10 outubro, 2009

Pretexto

Ouvem-se vozes. Vozes exaltadas,
Vozes furiosas, vozes violentas.
Vozes que discutem. De quem será a culpa?
Aproximo-me e vejo. Duas pessoas.
Pessoas tão diferentes...
Discutem cegamente. Por alguma razão?
Acho que são várias. As razões.
Ouço o eco das vossas vozes. Já não sabem
O que dizem. Apenas sentem prazer a ouvir a
Própria voz superar a outra. A culpar a outra,
A humilhar a outra.
Ao menos a discutir, só dizem a verdade. Dizem o bom
E o mau. Dizem o que querem e aquilo que não querem.
Não se controlam. Não se querem controlar.
Gritam, blasfemam, deitam tudo cá para fora. O bom, o mau,
O necessário e o que não é.
O ódio, a raiva, o rancor. Tudo se transforma através de palavras.
E para quê? Sentem-se melhor por isso? Acham que alivia o peso
Que sentem? Talvez...
Afasto-me de vocês. Tanta guerra para quê? Parem um momento
Para respirar e ouçam-se a vocês próprios. Não há algo de errado?
Ouço as vozes ao longe. Vozes de angústia, de mágoa, de tristeza.
Já disseram o que não estava previsto, não já?
Disseram o que tinham a dizer.
E então, as vozes param. Será que a discussão finalmente acabou?
Cansaram-se finalmente de lutar um contra o outro? Sem motivos,
Sem razões aparentes? As razões são várias.
Mas o ódio, a raiva, o desgosto, a frustração, são tudo pretextos.
Eu já os usei. Usei-os até perceber a verdadeira razão. De estar
Sempre a gritar. A fazer a minha voz soar mais alto que a tua.
De estar sempre a batalhar contra algo; por algo.
E a razão era que estava desiludida comigo.
E quanto mais gritasse, quanto mais barulho fizesse, mais tarde
Aceitaria isso. E o que antes pensei ser o meu fim, a minha desgraça,
Tornou-se a minha libertação, uma segunda oportunidade de começar
De novo.
E caminho por mim própria, com alguns medos, alguns receios e algumas
Certezas.
Sei onde vou? Não faço ideia.
Sei que quero ir nesta direcção? Sim.
O que vier, virá, e eu, finalmente parei para respirar. De novo.

Sem comentários: