu impulso?
Corres o mais rápido que consegues?
Mesmo que uma voz te diga para ficares? Para aguentares firme durante o furacão.
Sentes o comboio a vir na tua direcção. Queres sair daí, fugir, mas sabes que não deves.
Vais à mesma? Ou ficas ao lado dela? Fazes o que é correcto?
Mesmo que tenhas de enfrentar medos, fazer sacríficios e aguentar a tua dor? A dor dela.
Só te queres afastar e pensas que só um louco não o faria.
O teu amor por ela nem sequer se poderia medir, no entanto, sentes uma vontade enorme de desaparecer para bem longe.
Estás assustado, é normal.
Tens de enfrentar medos, tens de fazer coisas que não queres. Mas fazes. Por ela farias tudo. Tudo!
Sorris quando queres chorar, dás-lhe força quando estás prestes a desintegrar-te em pedaços.
Mas aguentas. Por ela. Por ti.
E se pudesses desejavas que tudo o que tens, desaparecesse se isso a curasse. Porque todos os dias estás à cabeceira dela, a dar-lhe a mão, a ajudá-la e tu vês o que ela sofre. E dás-lhe força.
E queres que ela lute até ao fim.
Ela diz-te que está cansada, mas tu não a deixas desistir.
Estás desesperado. Pedes a Deus, oras a quem não acreditas. Pedes que ele vele por ela, que a salve.
Precisas de um milagre. Por ela, mas principalmente por ti.
Ela diz-te que já está farta de ter veneno a correr-lhe nas veias. De ter o próprio corpo a atacá-la.
Tu pedes para ela lutar só mais um bocadinho. Que em breve tudo estará bem.
E percebes que isso não é viver. É simplesmente adiar a morte. A tua, mas principalmente a dela.
Acentes. Dizes-lhe que chegou a hora de descansar.
Pedes a Deus que a guie a casa, onde ela pertence. Onde ela merece estar.
Porque embora tenhas assistido e sentido dor, essa dor é só dela e foi só ela que a sentiu. Que a suportou. Ninguém esteve mesmo no seu lugar. Não como ela esteve.
Esperas que ela alcance um lugar superior, um lugar melhor.
O repouso que ela merece. Que lhe pertence.
Dás-lhe a mão e dizes que está tudo bem. Que ela pode seguir em frente. Na direcção da luzRemover formatação da selecção brilhante e acolhedora.
Porque és tu que estás ao lado dela. És tu que tens de a ajudar uma última vez. Antes de poderes pensar em ti.
Guia-a, uma última vez. Vê-a ganhar asas e ascender ao outro mundo.
Ela está bem agora. E consegue ver-te. Diz-te para sofreres por ela, mas não por muito tempo.
Depois tenta seguir a tua vida. E sempre que te sentires perdido, olha para o céu.
Ela guiar-te-á como tu outrora fizeste.

14 outubro, 2009

Páginas em Branco

Amanheci. Voltei com toda a minha força.
A escuridão pode ter perdurado algum tempo,
Mas finalmente foi embora.
O sol voltou a brilhar. E com ele, também eu.
Relembrei o que sem saber tinha perdido.
Tinha esquecido.
Fiz-me à vida com tudo o que tinha, que não era muito.
Agarrei-me às rédeas com toda a resistência que tinha
Em mim.
Retirei as memórias boas e guardei-as num lugar especial.
Fiquei com as más porque são elas que me ensinam, são elas
Que me impedem de cometer os mesmos erros.
Agora, tenho uma folha em branco, pronta a ser preenchida
Com novas recordações, novas imagens.
Sim, agora em mim há espaço para tentar outra vez. Há mais
Do que antes. Nasceu-se mais do que se morreu.
Renasci directamente das cinzas. Recrio-me quando quero,
Nunca me deixando afectar.
Sei que a vida nem sempre é fácil, mas é preciso tentar.
E quando a nossa página actual está demasiado suja e borrada,
O melho é rasgá-la e começar uma nova.
Porque o nosso destino, somos nós que o traçamos. E o nosso
Caminho, somos nós que o fazemos.
A vida não passa de uma série de divisões. E em cada uma,
Conheces novas pessoas e aprendes novas coisas. E vives mais
Experiências e aprendes mais sobre ti próprio.
Eu nunca quero parar de aprender, parar de me conhecer.
Quero continuar a recriar-me, continuar a renascer! Quero preencher
A minha nova página em branco.
Anoiteci. Porque não se pode viver sempre ao sol. Mas até na noite, sou iluminada.
E tento iluminar. Tento mostrar-te o caminho certo. O melhor caminho até tu encontrares as tuas próprias páginas.
Tudo o que posso fazer é mostrar-te o caminho. Esse, és tu que o tens de percorrer.

