Ouvi os sinos tocar bem alto.
Gritavam o que mais ninguém conseguia ouvir, para além de mim.
Simbolizavam o tempo de mudança repentino que me invadiu,
Simbolizavam a minha metamorfose desejada.
Ao lado, o rio corria e eu deixei-me ir com ele.
O vento revolveu-me o cabelo e por breves momentos deixei de existir.
Parada, a minha existência entre o correr do rio e o próprio vento.
Até o ar que respiro consiste em moléculas da mudança em si, o que posso eu fazer?
É algo que se embrenhou no meu ser, talvez conscientemente. Ou talvez não.
Quem diria... Eu, a pessoa comum que odiava mudança.
Já não odeio? Acho que não. Não na maioria.
Mudei-me. Consegui tornar-me diferente sem me anular e agora estou por toda a parte onde o vento sopra, onde um rio corre, onde os sinos tocam.
Em torres bem altas, por cima de igrejas, em jardins, em praias, em cidades.
Em ruínas do que já foi outrora colossal.
E até em ruínas do que costumavam ser pessoas.
Fecho os meus olhos e vejo o que não está lá. Eu continuo a ver.
Vejo pedaços de vidas que não me pertencem, vejo memórias que não são minhas.
Vejo a realidade e a fantasia, vejo o terror e o extâse.
Vejo sorrisos, vejo felicidade, vejo magia, vejo momentos.
Composta por intervalos, vírgulas e capítulos, vidas passadas e futuras.
Vidas alheias e a minha vida.
Penso e sei, experimento e arrisco.
Arrisco e dou o salto para o outro lado. Será que vale a pena?
Percorro galáxias, a voar pelo espaço, perto de estrelas e da lua e do sol, mais perto do que ninguém.
Renovo-me quando me desfaço em cinzas, mas renasço sempre. Dia após dia, dor após dor, queimadura após queimadura.
E ouço os sinos a tocar, bem alto, causando em mim uma mistura de melancolia com esperança que me enche de energia.
Vejo o rio correr, lenta e suavemente, causando um som que me embala até me tornar parte dele.
Vejo o rio correr, e eu, corro com ele.
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