23 novembro, 2009

Redenção

Eu fi-lo por ti. Tudo, por ti.
Livrei-te do pecado, da culpa, do perigo.
Fiz tudo sem te pedir autorização, fi-lo para o teu bem.
Eu sei o que é melhor para ti!
Tomo as tuas decisões, as tuas acções. Faço tudo para o teu próprio bem.
Minto, engano, destruo os outros.
Eu fi-lo por ti.
As minhas mãos estão cobertas de sangue derramado, de culpa. Mas não de arrependimento.
Fiz o que tinha a fazer.
A chuva lava o sangue, leva o que é mau, arrasta o que não pertence em mim.
Olho para o céu. Isto não é chuva.
São as lágrimas de um anjo caído. Anjo negro. Que fizeste tu? Que tens tu para verteres tal dilúvio?
Talvez tenhas vindo tentar salvar a minha alma.
Foi isso? Vieste, desceste do teu lugar celeste para tentares a minha salvação?
Bates as tuas asas negras e pairas à minha frente. Páras de chorar. Tomo isso como um sim.
Caio de joelhos no chão, abro os braços.
Estou a pedir a minha redenção.
Lava-me, purifica-me, querido anjo. Salva-me, ensina-me o que souberes.
Sim, agora percebo. Ter feito tudo foi um erro.
Agora sim, arrependo-me.
Que fui eu fazer? Que posso fazer me redimir?
Desfazer tudo o que fiz? Guia-me, por favor! Só tu me podes ajudar, anjo negro! Só tu.
Desço ao Inferno, percorro os seus nove círculos.
Enfrento o fogo eterno, demónios e horrores e quando volto, finalmente percebo os meus erros.
Mas os portões estão fechados. Tu trancaste-os. Trancaste-me cá dentro!
Porquê, pequeno anjo? Porque choras outra vez?
Eu fi-lo por ti, tudo por ti...Outra vez. Não consegui aprender, não quis perceber. Fi-lo outra vez.
Não consegui a minha redenção.
Fui eu que ditei o meu destino, a minha sentença, quando estava mesmo empenhada em mudar. Juro que sim! Ou assim pensava...
Fui eu que me entreguei a este lado, a este mal.
E tu, tentaste, em vão salvar-me da minha condição meramente humana e imperfeita.
Não chores mais, lindo anjo. Esta foi a minha escolha.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Dos melhores poemas que tenho lido teus...Pela maneira como foi escrito. Pela situação descrita. Pelo final mais triste de todos os tempos...mas realista. Infelizmente a essência humana é como dizes ser.
Mas gostei muito do poema!
"(..)quando estava mesmo empenhada em mudar. Juro que sim! Ou assim pensava..." nem mais.

=)