Trespasso o pórtico e entro.
Acho que seria extremamente hipócrita se me benzesse.
Os meus passos ecoam, algumas pessoas viram-se e olham-me com desaprovação no rosto.
Eu ignoro-as e olho à volta.
Está escuro, mas assim que os meus olhos se habituam, consigo observar com nitidez as estátuas e personagens que me olham das paredes. Cobertas com o seu véu de mentiras.
E ao centro, oh claro!, está Ele, na cruz. O Seu sofrimento e os Seus sacríficios salvaram-nos, não foi?
De quem? Não penso que estejamos a salvo do que quer que seja.
Pelo contrário, nunca estivemos mais perdidos.
Nunca soubemos tanto como agora, sobre tecnologia, ciência, medicina, mas nunca soubemos tão pouco...
Algumas pessoas rezam baixo, muito baixo. Rezam tão fervorosamente que parecem genuínos. Parece que realmente acreditam nessas tretas todas que os rodeiam!
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Só quero gritar-vos a verdade, para ver se vos perturbo, para ver se consigo atingir essa camada tão serena que aparentam ter.
Subo ao púlpito. Olho para todas as caras que me observam atentamente, atónitas.
Pigarreio. Vou dizer aquilo que tenho a certeza que vai chegar para vos atingir.
-Eu sei a verdade! E espero ver a vossa reacção.
Expressões de choque tomam lugar. Indignação. O caos total! O burburinho aumenta.
O que hão de fazer? Continuar a farsa no vosso dia-a-dia? Vestir o mesmo fato de hipócrisia e de mentira?
Eu não vos vou ilibar dos vossos erros, dos vosso crimes.
Vão ter de contar a verdade aos milhares de milhões de peregrinos, católicos, ignorantes ou o nome que lhes quiserem dar.
Eu vou fazer-vos contar a verdade. Já a esconderam durante muito tempo.
Desço do púlpito e saio da igreja. Estranhamente, ninguém tentou impedir-me. Sabem que não podem. Sabem que sem mim não eram nada, nada têm contra mim.
Eu sou o vosso anjo, o que caiu do céu e ao aterrar na terra, viu a realidade, bem lúcida. Bem sóbria. E virei-vos as costas. Tive essa coragem.
Eu sou o vosso Judas. Eu traí-vos. Eu não guardarei mais os vossos segredos obscuros.
Rezo baixo, muito baixo, a pedir perdão pelos meus pecados.
A pedir perdão porque ao tentar tanto, que sei que acredito.
1 comentário:
Bem...vou dizer o que realmente achei. Em primeiro lugar, digamos que colocaste em "prática", de forma muito realista e viva aquilo que às vezes conversamos e escrevemos nos nossos poemas. Parabéns por isso.
Em segundo lugar, gostei da maneira como abordaste o assunto, da maneira como de facto cada vez estamos mais próximos da "verdade", do todo, mas...é ilusão. Ou pelo menos, não lhe sabemos dar uso, por isso vai tudo dar ao mesmo.
Tenho de dizer uma coisa. Ao inicio pensei que fosse um poema de certa forma anti cristão. Não sei se terá sido essa a ideia, mas depois mudei. É um poema de facto apenas anti católico.
Tudo aquilo que pensas, de certa forma, a maioria também eu penso. E posso não te dizer isto constantemente, mas é bom ter alguém que pensa como nós, que nos compreenda, que nos ajude a aprofundar a nossa maneira de pensar.
A parte final do poema, para mim está ainda melhor, a forma como tu, anjo, entras para salvar, acordar todos. Como se todo o teu ódio e raiva de um momento para o outro passassem a um ensinamento verdadeiro para os que são "cegos".
Como se Deus "pensasse" como nós (e outros...). É nisso que acredito pelo menos. E ninguém me voltará a demover.
Continua assim.
E sim...venerei o poema.
Keep going...spiral out.
Obrigado.
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