10 agosto, 2011

Caminho de volta

Os olhos já cegos dificultam a procura incessante por ti. A cegueira não me impede, só me incentiva.
O suor que escorre não é de agora; todas as células do meu corpo arderam até o calor não ter nada mais a consumir.
Numa palavra: sufoco. Acostumei-me às coisas belas, às coisas fáceis. Voltei a confiar na simplicidade da confiança, que é facilmente quebrada.
Sei que à minha frente tenho escolhas que precisam de ser feitas e ja não tenho receio de fazer a errada.
No fundo, acho que percebi que enquanto me achava viva, divina, estive apenas num sono profundo. Numa dormência com um fim trágico.
Sei agora que não é na felicidade aparente que jaz a imortalidade. É no cru, no horrível. É no que está morto e pestilento.
Acordei desse estado letárgico, voltei a ser humana. Voltei a prestar atenção ao que me diziam as vozes que eu não queria ouvir. As vozes que escolhi ignorar.
A minha cura não se avizinha, o antídoto está longe de ser alcançado, mas até lá, vivo. Até lá respiro outra vez, mesmo que em dificuldade.
Percebi finalmente que tudo o que já tinha corrido debaixo da ponte não eram águas passadas; descobri que apesar do tempo e da chuva que passou, há coisas que não passam. Há manchas que por muito que tente apagar, não acabam. Só se alastram...
Finalmente aceitei que eu própria me levei a esse estado de torpor, ao tentar fugir dele. Ao tentar enganar-me, ao não ver a diferença entre superar e esquecer temporariamente.
Caminhei de olhos bem abertos para esse poço sem fundo. Agora cega, sei o caminho de volta.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Adorei este texto. Possivelmente pelas razões erradas...não sei o que é preciso para se escrever algo sem esta máscara mais negra, que talvez não seja só uma máscara..até porque em última instância espero que isto seja o que gosto de chamar literatura negra que ilumina.
Não quero estar a copiar, vou usar uma frase que pode não ser a melhor mas que para mim resumiu a vontade máxima do texto e dos que vão rastejando\tentando lutar, ou até mesmo esperando até que tudo mude - e que para mim fez todo o sentido:
"A minha cura não se avizinha, o antídoto está longe de ser alcançado, mas até lá, vivo. Até lá respiro outra vez, mesmo que em dificuldade."
Gostei, em termos escritos, da negridão descrita, e as certezas tristes - mas possivelmente realistas - que colocas em cima da mesa estão excelentes. Mas claro, confírmá-las, vivê-las...não é bom para ninguém.
Três notas finais:
existem marcas que só se apagam numa linha longíqua do tempo - se não for o caso...é complicado. (Claro que a necessidade delas ainda existirem...são variadas. E nem sempre nos cabe a nós decidir o seu peso).
Segundo ponto: não é por se oscilar entre luz e trevas que se esteve a dormir. Porque existem sempre trevas piores e sempre mais luz. E as melhores fases não devem ser desvalorizadas.
(Afinal havia mais do só três)
Seja como for, terceira para terminar...Se sabes o caminho de volta, e se tudo pode continuar bem ou melhorar, volta.