23 novembro, 2011

Pulsação

Faltou-me um coração. Faltou-me a vontade de sentir.
Os trovões ecoaram no céu azul e trouxeram a desgraça consigo. Trouxeram o fim dos tempos, trouxeram o vento e a separação perpétua.
A chuva veio e alagou o que havia pelo chão, alagou as nossas vidas e pôs-nos a lutar contra a maré, contra todas as adversidades, um contra o outro.
A uma ínfima distância, consigo ainda sentir os impulsos elétricos que nos preenchem, que nos percorrem, o choque de não sentir a tua pele contra a minha. A carga positiva a atrair o seu oposto, do meu para o teu. O arrepio ingénuo que me faz querer ir a correr para ti.
Sinto-me violada...Sinto que todo o meu ser e o meu corpo e a minha mente me odeiam, por não ter feito nada. Por me ter deixado arrastar nesse trilho de lama que me guiou até este vazio onde os dias parecem nunca ser demasiado pequenos. Onde o tempo não passa, de todo. Tenho vontade de arrancar qualquer pedaço de mim que não faz cá falta, que apenas se encontra a mais; não sei se é dor física, não sei já o que é dor, mas este sangue não devia correr em mim.
Sangue do meu sangue, foi no sangue partilhado que nos unimos, primeiro tu, depois eu. O sabor levemente ácido do metal na minha boca, existências para sempre partilhadas.
O para sempre não existe, e contudo, podia jurar que esse momento vai viver para além de nós. Vai viver na minha memória, vai viver na tua, vai ficar marcado no tempo de nós. Há um ser que já não pertence a ninguém, mas que nos contém em si; é um ser que paira no ar, à nossa volta, sempre a causar danos irreparáveis em mim...É essa força invisível, mas imparável, que me puxa, inevitavelmente, para ti. É essa luz sombria que me atrai, que me guia pela escuridão até ver o teu rosto. Não sei com que energia (não restou nenhuma) me consigo manter afastada. A maré veio ajudar, porém, todas as células em mim lutam para não eclodir na tua direção, que me chama a todas as horas.
Algo de outro mundo, sobrenatural, que me impele para ti, algo que não sei nem quero explicar...Algo que é pura eletricidade, processos químicos que tu despoletas no meu corpo. É a vontade de caminhar até ferir os pés, até rastejar no mesmo sangue que tu provaste, só para sentir o toque quente da tua mão na minha.
Faltou-me um coração. Não me pertencia, era o teu.

Sem comentários: