05 novembro, 2010

Saudade (continuação de Konstantine)

Vim até muito longe.
Voei para encontrar distância de todas as paisagens onde via o teu rosto.
Não para te esquecer, claro que não. Apenas para criar espaço entre a pessoa que eu era e a pessoa que sou agora, sem ti.
É verdade, fi-lo para me lembrar ainda mais de ti e de quem era, quando me amaste.
Dessa pessoa, nem sinal. Não a encontro por aqui, e assim, tento mais arduamente recriar o melhor momento das nossas vidas.
Neste nascer do sol não vejo mais nada senão o teu sorriso radioso, quando o presenciávamos.
Ao ver este cais calado e deserto só me posso lembrar apenas da maneira adorável como punhas a tua cabeça no meu ombro, fechando os olhos, respirando fundo.
Fumo este cigarro como se fosse o último e penso no caminho que me trouxe até aqui. No tempo que demorei a encontrar um novo lar onde pudesse reconstruir-nos. Onde pudesse fingir que tu na realidade estás aqui ao meu lado, a ocupar o espaço vazio no banco, a ocupar o buraco negro no meu coração.
Ai Konstantine, Konstantine. Que te passou por essa majestosa cabeça para me deixares ao sabor do vento?
Para me forçares a atravessar países e oceanos, cidades e sítios inexistentes?
Acho que perdi um pedaço de tudo, quando me encontrei. Perdi um pedaço da tua ingenuidade, que muito gentilmente me transmitiste, um pedaço de optimismo.
Da tua capacidade para ver o mundo em tons irreais. Da possibilidade de rir, amar e ser amado.
Perdi-me pelo caminho Konstantine, e não sei voltar ao trajecto que tracei.
Se acreditasse em tal coisa, pedia aos céus que te trouxesse até mim, agora mesmo.
Pedia para sentir o teu perfume doce, a tua pele quente contra a mim e os teus lábios de amora.
Sei que não vale a pena torturar-me com desejos tolos e fantasias. Com algo que só me trás mais dor. Mais desilusão, e não quero ter o coração cheio de mágoa, Konstantine. Não quero tornar-me em algo do qual não gosto, com que não me identifico. Não quero tornar-me na pior versão de mim.
Não quero mesmo, por isso, faz o que for preciso, mas salva-me. Salva-me de mim próprio.
Deito o cigarro ao mar, e de mãos nos bolsos para tentar esquecer este frio cortante, olho uma última vez para trás, e sigo caminho, escolhendo o meu destino.
Bom-dia Konstantine

To be continued...

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