12 outubro, 2009

Nunca É Tarde

Como pedra quente que se sente mas não queima,
Como corte que corta mas não sangra,
Como ferida que dói mas não magoa.
Estou dormente. E nem dei por isso até me ter
Atingido de frente.
Como é que não reparei? Como é que não vi o que
Estava a acontecer?
Ouço-te falar mas não percebo o que dizes.
Digo-te que estou bem. Que estou bem. Não acreditas.
Eu estou bem! Posso não sentir, mas sinto que estou.
Dizes que não estou bem. De todo! E que às vezes é
Preciso pedir ajuda.
Estás aqui para mim. Sorrio. Estendes-me a mão.
Não estou sozinha. Tu vais-me ajudar!
Tudo pode mudar agora. Posso ser quem quiser, quem
Escolher ser. Não é preciso continuar a vestir esta pele.
Dispo camada a camada até ficar só eu. Vês o meu lado escuro,
O meu lado negro. O bom e o mau. E não recuas. Manténs-te firme,
Ao pé de mim a dizer que vai ficar tudo bem.
Eu sei que me podes ajudar. Sei que me queres ajudar.
Para isso, basta também eu querer.
Eu digo que sim. Que estou pronta a ser ajudada.
Desço do parapeito. Deito fora o veneno, largo a faca.
Ficas tão aliviado! Abraças-me. Dizes-me que vai tudo correr bem.
Acredito em ti.
Não queres agradecimento, apenas pedes que eu diga que não estou bem.
A admissão do facto irá ajudar-me.
Não. Não estou bem. Sei-o.
Felizmente não o soube tarde demais.
Olho para as minhas feridas, cortes e queimaduras.
Percebo que talvez já tenha sentido dor, apenas me habituei a ela.
E isso não é uma fraqueza. Pelo contrário é um dom.
Mas mesmo assim, às vezes, é preciso pedir ajuda.

(Devias ter-me pedido ajuda. Desculpa)

10 outubro, 2009

Pretexto

Ouvem-se vozes. Vozes exaltadas,
Vozes furiosas, vozes violentas.
Vozes que discutem. De quem será a culpa?
Aproximo-me e vejo. Duas pessoas.
Pessoas tão diferentes...
Discutem cegamente. Por alguma razão?
Acho que são várias. As razões.
Ouço o eco das vossas vozes. Já não sabem
O que dizem. Apenas sentem prazer a ouvir a
Própria voz superar a outra. A culpar a outra,
A humilhar a outra.
Ao menos a discutir, só dizem a verdade. Dizem o bom
E o mau. Dizem o que querem e aquilo que não querem.
Não se controlam. Não se querem controlar.
Gritam, blasfemam, deitam tudo cá para fora. O bom, o mau,
O necessário e o que não é.
O ódio, a raiva, o rancor. Tudo se transforma através de palavras.
E para quê? Sentem-se melhor por isso? Acham que alivia o peso
Que sentem? Talvez...
Afasto-me de vocês. Tanta guerra para quê? Parem um momento
Para respirar e ouçam-se a vocês próprios. Não há algo de errado?
Ouço as vozes ao longe. Vozes de angústia, de mágoa, de tristeza.
Já disseram o que não estava previsto, não já?
Disseram o que tinham a dizer.
E então, as vozes param. Será que a discussão finalmente acabou?
Cansaram-se finalmente de lutar um contra o outro? Sem motivos,
Sem razões aparentes? As razões são várias.
Mas o ódio, a raiva, o desgosto, a frustração, são tudo pretextos.
Eu já os usei. Usei-os até perceber a verdadeira razão. De estar
Sempre a gritar. A fazer a minha voz soar mais alto que a tua.
De estar sempre a batalhar contra algo; por algo.
E a razão era que estava desiludida comigo.
E quanto mais gritasse, quanto mais barulho fizesse, mais tarde
Aceitaria isso. E o que antes pensei ser o meu fim, a minha desgraça,
Tornou-se a minha libertação, uma segunda oportunidade de começar
De novo.
E caminho por mim própria, com alguns medos, alguns receios e algumas
Certezas.
Sei onde vou? Não faço ideia.
Sei que quero ir nesta direcção? Sim.
O que vier, virá, e eu, finalmente parei para respirar. De novo.

09 outubro, 2009

O Paciente

Tantas horas esperei sentada nessa sala de espera.
Horas, horas e horas que vi passar por mim.
Olhei para as pessoas à minha volta, tentei decifrá-las
E desgastei ligeiramente o chão, de tanto andar de um lado
Para o outro. Impaciente.
Escuto o silêncio, ouço o eco dos passos noutro piso.
Onde está a vossa vida toda? Não é aqui o local para a encontrar.
Sem dúvida, mas podiam fazer um esforço. Pequeno esforço.
Que mudava tudo.
Todos os bancos são cinzentos, os vossos lugares todos iguais.
O meu destaca-se. Tem todas as cores. Um autêntico arco-íris.
A vossa cara inexpressiva. A minha ostenta um sorriso rasgado.
Eu rio-me às gargalhadas e vocês lançam-me olhares desaprovadores.
Esperei tanto tempo. Tantas horas desprovidas de alegria.
Afinal, esperei tanto tempo para quê? Esperei, esperei, esperei. Para quê?
Para dizer o óbvio? Para saber o que já sabia? Para ouvir o que não queria?
Para nada mudar a minha vida? Para não mudar a minha vida...
Vi o relógio adiantar-se a mim, durante muito tempo.
Para quê? Porque continuo a esperar? Porque é que continuo a abrandar
O passo? Tenho de sair daqui, tenho de correr pelas escadas e sair desta sala,
Deste sítio. Porque se esperar mais, corro o risco de ficar como vocês.
Quero sentir o sol, quero ser diferente de vocês. Ser a excepção à regra.
Quero ter vida dentro de mim.
Não quero ver o relógio a prosseguir à frente dos meus olhos, não quero esperar
Mais horas, horas e horas. Numa sala de espera...
Esperar para quê? Para saber o meu futuro? Guardem-no. Aproveitem-no.
Eu não quero saber. Não quero ver o tempo a passar. Eu, não quero esperar mais.
Esperar, para quê?...

06 outubro, 2009

The Outsider

Estou deitada no chão. Chão duro e frio.
Estou aqui deitada, porque me acalma.
Porque parece que não há mais nada a acontecer.
Deitada, tudo parece melhor. Mais calmo.
Não parece que o mundo vai ruir.
Tenho medo de me levantar porque assim que o
Fizer, o carrossel vai recomeçar. O carrossel não
Pára de girar. Tão rápido! E gira, gira e gira. E nunca pára!
Mesmo quando me tento equilibrar, há qualquer coisa que
Me manda ao chão, por isso fico aqui deitada.
A ver, de fora, o carrossel girar. E alegra-me. Saber que não
Estou naquele rodopio. Naquela azáfama infernal que nunca
Tem fim. É um ciclo. Gira, gira e gira.
Consigo sentir os efeitos de ter estado lá durante tanto tempo.
Sinto este vírus que anda por todo o lado. Propaga-se pelo ar.
Como consegues proteger-te desse mal invisível? É impossível.
E sabes que, mais tarde ou mais cedo vai chegar a tua vez.
Não podes fazer nada para o impedir. Limitas-te a esperar.
Simplesmente. De braços cruzados.
Sinto-o a entranhar-se na minha pele. A violar o meu ser.
A corromper-me com a sua doença.
A única coisa que queria era pelo menos respirar. Respirar a sério.
Sem ter de fingir, só para entreter o sangue.
Respirar de maneira a sentir que estou viva, e não morta.
Esse vírus anda por aí. Por todo o lado. Em cada esquina, em cada rua.
Espalha-se facilmente.
Como o impedes? Não impedes.
Estou aqui deitada, a pensar que talvez não esteja assim tão bem cá fora.
Talvez me deva levantar e tentar equilibrar-me durante um bocado.
Levanto os olhos e vejo o carrossel girar. Tão rápido...

05 outubro, 2009

Círculo Perfeito

Sete. O teu número. O número da perfeição.
Seis. São os passos a dar até às luzes.
Cinco. As tuas verdades, grandes verdades.
Quatro. Disseste-me olá e acenaste.
Três. Desapareceste.
Dois. Espero, suspensa no tempo.
Um. A espera deve acabar.
Debaixo deste céu encoberto,
Esperamos mais um pouco, por algo.
Em roda, neste círculo perfeito.
Onde estás? Quando chegas?
Estamos cá todos, só faltas cá tu.
Esperamos pela tua liderança.
Para nos guiares até às luzes. Passo a passo.
Estamos aqui, dispostos a aguardar pela tua presença.
Onde estás? Quando chegas?
Estamos dispostos a aguardar ao frio, à chuva que cai
Torrencialmente. Tudo para nos guiares até às luzes.
Até a casa. Aonde pertencemos.
Ainda bem que te encontrámos. Podíamos ainda estar na
Sombra triste das nossas almas. Na escuridão dos nossos
Seres, mas em vez disso, vieste salvar-nos. De nós próprios.
Da humanidade. Do teu Deus.
Porque esperas? Quando regressas para junto de nós?
Tu és o messias, o pastor, a nossa luz.
Estamos aqui, neste círculo perfeito, a sentir a chuva a inundar-nos
O corpo e a ânsia a consumir o nosso coração.
Onde estás? Mostra-nos o caminho. Indica-nos a direcção certa.
Levanta a tua luz bem alto, para a vermos.
Quando chegas? Nunca? Teremos de ficar aqui eternamente?
Leva-nos até casa, leva-nos de volta. Fazes isso?
Regressa! Chega aqui.
Sete. O teu número. A tua perfeição inútil.
Seis. Os passos de volta à escuridão.
Cinco. As tuas mentiras. Tuas grandes mentiras.
Quatro. Disse-te adeus e vim-me embora.
Três. Desapareci desse círculo incompleto, fanático, vicioso.
Dois. Sigo caminho, ainda suspensa no tempo.
Um. A minha esperança é enterrada.
Zero. A tua iluminação.

Sete foram os teus pecados. Pecados que nunca serão esquecidos,
Pecados que nunca serão perdoados.
Pecados imortais.

04 outubro, 2009

Renascimento

«This body, holding me, reminding me that I am not alone»

Vejo o meu reflexo na água.
Esta não sou eu. É alguém diferente.
Este é somente o corpo que eu uso, que eu ocupo.
O corpo que me permite expandir-me.
É nesta forma que me encontro, de momento.
Só até conseguir progredir.
Eu escolho estar aqui, neste momento exacto.
Neste corpo. Onde não estou sozinha.
E sei que nunca vou estar, até me conseguir livrar dele.
Ele está a impedir-me, está a arruinar a minha ascensão.
Eu alimentei a minha vontade de sentir o momento.
O meu momento. E agora tenho de continuar.
O processo gradual vai ser difícil, mas tenho de me livrar
Deste corpo. Aonde estou presa. Enjaulada.
Consigo ouvir música, muito ao longe. Perco-me nela.
Estou no útero, outra vez. Num útero qualquer.
Aqui estou confortável. Aqui há escuridão. Aqui há aquela
Música que toca ao longe. Que me chama. Que me incita a
Sentir o momento. O meu momento. O momento de antecipação.
Da grande mudança. A subida. A ascenção.
Mas quando o momento chegar, vou ter de abandonar isto...
Não quero sair daqui! Do corpo onde ocorreu a minha gestação.
Onde me preparei.
Aqui só há escuridão e música.
Não há perigo, nem dificuldade nem tristeza.
Este corpo que outrora foi o meu túmulo, é agora o meu berço.
O local do meu renascimento. O local de partida para o regresso a casa.
O meu momento chegou. Estive tanto tempo ansiosa por ele e agora, só quero que passe.
Inspiro fundo. Vejo uma luz clara ao longe. Adapto-me a ela.
Sei que devo caminhar na sua direcção, mas tenho medo.
O chamamento da música regressa, mais forte que nunca.
A altura chegou. A minha altura.
Vou abandonar o meu lar provisório.
Mas sei que não é o fim.
É apenas um novo começo.
E eu voltarei.

«I choose to live»

03 outubro, 2009

Monólogo dos Céus

«Quando a última árvore tiver caído,
Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe tiver sido pescado,
Então entenderão que o dinheiro não se come.»

Estou aqui sentada nesta nuvem.
Nuvem branca, macia e húmida.
Aqui consigo chegar até onde quiser.
Daqui, consigo ouvir-vos a lamentarem-se.
Aí em baixo.
Queixam-me para quê? São vocês que causam
A vossa destruição.
Revoltam-se porquê? São vocês que estão a cavar
As vossas sepulturas.
São os espectadores do trabalho da mãe Natureza.
Tufões, ciclones, tornados, tsunamis...Todos vos afectam.
Mas ficam quietos a observar. Pensam que resistem a tudo,
Não é? Nem sempre, nem sempre...
E como se não bastasse, não se limitam a assistir.
Ajudam-me, todos os dias.
Emitem gases para a atmosfera, poluem o ar, a água, a terra.
Aonde querem chegar?
Pensam que quando precisarem, eu vou estar aqui para atender
As vossas preces? Estão redondamente enganados.
Quando se arrependerem, será tarde de mais. E eu, não vou
Reparar os danos que vocês causaram.
Lamentam-se por que razão? São vocês que trabalham incansavelmente
Para a vossa extinção.
Água, ar, terra, fogo. Precisam de os ter a todos! Precisam de os controlar,
De alguma maneira. De gastá-los, de os poluir. De fazer tudo a que "têm direito".
Ao fazerem isso, só me estão a enfurecer.
Acham que o Katrina não foi um sinal?
Continuem, então...Mas lembrem-se, que as vossas preces não vão ser atendidas
Para sempre.
Estou sentada nesta nuvem, podia ser noutra qualquer.
Daqui contemplo os gestos da humanidade.
Daqui ouço, já, antecipadamente o vosso elogio.
Porque estão tão surpreendidos? Eu disse que este dia ia chegar.
Eu profetizei-o. Eu avisei-vos.
Deviam ter-me ouvido.
Deviam-me ter escutado. A mim, mãe Natureza.

(Elogio - texto lido no funeral de alguém que se destina a falar sobre a pessoa que faleceu)

02 outubro, 2009

A Outra Face

«Só sei que nada sei»

Dás voltas e voltas à cabeça.
Tentas perceber isto.
As portas fecham-se por si mesmas?
As janelas abrem-se?
A televisão liga e desliga?
Que se passa? Estás com medo?
Olhas em redor. Não está ninguém por perto.
tu...
Trancas a porta, fechas as janelas.
Será mesmo seguro?
Lembra-te do básico, lembra-te da essência
Do teu ser. Eu vejo-te, mas tu não me poder ver.
Estarás mesmo sozinho?
Uma rajada de vento volta a abrir tudo o que fechaste.
Sou teimosa não sou?
As folhas voam, os móveis, os electrodomésticos.
Tudo flutua no ar. Assim é que eu gosto.
O caos. A tua cara com uma expressão de terror.
Olhas em todas as direcções. O que se passa?
Eu sou o teu pior pesadelo.
Rio-me às gargalhadas. Se visses a tua figura!
Sais de casa e desces as escadas. Corres tão rápido!
Parece que foges do demónio. Vai com calma!
Eu vou, de facto, atrás de ti. Mas eu adianto-me, e espero-te
Cá em baixo.
Quando vês o elevador encravado no piso 13 entras em pânico.
Como é possível? Vives no andar mais alto, o 7º.
Uma pessoa dirige-se à porta. Respiras fundo. Tudo vai voltar ao normal.
Olhas e vês que ela traz o seu próprio cérebro na mão. Sorri-te.
Tu abres a boca horrorizado e sais a correr para a rua.
Está a chover sangue. Os semáforos não funcionam. Vê-se fumo por todo o
Lado. Ouvem-se alarmes de carros, alarmes de lojas.
Todas as pessoas sofreram mutações altamente impossíveis.
O surrealismo reina por toda a parte!
Tu recuas assustado até ficares contra uma parede.
Oh! Não é uma parede. É um espelho. Soltas um grito.
Estás reflectido nele. E a tua cara é simplesmente uma massa heterógenea.
Eu sou a face do mal. Do teu mal.
Olhas para baixo e vês sangue nas tuas mãos, na tua roupa.
Que foste fazer?
Rio-me às gargalhadas. Se te visses! Como és fraco! Eu fiz o que querias fazer.
Foste tu! Tu é que quiseste o caos, a destruição, o fim de tudo. Tudo o que não devia existir.
Percebes agora? Talvez não...Estás em choque. Tanta informação...
Faço-te um último favor. Um favor a ti próprio.
Ouve a voz que te diz ao ouvido: está tudo na tua cabeça.

«Atreves-te a abrir a caixa de Pandora?
»