Dizem-me que é bom. Dizem-me que
É um dom. Esta capacidade irreal de
Continuar a acreditar, mesmo depois
De já não o querer. Mesmo após o fim.
Costumava acreditar que sim. Que isto
É algo da minha essência; que isto permitia
Ver o lado bom das pessoas. Que isto me
Ajudava a sobreviver à desilusão.
Porque mesmo após me deixarem aqui
Trancada, uma e outra vez, eu continuo
A ir à janela esperar por quem me prendeu.
Acredito sempre que virão. Mas nunca vêm.
Sinto que encolho de cada vez que o meu
Coração se ilumina com a luz da esperança,
Sempre que ouço barulho do lado de fora desta
Vossa prisão. Eu ainda espero. Eu ainda rezo.
Agora, debaixo desta neve de cinza, já sei que
Só me resta aprender com a dor que tive até
Aqui. Já sei que após atear fogo a estas paredes
Que me mantiveram refém, vou ter de esquecer.
Vou ter de perceber, de uma vez por todas que
Eles não vão voltar. Nunca mais. Vou ter de parar
De ser eu a ir em busca deles. Vou ter de conseguir,
De uma vez por todas calar este dom;
Esta habilidade de voltar aqui, uma e outra vez,
Só para perceber que estou sozinha. Só para entender
Que já chega. Que já nem eu quero, voluntariamente,
Continuar a acreditar no melhor. Essa esperança foi
enterrada.
1 comentário:
Lindo. Lindo, lindo, lindo. E pleno de sentido, para quem, como eu, consegue ler-se nas tuas palavras... Um beijo *
Enviar um comentário