«Mesmo enquanto lutava para manter a mortalha cinzenta em meu redor, [...] era como agarrar-me a pedaços de nuvens, que se esvaíam em névoa por entre os meus dedos. Eu podia sentir a luz a vir na minha direção...»
Vejo esta queimadura na minha mão e as lágrimas cessam. Estas marcas exteriores representam a história da minha vida, acompanham o que se passa no meu núcleo.
A luz intermitente e fraca brilha na escuridão do universo; ela já não representa o ideal de esperança que habitava em mim, ela já não encarna o que há de bom no mundo - a felicidade, a ingenuidade, o sonho, a magia. Os restos disso ficaram no corpo antigo.
O que me interessa por agora é o escuro que ilumina o meu caminho há algum tempo...o preto nem sempre é luto, nem sempre é dor. E isto, à semelhança da cor, não é tristeza nem tão pouco mágoa. É o vazio constante, é a dormência iminente que está sempre à espreita, decidida a instalar-se. As lágrimas afagam o ego, dão-lhe espaço para respirar; trazem alívio temporário que se converte numa paz exausta, cansada.
Mortifico a alma para que o corpo finja arrepender-se, revivo a agonia da lembrança só pelo facto de ter essa necessidade de sentir; afasto a luz esporádica que surge, tento manter a distância suave do calor, da alegria, dos que importam, porque sei que facilmente me tirariam deste poço onde me encontro, levando consigo a noite constante, dissipando-se.
Tenho de agarrar-me às trevas com todo o meu ser, devo permanecer neste inferno pessoal durante mais algum tempo, até já não ter essa vontade. É algo inato, indiferentemente útil e preciso para mim. É o que me mantém a salvo.
Os cortes, as feridas, as queimaduras...elas só representam a mudança forçada que me encheu - tiraram-me tudo o que tinha de melhor, a minha essência preciosa, o que me enchia de luz. O que valia a pena em mim. Não restou nada, roubaram o que não havia, o possível e o impossível. O puro, o são desapareceu, já não anda por aqui.
Chegaram as trevas, a luz apagou-se.
[Frase destacada: José Saramago]
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