26 julho, 2012

Madrugada

Madrugada trabalhosa e quente.
Madrugada que nunca mais acaba.
E para que quero eu o seu fim?
Se é nela que encontro o conforto. A paz.

O tumulto cresceu, porque já se avizinhava.
O desabar desta chuva estava fadado.
Finalmente a imensidão de tudo isto rompeu:
Palavras desencadeiam pensamentos. Lágrimas.

Existe uma tristeza bela, quase poética na verdade.
O fardo custa, é pesado, é injusto. Revolta.
Mas podia ser pior, mais cruel. Menos meu.
Esse sobra, e vai modelando quem sou. Quase sempre.

Há algo de desesperante na solidão, na dormência.
Algo de inevitabilidade no vazio que ecoa cá dentro.
Nas palavras que ardem como se o sol me ferisse o
Coração. Que nunca vão, porque são a realidade.

Quando me sinto neste impasse, neste transe de
Pura mágoa, de pura aceitação do que é, tento
Abrir um pouco de caminho para a liberdade.
Encontro-a no silêncio, na calma do exterior.

Algo que isola, pode também libertar. Entra o vento.
Entra ele, mas saio eu, de cabeça baixa, alma pesada.
Entra o ar, a capacidade de respirar fundo. De me acalmar.
Entra tudo isso, e o desespero parte em busca de outrém.

A noite escura oculta o que nunca se poderá dizer.
O que eu nunca farei, o que eu sinto cá no fundo.
Coração abranda; a chuva torrencial cessa por hoje.
A madrugada chega ao fim, e eu abraço a ideia de partir.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

O poema está divinal. Adorei mesmo, acho que está no ponto. Crava-se no peito, separa pele, carne e osso, e fica cá dentro a gritar.
Ao lê-lo parecia que estava a subir uma pirâmide, até chegar ao seu vértice.
Não posso passar ao lado sem destacar duas quadras perfeitas (mesmo perfeitas) que estão presentes...
(este e o quinto)(mas este então está do outro mundo)
"Há algo de desesperante na solidão, na dormência.
Algo de inevitabilidade no vazio que ecoa cá dentro.
Nas palavras que ardem como se o sol me ferisse o
Coração. Que nunca vão, porque são a realidade."


There is always a spiral, somewhere. Keep going.