01 dezembro, 2012

Âncora

Não sei onde me leva. Está tudo desfocado.
Subo os primeiros degraus, hesitante. Sei que não é prudente.
Mas algo me impele, faz-me querer avançar.
O risco é grande, a queda também. Mas eu vou.
Não é a emoção, não é a sensação que faz o sangue correr
Que me incentiva a ir mais longe. É outra coisa...
Algo onde estou embrenhada, de onde não consigo,
Nem quero sair. Sei que pode ser perigoso, mas
Não me importa. Não me pode importar.
O caminho à minha frente está escuro, mas avanço
Às cegas. Isso não me impede de mover. Sigo sempre em frente.
Nada me afeta, já não sinto os degraus debaixo dos meus pés;
A única coisa que me guia é a brisa que sinto, que vem de cima.
A escadaria prolonga-se e continua mais, não até ao céu.
Os passos incertos, o som que ecoa devagar, à distância.
Estou perto, consigo ouvi-lo, vê-lo com o toque. Fecho os olhos,
Porque um feixe de luz suave me acolhe. Cheguei por fim.
Se olhar para trás, não me lembro de onde comecei, como
Ou porquê. Talvez nem saiba quando...Mas sei que algo de mim
Ficou para trás, antes de ter iniciado a subida. O medo, o nervosismo,
A capacidade de temer o inesperado, o incontrolável. O que não
Está nem nunca esteve ao meu alcance de decidir.
Ignorei as vozes que me chamavam, que me diziam para ver
Por onde ia. As que me diziam para não vir por aqui. As que
Temiam que me perdesse para sempre, em algo etéreo.
Temiam que caísse no esquecimento, que adormecesse para a vida.
Desta vez não fiquei parada, à espera que a felicidade desaparecesse.
Não, agora já não tenho receio deste algo indefinível, esmagador, opressivo.
A âncora irreprimível já não me afoga, já não me empurra. Apenas me traz à superfície.
Finalmente cheguei.

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