Abres caminho por entre os rostos encapuçados.
Fazem parte do cenário, da tua peça tão bem ensaiada.
Os teus discípulos estiveram à tua espera. Durante muito tempo. Muito tempo.
Alguns ainda assim voltaram. Deram-te uma nova oportunidade.
Eu já fiz parte dessa seita. Desse inferno que tu geres e governas.
Deixaste-me sem esperança, sem fé.
Deixaste-me apenas com uma lição.
Não confiar nunca mais nas tuas mentiras, nas tuas falsas promessas.
Levantas os braços e inclinas a cabeça.
Vais dar ínicio à cerimónia.
Levanta a tua luz, que é tão ténue agora! Essa que já foi brilhante, quando a dúvida do teu povo não tomava conta dele.
Eles ainda seguem todos os teus gestos atentamente, é certo. Como bons seguidores que são.
Ajoelham-se e rezam. Rezam por ti. Rezam a ti. Rezam sobre ti.
Pedem que continues a iluminar a pobre escuridão deles.
Eu encontrei o meu caminho, sem ti.
Deixaste-me sem fé, sem esperança.
Deixaste-me quando mais precisava de orientação.
Quando precisava que me dissessem o que fazer, o que pensar.
Obrigada por me teres feito esperar.
Assim pude abrir os olhos e compreender finalmente quem eras. O que eras.
Uma fraude. Uma mentira. Uma farsa que alimenta a insegurança e a ignorância dos mais fracos de espírito.
Levanta a tua luz! Levanta-a para que todos te possam ver como és!
Mostra-lhes o caminho. Tal como outrora pensei que me mostrasses...
Imagina o que é perderes a tua estabilidade, a tua crença, a tua devoção.
Deixaste-me sem nada, à chuva, a esperar por ti.
Fizeste-me esperar por uma mentira bem real. Uma mentira que ainda hoje é tomada por verdade.
E eles podem seguir-te, por enquanto.
Podia mostrar-lhes quem és. Podia até guiá-los, indicar-lhes o caminho.
Mas não é preciso.
Eventualmente, tu vais-te encarregar disso. Vais mostrar-lhes, involuntariamente. Por ti próprio, à tua custa, vais mostrar a verdade. E não vai ser preciso eu fazer nada.
Aí vais perceber. Vais perceber finalmente, ao sofrer com os teus pecados.
Vais sentir na carne o preço dos teus próprios erros.
Vais perceber que não és iluminado. Só finges iluminar.
E vais saber o que é ficar, sem nada.
Sete foram os teus pecados. Pecados que nunca serão esquecidos,
Pecados que nunca serão perdoados.
Pecados imortais.
1 comentário:
Gostei deste poema. Muito do género «Dioguino e Joanino». Uma pequena obra de arte.
Já aprendemos a lição. Tudo o que nos resta é reflectir para os céus e para quem nos lê.
Quem te lê tem a sorte de entrar numa realidade consciente. Estás tão próxima da verdade que até arrepia.
"Abaixo os hipócritas!"
Abaixo os rituais, as cerimónias, a falsidade.
E peço desculpa pelo abuso de relevar tanto mas :
"Podia mostrar-lhes quem és. Podia até guiá-los, indicar-lhes o caminho.
Mas não é preciso. ... (até) Vais sentir na carne o preço dos teus próprios erros."
"Vais perceber que não és iluminado. Só finges iluminar.
E vais saber o que é ficar, sem nada."(Chave de ouro) Adorei esta parte final. Assusta-me a luz que partilhas com os outros.
O último paragrafo, é lindo, como já tinha comentado anteriormente.
Continua Joana. Quero mais desta força, deste ódio produtivo e útil.
Obrigado
Keep going...
(bersew , ^^)
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