08 novembro, 2009

Auto-Retrato

Sinto o sangue a correr-me nas veias.
Sinto-o a tentar esvair-se, por todo o corpo.
Vejo-o passar por todas as imperfeições da minha pele.
Afinal, fazem parte de mim...
Mergulho nos meus pensamentos e memórias.
Ordeno-os sem qualquer ordem, qualquer lógica.
Percorro-os, um a um, lentamente.
Não para os reviver, mas para recordar o meu caminho.
O vivido e o que falta viver.
Há algo de primitivo, algo primário na minha essência.
Algo adormecido.
Algo que faz parte da condição humana.
Algo que poderia tomar conta de nós se não o soubéssemos controlar.
Por vezes esquecemos ou fingimos esquecer.
Mas faz parte de mim...
Já esqueci todo o rancor, a raiva, o desgosto. A revolta.
Dei as boas-vindas à paz, à serenidade. Ao crescimento, à mudança.
Olho para o que me rodeia.
Material ou não-material. Faz tudo parte de uma história ainda inacabada.
Melodia que comecei mas que não sei acabar. Por enquanto.
São tudo peças cruciais do puzzle. Sem uma delas, nada seria a mesma coisa.
Tudo ocorreu de certo modo, por um motivo.
Tudo o que foi vivido, aprendido, dito e pensado, teve uma razão.
E sei que faz parte de mim...
Ouço-a (a voz) aprisionada a chamar-me...
Quer que regresse à minha origem.
Antes de ter sido envenenada, antes do antídoto.
Antes de qualquer coisa.
Chama-me. Incita-me a deixar-me ir. A deixá-la controlar.
Será que me atreverei?

(Auto-retrato inacabado)

2 comentários:

Eduardo Lara Resende disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Diogo Garcia disse...

Outro grande poema. Genial. Daqueles que me faz querer reler, e absorver a vontade com que foi escrito.
Este poema traz-me recordações do Fernando Pessoa, maior elogio que este? Não sei nenhum.
A realçar:
"Ordeno-os sem qualquer ordem, qualquer lógica."
"Não para os reviver, mas para recordar o meu caminho."
"Há algo de primitivo, algo primário na minha essência."
Adorei o retrato feito.

"And you will come to find that we are all one mind
capable of all that's imagined, and all conceivable."