19 novembro, 2010

Pedaços de Vida

Acho que me atravessaram uma lança pelo coração.
O tempo acabou de parar e olho à minha volta, completamente sem rumo. O caos acumulou-se em segundos e a minha vida subitamente parou também.
A tragédia, a dor, a própria desgraça abateu-se à frente dos meus olhos, num dia que poderia ter sido igual a qualquer outro.
Mas não foi. Marcou-me como um ferro em brasa que nunca mais será apagado da minha pele, da minha protecção.
Doeu cá dentro, apesar de ser um fenómeno alheio. E a sede de sangue que à minha volta se espalha rapidamente pelas veias da população, atinge-me em cheio como uma onda sem remorso.
A atitude de curiosidade pelo incrível, pela tragédia, pela tristeza desconhecida que os move sem olharem a meios, faz-me cuspir sangue que já não suporto possuir, por ser parte deles.
Como é possível o meu mundo ter parado, mas tudo continuar na mesma? Porque não estão todos em choque, marcados pela injustiça e insegurança? Como conseguem seguir com as vossas vidas, a apenas metros de distância de onde tudo mudou?
É a lei da vida, é o instinto de sobrevivência que ecoa pelas ruas do mundo, que grita dentro de nós, bem alto. Porque se uns morrem, outros nascem e se alguns estão feridos, os outros têm de continuar a viver para que haja equilíbrio. Para que o mundo não pareça tão grande e assustador.
Olho e vejo que as minhas cicatrizes e queimaduras ainda não sararam, vejo que me afectou de uma maneira que nem eu percebo.
Eu vi o embate entre a vida e a morte, eu vi, com estes olhos que agora contemplam um mundo em vias de extinção, a presença daquela que nos acompanha todos os dias, mostrando-nos que nunca se esquece de vir buscar a nossa alma. Eu vi e senti o horror, eu vi e senti o pânico.
E se em água pura consegui expressar o bloqueio mental, em palavras não consigo explicar a brutalidade e no entanto, realidade com que lidamos diariamente, ao estarmos constantemente em contacto com a raça humana.
Eu ainda não estou totalmente em mim. Algo mudou, cá bem no fundo. Fiquei marcada com as presas da destruição que presenciei. E se isto serviu para que um novo mundo existisse, eu não sei. Talvez ele já existisse e eu nunca tinha reparado nele. Ou talvez o tenha mesmo criado para poder continuar a acreditar em coisas que costumava conseguir acreditar. Em coisas que agora me parecem apenas um mero e distante sonho, coisas que agora me parecem hipócritas e ilógicas, sob a pena de parecer mais céptica do que alguma vez fui.
Porque costumava acreditar em muita coisa, que agora se viu reduzida a quase nada.
Algo me mudou, fui marcada por dentro.
E esta queimadura arde-me, chama-me para me relembrar do que percebi, do que me atingiu de frente. E nem esta chuva gelada pode apagar a chama que se cria no ardor do queimado. E nem toda a água do mundo podia apagar as imagens que me atormentam quando fecho os olhos e vejo que a realidade da vida pode mudar em breves segundos.
Estou neste poço sem fim, onde me cruzo comigo, e com todas as minhas personalidades, numa reunião que apenas me confunde mais, impossibilitando a minha distinção do real e da imaginação, do antigo e do presente, criando dias longos que se seguem de noites ainda mais longas, num espelho de sonhos compridos e duradouros. Tudo misturado, leva à espiral de poeira que é a minha vida, agora.
Quero dar com o fim dela, mas não encontro o sinal de saída e até lá, fico aqui parada, neste cruzamento, enquanto o tempo está parado, rodeada de caos que não posso controlar.
Fico aqui, com o tempo parado, sem ter certezas de nada, a não ser das dúvidas que tenho, à espera de iluminação que luto para encontrar.
Fui perfurada pela lança do desespero. E agora, tudo o que quero, é conseguir arrancá-la do meu coração danificado, e estancar o sangue que jorra, levando consigo pedaços de mim.

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