É espantosa esta habilidade de não esquecer, de não conseguir impedir que os pensamentos surjam. Capacidade de não me perdoar por cada hesitação, por cada momento em branco. Por cada não-gesto.
Há sempre barulho à minha volta porque mais uma vez o vazio traz o insuportável - o silêncio não me deixa continuar em paz. Instintivamente, tento evitar esse remoinho onde vivo numa calma sombria, tão incomum. Onde estou parada e em constante movimento, entre o mundo imaginário e o ultrapassado...
É estranho como carrego sempre esta espécie de luz (bênção maldita) comigo, para todo o lado, em todos os momentos; ao dormir, ao acordar, ao respirar, durmo acordada nesta outra dimensão paralela de onde não quero ou posso sair (transe). Talvez parte dela me mantenha sã, talvez me faça desvanecer cada vez mais. Mas penso que me mantém à tona.
Bizarra é esta sensação enormemente avassaladora de saudade, de que algo falta, de que se fechar os olhos por um segundo, me vou deixar ir (basta isso). De que me os meus sentidos me falam, de que a minha mente sussurra. De que o meu coração grita.
Tudo o que é quotidiano, o bom, o mau, o importante, o que é inútil...sentimos sempre uma esmagadora e triste necessidade de partilhar. De querer dizer-lhes que algo mudou, que ainda aqui estamos, no mesmo sítio, ainda à espera.
Então fazemo-lo mentalmente, secretamente. Para nós. Contamos-lhes o que aconteceu, o que queríamos que tivesse acontecido; o que sonhámos, o que ousámos desejar. O que fizemos, o que conseguimos alcançar. E habituamo-nos a essa mágoa serena e incontrolada. Convencemo-nos de que esta é a nossa vida. Já não vivemos sem ela.
Talvez um dia lhes digamos...Talvez nunca o faremos...Quem sabe.
Sem comentários:
Enviar um comentário