12 outubro, 2009

Nunca É Tarde

Como pedra quente que se sente mas não queima,
Como corte que corta mas não sangra,
Como ferida que dói mas não magoa.
Estou dormente. E nem dei por isso até me ter
Atingido de frente.
Como é que não reparei? Como é que não vi o que
Estava a acontecer?
Ouço-te falar mas não percebo o que dizes.
Digo-te que estou bem. Que estou bem. Não acreditas.
Eu estou bem! Posso não sentir, mas sinto que estou.
Dizes que não estou bem. De todo! E que às vezes é
Preciso pedir ajuda.
Estás aqui para mim. Sorrio. Estendes-me a mão.
Não estou sozinha. Tu vais-me ajudar!
Tudo pode mudar agora. Posso ser quem quiser, quem
Escolher ser. Não é preciso continuar a vestir esta pele.
Dispo camada a camada até ficar só eu. Vês o meu lado escuro,
O meu lado negro. O bom e o mau. E não recuas. Manténs-te firme,
Ao pé de mim a dizer que vai ficar tudo bem.
Eu sei que me podes ajudar. Sei que me queres ajudar.
Para isso, basta também eu querer.
Eu digo que sim. Que estou pronta a ser ajudada.
Desço do parapeito. Deito fora o veneno, largo a faca.
Ficas tão aliviado! Abraças-me. Dizes-me que vai tudo correr bem.
Acredito em ti.
Não queres agradecimento, apenas pedes que eu diga que não estou bem.
A admissão do facto irá ajudar-me.
Não. Não estou bem. Sei-o.
Felizmente não o soube tarde demais.
Olho para as minhas feridas, cortes e queimaduras.
Percebo que talvez já tenha sentido dor, apenas me habituei a ela.
E isso não é uma fraqueza. Pelo contrário é um dom.
Mas mesmo assim, às vezes, é preciso pedir ajuda.

(Devias ter-me pedido ajuda. Desculpa)

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

A introdução está, simplesmente maravilhosa. Eu não teria feito doutra maneira. As tres frases, seguidas do "Estou dormente", é muito bem feito.
Gostei do sentimento do poema, e dou-te razão e em tudo dito. É bom tentar ultrapassar os problemas sozinho...mas não. As pessoas fazem falta e estão cá para ajudar outras.
Gostei muito.