07 setembro, 2010

Se me pudesses ver agora...

Aqui estou eu. Mais uma vez.
À minha frente, até perder de vista, está esta familiar estrada.
A estrada que não tem nome porque todos a esquecem.
O caminho que ninguém quer lembrar ter percorrido.
As mesmas árvores que parecem esperar longamente por alguém que não chega,
As mesmas pedras da calçada que choram de tanta gente as ter pisado, sem qualquer lembrança.
E após um caminho sinuoso e torturante para quem quer alcançar algo, chegamos a casa.
A casa, velha e cansada. A casa que por fora não saúda ninguém, a casa que, já farta de sofrer, desistiu há muito de tentar.
E claro, antes de entrar no jardim temos o portão enferrujado, que um dia foi vermelho vivo e que agora se encontra despido de qualquer cor ou vida.
Esse portão range ao abrir, e o vento muitas vezes adorava enganar-me, fazendo-o ranger sem ninguém entrar.
Ao passar a ombreira da porta sinto um silêncio mortal a invadir-me. É-me familiar.
Consigo ouvir todas as palavras ditas e todas as palavras que ficaram por dizer.
Consigo ouvir os momentos que aconteceram e sobretudo os que ficaram por acontecer.
Que raio de vida foi esta? As memórias estão fragmentadas, soltas e perdidas no tempo.
Será que o que recordo foi real ou será que sonho após sonho eu inventei a vida que queria ter tido?
Será que os montes e serras verdejantes estão só na minha cabeça? Será que as canas de açúcar, altas e orgulhosas não passaram de um delírio?
Será que todas as noites de estrelas cadentes e cometas, vistas do telhado foram criadas por mim?
A tempestade nasce dentro de mim. As ondas das memórias colidem com as ondas de solidão, de mágoa, de felicidade e de raiva. Crescem e colidem, criando esta maré que me atormenta.
Subo as escadas lentamente, lembrando-me do sentimento que outrora sentia ao subi-las todos os dias.
Lembro-me que a cada degrau a minha esperança aumentava. Talvez quando chegasse à porta, alguém viesse por mim. Talvez alguém se lembrasse e me viesse salvar deste túmulo.
Claro que isso nunca aconteceu, nunca ninguém veio. Nem por mim, nem por motivo nenhum.
Ninguém me salvou. E tive de ser eu a salvar-me. Tive de impedir-me de me afogar. Tive de ser eu a abrir a porta e ir-me embora, sem olhar para trás.
Mas essa estrada que ninguém recorda é tão traiçoeira que mesmo quando estamos a ir embora, parece não ter fim.
Curva atrás de curva, atrás de curva ela parece nunca acabar.
Agora, sentada neste banco no que foi há muito muito tempo o meu refúgio, sinto-me esvaziada. Sinto que só através das recordações, a casa e a estrada conseguiram sugar toda a vida de mim.
Corro pela escada abaixo e abro a porta. O vento arrepia-me, por ser tão frio, mas respiro aliviada por não sentir mais aquele ar abafado e venenoso.
Olho uma vez mais para a entrada sombria da casa, e sem pensar duas vezes fecho a porta com um estrondo, para sempre.
À minha frente, pela última vez, a estrada que nunca ninguém recorda. Para quê? Para quê recordar uma estrada que não leva a lado nenhum? Que não leva a nada.

De coração mais leve que nunca, os meus pés parecem flutuar e a estrada que nunca ninguém lembra chega ao fim, sem eu dar por isso.
Foi a última vez que entrei naquela casa abandonada, foi a última vez que toquei naquele portão enganador e foi a última vez que percorri esta estrada esquecida.
Desta vez é que foi. Confrontei os meus demónios escondidos numa gaveta poeirenta, e não pretendo voltar a tirá-los de lá.
Se me pudesses ver agora, aqui a enfrentar os meus medos, a reviver o que sempre tentei esquecer, não acreditarias.
Eu, a voltar aqui, a este sítio, a esta prisão que só me desgastou anos a fio. Seria impossível convencer-te que estava aqui de livre vontade.
Se soubesses tudo o que quis voltar atrás e fazer de novo, tudo o quis dizer, mas que não pude, todas as coisas de que me arrependi, não pensarias o mesmo. Tive de voltar aqui, não por escolha, mas porque teve de ser, para poder continuar.
E se me pudesses ver agora...

Sem comentários: