Este calor levou-me à exaustão e esta solidão duradoura levou-me à loucura.
Nestas páginas secretas e escondidas do mundo eu desabo e volto a nascer. Eu morro, só para viver outra vez.
A esta hora tardia do que será em breve um novo dia, eu sonho acordada e percebo que a vida não é mais do que esta ilusão que nos ensinam. Eles fazem-nos acreditar.
Estou no escuro, na insanidade, totalmente sozinha. Totalmente adormecida.
Já escapei quando pude à prisão que me mantinha controlada. Que mantinha os meus pés assentes na terra e a minha cabeça perdida nas nuvens.
Estou mais lúcida que nunca, febril nesta certeza de que nestas simples páginas deste diário, alguém acreditará em mim. Alguém poderá corroborar a minha sanidade. Eu sei que a tenho. Tenho-a.
E as vozes? Elas dizem-me que não estou louca; as figuras à minha volta dizem que não estou doente. Talvez demasiado sóbria, atenta.
A realidade nunca me foi tão nítida, nunca esteve tão próxima... Mas preciso de ser ouvida, preciso de crença; preciso da fé de alguém.
Os anjos cantam lá bem no alto, no topo do mundo e eu continuo a sentir que ninguém me vê.
Eu grito a plenos pulmões e vocês só pensam que já não tenho cura possível, que estou para além da ajuda humana. Dizem-me que o que sobra é a compaixão divina...
Rio-me bem alto (nem sei porquê); a ligação à vida há muito que deixou de fazer sentido. Nunca a compreendi, porque durante todo o tempo em que aqui estive, senti que ninguém me percebia. Que ninguém via o mundo da mesma maneira distorcida. Que ironia é essa? Que sorte infernal me calhou?
Choro. Porque como uma lâmina que me arrasa o coração, eu percebo que ninguém está aqui para me fazer rir.
Estas grades (que me enjaulam) só servem para impedir o meu auto-flagelo iminente.
A loucura é real, o resto não existe fora de mim...
«Endless price I'll have to pay»
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