03 outubro, 2009

Monólogo dos Céus

«Quando a última árvore tiver caído,
Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe tiver sido pescado,
Então entenderão que o dinheiro não se come.»

Estou aqui sentada nesta nuvem.
Nuvem branca, macia e húmida.
Aqui consigo chegar até onde quiser.
Daqui, consigo ouvir-vos a lamentarem-se.
Aí em baixo.
Queixam-me para quê? São vocês que causam
A vossa destruição.
Revoltam-se porquê? São vocês que estão a cavar
As vossas sepulturas.
São os espectadores do trabalho da mãe Natureza.
Tufões, ciclones, tornados, tsunamis...Todos vos afectam.
Mas ficam quietos a observar. Pensam que resistem a tudo,
Não é? Nem sempre, nem sempre...
E como se não bastasse, não se limitam a assistir.
Ajudam-me, todos os dias.
Emitem gases para a atmosfera, poluem o ar, a água, a terra.
Aonde querem chegar?
Pensam que quando precisarem, eu vou estar aqui para atender
As vossas preces? Estão redondamente enganados.
Quando se arrependerem, será tarde de mais. E eu, não vou
Reparar os danos que vocês causaram.
Lamentam-se por que razão? São vocês que trabalham incansavelmente
Para a vossa extinção.
Água, ar, terra, fogo. Precisam de os ter a todos! Precisam de os controlar,
De alguma maneira. De gastá-los, de os poluir. De fazer tudo a que "têm direito".
Ao fazerem isso, só me estão a enfurecer.
Acham que o Katrina não foi um sinal?
Continuem, então...Mas lembrem-se, que as vossas preces não vão ser atendidas
Para sempre.
Estou sentada nesta nuvem, podia ser noutra qualquer.
Daqui contemplo os gestos da humanidade.
Daqui ouço, já, antecipadamente o vosso elogio.
Porque estão tão surpreendidos? Eu disse que este dia ia chegar.
Eu profetizei-o. Eu avisei-vos.
Deviam ter-me ouvido.
Deviam-me ter escutado. A mim, mãe Natureza.

(Elogio - texto lido no funeral de alguém que se destina a falar sobre a pessoa que faleceu)

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Mais uma vez quase me revolta a tua maneira cega de me excluires de gostar de um poema, quando mais uma vez te enganas...Não digo para te provar que estavas errada (porque todos erramos) mas sim porque realmante gostei muito dele. Adorei a força, o monólogo do sujeito poético. Acho um poema cheio de entusiasmo, verdades...e porque não: com bastante "informação". Um poema maduro, de uma pessoa madura. Continua assim. Gostei muito.
(Mais um daqueles muitos que devia estar "estantelado" nas ruas ou nos frigorificos para se ler todos os dias. =) )