01 dezembro, 2010

Espelho de duas faces


Ao fundo, um céu cinza que me ilumina, vai-se esfumando, misturando-se com um futuro menos cinzento. Espero eu.
O tempo, chuvoso, tal como o meu estado de espírito.
Sinto calor, sinto frio, sinto tristeza e melancolia. Talvez até uma ponta de alegria, mas ao mesmo tempo, não sinto nada.
Sinto o vento, mas não sinto a tempestade que geralmente causa dentro de mim; sinto a água de chuva a ser absorvida pela minha alma, mas não sinto a exaltação do meu ser, ao tornar-me parte dela.
Olho-me ao espelho, e por vezes, não sou eu que vejo no reflexo.
É apenas uma imagem de mim, parada, demasiado bloqueada a pensar no que se passa, a tentar perceber o que aconteceu pelo caminho.
Não tenho mágoa dentro de mim. A revolta é pouca. A raiva, não tanto, mas nem sempre.
O que é que eu quero mais? Aquilo que não posso ter?
Aquilo que sei que por muito que lute e que corra, por muita dor e lágrimas, nunca vai ser meu.
A única coisa que quero, é aquela que não posso ter. É o que eu penso querer, é o que eu ouso cobiçar.
Não tenho remédio, estou para além da esperança.
Estou à deriva dentro de mim, mas pela primeira vez, não me quero encontrar.
Porque enquanto perdida, posso ser quem quiser, fazer o que me faz feliz, sem pensar nas consequências.
Enquanto esquecer o meu verdadeiro eu, posso finalmente viver os sonhos que sonhei, as realidades que durante muito tempo criei.
Para isso, tenho de evitar espelhos de vidro, ou os outros, que vivem nos olhos de quem me vê por quem sou.

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