A fé é uma coisa estranha...
Agarro-me à dor. Foi o que sobrou.
O otimismo evaporou-se no fogo do meu olhar; posso tentar sentir algo que não isso, mas não consigo.
O ódio vem à superfície imediatamente, a raiva corre num rio contaminado, sem fim.
Penso que tenho de afastar a dor (talvez física), mas até essa me salva ocasionalmente. Foi o que me restou, moldou tudo consoante a sua passagem.
Os pulsos abertos deixam o sangue liberto, o sangue demasiado pesado, demasiadamente meu.
Olho outra vez e os cortes não estão lá. Sararam como milagre.
A queimadura interna permanece - agonia, horror, o caos - tudo me habita. Só isso ficou.
Arrependi-me dos meus pecados? Confessei a minha alma, purifiquei-me a tempo? Achei que sim. Mas a necrose ficou. A podridão engoliu a esperança embrulhando-me numa escuridão cancerosa; metamorfose tardia, enganosa, dolorosa. Os lábios sangram da força dos dentes, sem parar, até já não sangrarem.
Os cortes renascem onde já existiam, a mutilação é auto-preservativa. É um mecanismo tentador, familiar.
Ciclo vicioso que se aproxima, o abismo chama o meu nome como nunca o fez...Jamais tinha sentido esta capacidade de não conter a luta interior que me abala a todas as horas; o sentir que se encaixa pacificamente nos limites mínimos de sensibilidade; nada supera o pouco que sinto, com uma intensidade débil.
Em queda livre até à derradeira dor, até à não morte crucial, não conseguirei encontrar a génese do torpor. A pele arrancada, despida, as órbitas rasgadas, num banho de sangue que me devia ver (re)nascer.
Este viver tem tempo contado, não o questiono. Contudo, até lá, o meu corpo obriga-me a ir mais fundo; a aceitar a dádiva do sofrimento que se mistura com a loucura e, a certo ponto, com a sensação calmante do macabro - o corpo dorido, podre por dentro. Já não me reconheço no reflexo; demasiados danos, estragos irreparáveis. Acabada.
Algo me invade, não sei se é luz ou escuridão, mas não é, definitivamente, algo novo. Prazer culpado, rancor inacabado. Fim eminente.
O sangue escorre pelas paredes, mas eu estou inteira. Por agora?
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