07 julho, 2011

Quinto Elemento

Sorrio enquanto ando. Sorrio enquanto pairo no ar.
À minha passagem cresce o vento. Ele sussurra-me o que tenho de saber.
Eu faço parte do rio que ouço correr; eu faço parte dos montes que vejo em meu redor.
Eu caminho e sinto a passagem do tempo. Ele muda consoante a minha vontade.
Sou uma força da natureza, nada me pode parar ultimamente.
Temida por muitos, considerada uma maldição, outros pensam em mim como uma benção, algo a que recorrem em tempos de miséria.
Rezam para que eu chova, rezam para que eu vos apareça com a minha passagem que só traz caos e destruição. Nem tudo é mau...
O fogo que cresceu no meu coração perdeu todo o controlo, espalhou-se rapidamente, sem o meu consentimento. A tempestade que cresceu a seguir teve simplesmente o intuito de o apagar. Falhou.
O fogo que tu começaste no meu coração foi-me matando aos poucos. É capaz de te matar a ti...Não fazes a menor ideia do que iniciaste a partir daquela altura, não podes compreender como é para mim.
É impossível perceberes como é um coração magoado, um coração partido. A fúria é impensável, a necessidade de encontrar conforto é demasiada. É perigoso.
O furacão cresceu e tu não notaste. Ele foi crescendo lenta e impiedosamente e só quando eu passar de novo por ti é que vais finalmente perceber.
Se eu te tentasse explicar com todas as palavras existentes, tu não conseguirias, ainda assim, compreender. Vais ter de sentir, vais ter de ler nos meus olhos côr de fogo o ódio e mágoa esquecidas. Já nada vai importar aí. Vingança já não terá a mínima lógica, já não vai trazer-me paz à noite, quando não consigo dormir. Quando não consigo fechar os olhos porque a imagem da tua realidade me arde, cravada na pele. Inesquecível.
O sol que brilha em mim diz-me que tenho de esquecer isto. Diz-me que já chega de esperar, que já chega de sofrer, de imaginar, de ficar em extrema expectativa. Basta de viver como tenho dito que vivo. Basta disto a que chamo viver. Sinto-me vazia, às vezes. Todos nós sentimos o vazio que parece infinito, em alguma altura.
Sinto que nem respiro, por vezes. Sinto que nem consigo já ouvir o meu ténue bater do coração. Obrigo-me a senti-lo, obrigo-me a ouvi-lo. A aceitar. A fechar os olhos e seguir em frente.
Sei que até aqui caminhei confiante, caminhei tendo o mundo todo na minha mão. Percorri este trilho, esta passagem de pedra esbatida como quem controla o destino. Como quem controla o tempo e a vida. No entanto, de vez em quando, olho para trás. Olho por cima do meu ombro, para me certificar de algo. Como se não tivesse todas as certezas na palma da minha mão. Como se precisasse de apoio, de confirmação. Como se sentisse uma presença, um olhar em mim.
Deixei-me arder e depois, calmamente, deixei o fogo ser extinto. O rio parou de correr, estancou. O sol escondeu-se atrás da lua; o vento morreu queimado. A chuva perdeu-se no céu e eu deixei-me ir.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Amei; amei: gostei muito. Escrevo desta forma porque vi no texto três partes. A primeira para mim foi a melhor, ao contrário do que se poderia pensar. Faz lembrar O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro. Está lindo e perfeito. E uma das frases iniciais da mudança no texto para melhor é a melhor de todas:
"Temida por muitos, considerada uma maldição, outros pensam em mim como uma benção, algo a que recorrem em tempos de miséria."(perfeito)
("Nem tudo é mau...", se isto é ironia está lindo.)
"...e só quando eu passar de novo por ti é que vais finalmente perceber." Adorei.
"O sol escondeu-se atrás da lua; o vento morreu queimado." Cereja no topo do bolo.

Keep going...
...spiral out.