15 julho, 2012

Crónica de uma Velha Infância


Felizes para sempre?! Essa já é de outrora, quando o mais complicado na vida era decidir ao que brincar nesse dia.
Mas é verdade, a tentação de querer viver eternamente e (ainda por cima!) feliz assombra-nos desde que somos crianças; crescemos programadas para acreditar que num belo e soalheiro dia, um rapaz encantador nos trará prontamente um sapato de cristal ou nos fará acordar de um sono intemporal (ao qual julgo corresponder a dormência permanente da vida).
Onde é que foram buscar esta ideia absurda? De que período pré-histórico saiu o conceito de que as raparigas precisam da ajuda de um príncipe corajoso, sempre pronto a salvá-la mal ela esteja em apuros? Penso que devo chamar à atenção de que nestes ditos filmes, o conceito de emancipação feminina não existe de todo...Não pode existir.
Voltando à minha primeira questão, quem é que achou por bem inventar falácias deste género, embrulhadas num belo laço feito de corda para entregar de forma mordazmente implacável a crianças inocentes? Falando como vítima indignada desta mesma situação, digo-vos que ter recebido esta montanha de ilusões, tão nova, só me alimentou ideias que nunca deviam ter visto a luz do dia.
O que eu gostava de saber (entre outras coisas) é como é que ninguém pensa nas consequências bizarras que isto tem? Um dia, todas as jovens que entusiasticamente choraram com a aparição de tão malfadada frase final vão crescer (sim, acontecerá!) e vão fitar o vazio alheio que as rodeia, perguntando-se sobre o que tinham andado a fazer durante toda a sua curta vida, à espera do que não existe; príncipes? Deixem-me rir...
Conselho para todos os futuros cineastas da disney: não é agradável acordar um dia para perceber que tudo era uma mentira risonha, que tudo era enganador, o oposto da realidade. Enche-nos de sarcasmo, torna-nos cínicas perante o cenário que julgávamos conhecer (enterrado com o romantismo, a visão do amor ideal que não é realista); deixa-nos desfeitas, céticas.
Era uma vez uma história mal contada, mas permitam-me que a corrija - uma rapariga de classe média (o feudalismo já desapareceu há muito) que divide o apartamento com algumas amigas (as rendas estão caras, claro está!) e que conhece um rapaz num bar, que lhe paga um cocktail (talvez venha num copo de cristal, mas não prometo!), não querendo de todo viver com ela, quanto mais para sempre!
Será que foram os padrões que mudaram assim tão drasticamente, ou isto nunca aconteceu fora do cérebro utópico de algum infeliz?
Confiem em mim...Hoje em dia nada do que se vive é fantasia, isso já acabou e o que sobrou são os devaneios sonhadores de mulheres tolas que precisam de acreditar no seu final feliz. Deixem-se de contos de fadas e pode ser que um dia, num alternativo Era Uma Outra Vez, vocês sejam a segunda melhor escolha. E quem se importa? O para sempre não existe, muito menos a felicidade eterna; por isso, em vez de esperarem pelo vosso palácio ou o vosso cavaleiro andante, aproveitem a vida que têm agora, com as pessoas que já estão nela, e que talvez estejam a ser desvalorizadas por vós. Assim, pode ser que encontrem a alegria remota que tanto desejavam. Procurem-na, não esperem por ela!

The End

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Eu, pessoa que não tem conhecimento de palavras (bastante normais e acessíveis), li isto e pensei: este texto está tão comercial, "pop", e ao pensar isto foi um elogio enorme (quem me dera conseguir), porque a forma dele está cativante, e nunca li nada tão de seguido, porque não queremos parar, temos de seguir o teu raciocínio e as palavras fluem a um ritmo energético. Depois disseste que era uma crónica...e eu pronto, percebi que mais uma vez exagerei e que nada sei. E está perfeito este texto. É de facto texto de jornal\revista. É contagiante a tua forma de abordar cada frase, de dares os teus pormenores, as tuas ironias, os teus contra-ataques a quem pensa de forma tão..básica (no mau sentido). Por tanto há uma harmonia perfeita no teu texto (na forma, linguagem, energia - ninguém poderá discordar) , no conteúdo já é possível, dado que todos pensam um pouco disto um pouco daquilo...Concordo com a maioria deste texto, não concordo com um ponto ou outro, mas isso é conhecimento já por ti sabido.
Não vou dizer que foi o melhor texto, mas foi o que de facto mais me agarrou às tuas palavras...e confesso que fiquei triste quando cheguei ao fim por ter não mais.
Numa crónica existem frases a sublinhar? Possivelmente não fica muito bem, mas também...não me interessa.
Aliás ia...mas as frases (isto é prosa da boa) são enormes, e isto ficava um testamento demasiado gordo. gostei, adorei, amei, please, keep going (spiral out) e mesmo não sendo o teu sonho de vida escrever acho que com este texto podes pensar, nem que seja por simples desporto, escrever para outros lugares que não o Blog.