«Adão, inocentemente, admitiu que fora a sabedoria de Eva, e não a sua: "Ela deu-me o fruto da árvore, e eu comi."»
Alto, belo, despreocupado, e fundamentalmente, inocente de uma forma que não se pode fingir. Ingénuo de uma forma enternecedora, preciosa.
Cansado de não conseguir decifrar, cansado de não escolher um caminho, continuas nesse estado desassossegadamente intemporal onde vives rodeado de um turbilhão humano, que após palavras e gestos incansáveis, nunca pára. Nesse leito imortal e dourado tens à tua volta sentado o Amor, a Paixão, a Tentação, a Luxúria e o Desejo, todas as mulheres da tua vida. Lentamente, nessa dança irreal e doentia, vão-te asfixiando segundo a tua vontade, até as pequenas coisas te levarem para longe desse mundo.
O Amor representa em si tudo o que é importante sentir, viver. Contém em si a beleza da felicidade e a tristeza da desilusão, mas sem ele, estarias perdido. Ele é algo que, apesar de tudo, nunca mudará; ele não se altera, passando por metamorfoses várias, mas deixando sempre a sua essência a pairar no ar sobre ti.
Paixão, caprichosa e inconstante, desperta em ti a vontade de não saber o que se quer. Num instante amas, no outro odeias com uma calma intensamente natural, pelo simples facto de poderes ter o que queres. Mantida a uma distância sempre razoável, ela vai e volta consoante a tua vontade, e está sempre pronta a servir de fonte para a tua eterna sede de afeto.
Misteriosa, atrativa e sempre a uma distância segura para não ser apanhada (inalcançável), temos a tua Tentação. A voz que te sussurraria segredos condenáveis, se quisesse; voz que, onde quer que esteja, faz com que a tua cabeça se vire à sua procura, mesmo no meio do nevoeiro. A sensação geral é a de querer, é a de ter, embora saibas que não é real; é a sensação de querer possuir o que mais ninguém pode, é o desafogo de encontrar um corpo quente sempre disposto a ouvir, mas não a adorar. Ela que não finge, que não se rege pelas tuas leis, parecendo-te apetecível só porque não a podes ter.
A Luxúria que transpira exuberância, excesso, sensualidade para a tua vida, como uma brisa suave e inevitável que não queres recusar encaixa-se na perfeição na espiral levemente auto-destrutiva que é a tua vida. Respira confiança, a mesma que te faz desejá-la; respira simpatia e felicidade, qualidades que, como qualquer fragrância hipnotizante, servem para te atrair. Prende-te na sua teia intoxicante de aparência e, com o teu consentimento, não te deixa mais sair. Nunca mais.
No fim de tudo, independentemente do resto, o teu Desejo derradeiro conjuga-se na vontade de querer ter o que, acima de tudo, nunca será teu. O cobiçar de carne que após o toque se encontra fria como mármore, a que desperta o apetite voraz de desejar sempre mais, quando o nada é a única realidade que conheces. Passas assim metade da tua vida, a ansiar pelo dia em que a barreira do intocável se desvaneça, para poderes alcançar o teu paraíso.
Nesta atmosfera em que o tempo passa muito, muito lentamente, vês à tua volta uma grande parte do teu ser, imortalizado pelas sensações que tens e que nunca irás ter, pelos sentimentos que demonstras, e pelos que escondes no teu interior mais profundo.
E, ainda que sejam a causa da tua morte rápida ou indolor, nunca poderias deixar ir as cinco coisas que dão ânimo à tua vida, que te mantêm o coração a bater, dia após dia. Nunca poderias abdicar do que, no fundo, não é teu, embora estejas viciado a um nível quase impercetível. A necessidade é demasiada, o querer impõe-se demasiado alto. E assim continua o ciclo decadente que um dia acabará por te destruir.
«Por um só homem entrou o pecado no mundo»
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