11 julho, 2011

Inside Out - III

Os solavancos não me entorpecem. Só me embalam nesta velha cantiga que o tempo e a distância criaram juntos.
Para trás deixo a poeira agora assente depois da tempestade, deixo as lágrimas que foram derramadas até aqui. Deixo a frustração e a infelicidade que me vinham a perseguir por algum tempo. Deixo o que não é preciso.
Fecho os olhos temporariamente e finjo que sou outra pessoa qualquer, apesar de eu própria. Por meros momentos, eu encaro o mundo com uma perspectiva diferente, sendo quem eu quiser.
Curva atrás de curva, estrada por estrada eu vou-me perdendo lentamente, num labirinto de pensamentos, de risos, de notas musicais...Num misto de azul com verde até perder de vista; num misto de pureza e alegria com o sentimento mais verdadeiro de todos: aquele que nasce do nada, só porque o coração manda.
Cheguei ao ventre do que é belo, do que é real - a minha verdadeira casa. O meu refúgio, o meu tipo de solidão e liberdade. O meu local sagrado que me impede de acabar ou implodir com todo o veneno que corre por nós e à nossa volta.
Aqui a realidade sou eu que a invento ou ela inventa-se por mim. Não interessa. Ela é o que eu desejo, ela molda-se para mim, dando-me espaço para ser novamente feliz.
Inalo este odor que me traz mais recordações do que sentimentos, mas sinto-me quente. Sinto-me acolhedoramente rodeada de amor, protegida dos males do mundo.
Aqui sinto que nada me pode magoar, mesmo que por vezes o perigo espreite nalgumas esquinas ou atalhos; aqui nada me pode magoar porque isto é o sonho que criei, embora não o seja. Este é o local que me permite ter a calma e a paz do universo dentro de mim, brindando-me com a capacidade de imaginar muito claramente um céu azul, um sol brilhante e aconchegante que me faz sorrir sem fim ou o pulmão verdejante que possibilita toda a vida.
Se tiver de partir, levo pelo menos a certeza de que aqui estive; levo pelo menos a certeza de que valeu a pena voltar às minhas raízes quase abandonadas, às minhas raízes autênticas.
Sei que valeu a pena o esforço de me encontrar, nem que primeiro me tenha que perder. Valeu a pena percorrer montes e vales, rios e serras e dezenas de minutos para chegar ao meu lar.
Se tiver de partir, levo pelo menos uma leveza no coração: sei de onde vim, sei onde estive e sei, sobretudo, que irei voltar.

Obrigada Fundo do Lugar, mais uma vez foste a minha casa!

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