21 março, 2011

A Origem

«I have come curiously close to the end, now...»

Rio-me para não chorar. Rio-me para evitar outra reação qualquer.
Afinal, que querem mais? Constantemente, sempre a pedir mais, e mais, numa luta sem fim.
Se soubessem a raiva que senti nesse momento...Se soubessem o tornado que começou no meu interior, só por ouvir essas meras palavras...
Não tento sequer respirar, não tento falar para que a revolta não ecoe cá para fora. Para quê mostrar a frustração que se debate dentro de mim? Para quê negar o monstro de ira contida que há dentro de todos nós?
São poucos os que compreendem a verdadeira natureza humana, aquela que se prende com as nossas mais remotas raízes. Aquela que se prende com as entranhas perigosamente primais.
A nossa origem é violenta, é extremamente animal, embora muitos tentem fingir que não.
Temos o mal dentro de nós, mais frequentemente do que o bem que durante séculos nos foi ensinado. Marcado a ferros na carne que agora já não sente nada.
Esse mal, o mal impenetrável, esse habita sempre, cá dentro. Num beco escuro, sem nenhum vestígio da luz do dia. E é nesse mal que eu agora encontro paz, encontro serenidade.
É normal estar zangada, é normal sentir raiva. É normal ser diferente. No entanto, sou igual, sou um pouco do mesmo.
E é esta capacidade de cometer actos verdadeiramente atrozes que ainda me supreende. Que me deixa calma, sabendo que se não encontrarmos alguma maneira de expelir este demónio interior, ele irá sair de maneiras bem mais imperdoáveis. Bem mais fatais.
Algumas pessoas passam a vida toda a tentar negar a sua génese, passam toda a sua curta mortalidade a tentar afastar-se o máximo possível do que realmente são. A esconder-se, a fingir que são algo que no fundo, sabem odiar. Que no fundo, lá bem no fundo, gostam de odiar. E odeiam. E acabam por, consequentemente, se odiar a si próprios.
Porque é que não admitem? Porque é que tentam sempre negar a vossa essência, aquilo que vos permite ser irracionalmente humanos?Por que é que tentam esconder-se atrás das falsas aparências, dessas habéis ilusões que não servem para nada, a não ser o vosso próprio engano. Porque é que não aceitam simplesmente o facto de gostarem de ter o sangue nas vossas mãos; o facto de sorrirem sempre que se deparam com a perversidade do dia a dia. O facto da miséria vos deixar um pouco menos sós...
É natural. O ser humano é o ser mais egoísta, egocêntrico e insano que conheço. É o único que se deleita com as lágrimas salgadas que tendem a escorrer.
E mesmo assim, os que conheço que já abraçaram a verdade, são poucos.
Menos ainda são os que aceitam o mero facto de que, por mais que tentem, nunca conseguirão escapar a esta vontade de serem. Nunca conseguirão negar a sua origem.

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