30 novembro, 2010

Nevoeiro

Perdida, sem rumo, talvez me encontrasse à deriva neste mar que criei.
Mas já não. Subitamente encontrei-me num emaranhado de memórias e palavras e sons e imagens que me elevaram o espírito e a alma a outro estado completamente diferente.
E foi preciso perder-me totalmente para me encontrar de novo no meio do fumo quente que me tocou a pele como as asas de um anjo protector.
Foi preciso afogar-me em nevoeiro, simples vapor de água para ser elevada a outro mundo e voltar a aterrar os pés na terra, lentamente.
Encontrei-me o meu centro, onde tudo era quente e calmo, e onde havia paz e o mundo podia parar só por chover ou só por fazer sol. Por coisas que, apesar de nos indicarem algo, ninguém pára para ver acontecer no seu estado mais puro, mais natural, levando-nos de encontro à nossa essência e ao que ficou perdido pelo meio de séculos de existência.
Uma música antiga e distante ecoou nos meus ouvidos, como que a chamar-me de uma realidade a anos luz de mim, trazendo-me de volta ao mundo actual, dizendo-me que apesar de ter tido um pedaço de iluminação comigo, apesar de ter experimentado um pedaço de céu absolutamente incrível, esse tipo de sensações não são garantidas a todos os mortais, e quando são, é por pouco tempo.
Nem todos os seres que habitam o meu planeta conseguem alcançar estes pequenos pedaços de divino porque não estão dispostos a largar tudo, a perder tudo, mas ao mesmo tempo, a ganhar muito mais. Não têm vontade de arriscar e de sentir tristeza em quantidades inimagináveis ou a felicidade que jorra por cada um dos nossos poros.
Não, não têm essa necessidade de viver, e por isso, nunca saberão o que num simples lavar da alma poderiam conseguir, adquirir.
Ali estive, onde senti chuva, vento e sol, trovoadas e o luar a incidir em mim. Estive noutros locais, visitei culturas e pessoas que nunca tive a sorte de conhecer, mas que decerto terei.
Estive perdida nos confins do mundo, do mundo que sou eu e apesar de ter voltado, não esqueço o que lá vivi, e sobretudo, o que aprendi sentindo-me mais imortal do que a maioria.
Abri os olhos e tudo o que vi foi o nevoeiro que me rodeava, trazendo-me de volta a casa.

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