16 agosto, 2011

Inquietação

«Eu só conheço esse caminho do paraíso»

O ranger calmo da porta indica-me que saíste. A casa está vazia e eu sem ti aqui não sei o que fazer.
Sinto-me irrequieta, como se só tu me soubesses acalmar.
Nas traseiras tudo está calmo - nem a brisa se atrave a aparecer.
Nem o sol se atreve a brilhar, com medo de espantar as poucas almas que se encontram à janela.
O ar gelado da manhã causa-me um arrepio desde a ponta dos pés até me percorrer a coluna, como um choque sereno. Aqui ainda consigo ouvir algum barulho citadino; o despertar das próprias ruas da cidade, mas o som infindável que as ondas do mar causam é mais audível e atrai-me com uma força fora do comum.
Dirijo-me à porta da frente, para descobrir apenas que o vento aqui não tem receio de soprar. Incentivado pela fúria do mar, o vento sopra de uma maneira destemida e cruel, dificultando a vida aos ainda crentes que passeiam por ali.
Talvez seja estranho pensar no mar como uma entidade...Mas ele é tão complexo e pensador que sinto que ganha vontade própria. Vida. É tão profundo e misterioso, tão apaziguador e vingativo que julgo nunca o conhecer por completo. Julgo que ninguém consiga.
A maré está baixa e o lodo alastra-se pelo areal à minha frente; um cheiro pungente a maresia faz-me estremecer e acorda-me desta nostalgia temporária. Sinto até um forte sabor a sal nos meus lábios, embora não tenha saído da ombreira da porta.
Um formigueiro intenso vem confirmar o que já suspeitava - demorei demasiado tempo aqui fora e como consequência sinto as pernas dormentes. Recolho-me para dentro de casa, para o abrigo acolhedor do silêncio e do calor.
À semelhança da maré, não me sinto propriamente vazia, mas incompleta, como se também eu deixasse um pedaço do meu mar em terra firme. Em ti.
Faltas-me tu; não demores.

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