23 setembro, 2011

Equinócio

Adormeci antes do Verão chegar, acordei no Outono. Fui à janela e vi que algo indefinido paira no ar; um aroma que não cheiro, uma brisa que não sinto, uma nova luz que não vejo.
Tento pensar que algo está de facto mudado, diferente, para além de mim. Há quase um sentimento palpável de antecipação e incredulidade no ar.
Uma folha verde aterra levemente no meu parapeito e eu atrevo-me a sentir algo que não me atrevia a sentir há muito tempo - esperança. Nessa pequena folha, magoada pelo vento, vi a alegria de voltar a acreditar em algo, a vontade de deixar as minhas lágrimas a secar sob o sol que torra, mas não queima, imprimindo em mim um sentimento de calma acolhedora...
Tudo cá fora grita silêncio, revolução; inacreditável. As ruas mostram-se revolvidas, a confusão é geral e pacificamente caótica. O lixo preenche a paisagem como um sinal: o pior já passou.
Veio a guerra, veio a miséria e o ódio e tu sobreviveste; tu ainda aqui estás.
O ar encheu-se de qualquer coisa invisível que, sem eu dar conta, se apoderou de mim, deixando-me neste estado de agitação incontrolável (frenética). Senti uma segunda oportunidade a aproximar-se e decidi agarrá-la com toda a força que restou nos escombros caídos.
Mas como todas as bonanças ao longo da vida, esta quietude não veio para ficar. Rapidamente, antes que me acostumasse à paz, voltaram os pesadelos. Foi-se a alegria, voltou a revolta, o medo, a incapacidade de respirar, rodeada pelos estilhaços de conceitos ou ideias que nunca viveste.
Deram-me um pedaço do céu brilhantemente azul, só para agora, momentos passados, o tirarem. Sem céu nem sol, sem lua ou estrelas, nada me indica o caminho. Nada me dá luz...
Fiquei sem esperança de voltar a ver a felicidade que me encheu tão temporariamente que doeu; fiquei a saber que fui ingénua em acreditar que aqui podia voltar a luz da harmonia.
Adormeci antes do Verão para não sentir, para me adormecer, mas tudo acabou por me atingir à mesma; tudo acabou por me ferir, por me queimar até à minha essência mais primal. Tudo acabou por causar cortes maiores do que a minha capacidade de os sarar; golpes que me engoliram por inteiro.
Agora acordo no Outono à espera de algo que, como a maré, leve tudo embora.

Sem comentários: