26 agosto, 2012

Que deus?

O escuro oculta tudo o que não queremos ver; deixa por imaginar todos os cantos, portas, caminhos e corredores que permitem a passagem no mundo das sombras.
Mas, e se vislumbrar algo que prefiro esquecer? E se encontrar neste labirinto negro algo que escolheria ignorar?
Cheguei ao submundo, ao centro da nossa terra...Estaco porque o medo e a ânsia me paralisam, deixando-me indecisa entre que túnel escolher - qualquer que seja a hipótese, já consigo ouvir (os passos lentos e arrastados, a respiração dolorosa e sem fôlego, o cheiro de algo que não está vivo). Sei que a qualquer momento vou ter de me deparar com o que achei só existir nos meus piores e mais obscuros sonhos.
No subsolo quente e infernal que suga toda a vontade e energia em mim, sinto o inexplicável a escorrer viscosamente pelas paredes à minha volta, ouço os gritos sufocados dos demónios que desejavam ter escapado a este sítio - não houve saída para eles.
Mais adiante vejo-os com o fogo das labaredas nos seus olhos; fitam-me com uma calma imortal, que advém apenas da inevitabilidade, como se que quisessem engolir, consumir de forma total e animalesca, sem pensar na dor, na destruição, na morte... Só pelo simples prazer de o fazer.
A multidão que me rodeia aumentou sem eu dar por isso, tenho de ser mais rápida, tenho de continuar em frente, desviando-me das suas bocas vorazes e das suas unhas cortantes. Nem páro para olhar para trás, o rio de sangue começou a correr e os tambores que soam conduzem a velocidade da ação, dos corpos sedentos por mais - ritmo frenético, diabólico.
A devastação vai-se alastrando à medida que me embrenho neste pesadelo subterrâneo, o monte de cadáveres vai sendo cada vez maior, a destruição é incontrolável, impensável. A pestilência aqui está instalada e nunca vai cessar de existir (o mal, o impuro, o venenoso, o horrendo nunca poderão desaparecer porque estão dentro de nós: o que aqui testemunhei foi obra da criação do homem, mesmo que com um sussurro pecaminoso do diabo).
Não consigo respirar com tantas almas condenadas a tentar inalar-me, abandonadas pelo seu deus - e que deus amaldiçoaria assim os seus próprios filhos? Que deus conseguiria manter-se impávido perante tanto caos, tanta epidemia que todos os dias se espalha a mais mortais?...Sem hesitar, sem duvidar se estaria a fazer a coisa certa...Que deus?
O fumo torna tudo cinzento e a cinza enche-me os pulmões de negro, faz-me fechar os olhos para não ver o que nunca quis.
Desperada, por fim encontro a saída, a porta que me leva à liberdade, que me leva à luz. Território familiar onde estou rodeada do mesmo pó e ar de sempre, mas que não me permite esquecer o que acontece debaixo dos nossos pés.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Overwhelming. Fazia falta um texto destes, onde o terror é puro e a verdade não é suavizada. Uma enorme viagem à realidade. 6 estrelas. Sem arestas para limar.




" já consigo ouvir (os passos lentos e arrastados, a respiração dolorosa e sem fôlego, o cheiro de algo que não está vivo)"
"..sinto o inexplicável a escorrer viscosamente pelas paredes à minha volta, ouço os gritos sufocados dos demónios que desejavam ter escapado a este sítio - não houve saída para eles."