
«Deliver me»
Fecho os olhos e imagino-me aí. Imagino-te comigo, nesse lugar que já existe na minha cabeça.
Enquanto não vir nada, o tempo está parado. Dá-me um momento para fingir que não estou aqui, sozinha. Dá-me um pretexto para fugir ao assunto da distância, do tempo, do vento...Não estou de facto aqui até o sol chegar e me afogar na sua luz cristalina; até o sol me despertar para a realidade - estou presa e não posso sair, por agora.
O choque do contacto com a água fria acorda-me deste torpor imaginado (não estou lá nem cá, não estou viva nem morta), desta fantasia verdadeira que me deixa a meio caminho por qualquer direção que escolha. Não sou bem-vinda, não sou aceite, mas se tento em vão mudar o meu rumo, lá estão elas, as mãos que me prendem, as garras que me ferem até sangrar, impedindo-me de andar.
Capricho ou vontade firme. Ir ou voltar. Sempre em roda viva, giro em volta destas escolhas, à tua mercê, à espera que seja feita a tua vontade (apenas na terra). Mudo de opinião, mudo de escolha, mudo de pensamentos, mudo de papel, mudo de corpo. Acho que mudo por inteiro, dou voltas e voltas ao mundo, e quando finalmente paro para repousar, encontro-me no sítio onde estava. Sem saber. Sem agir. Sem me mover. Sem fala, por fim. Se consigo, por acaso, libertar-me e começar o caminho de volta, de novo me vejo rodeada pelas vossas sombras, pelos vossos olhares que me atormentam, que me incitam a voltar ao meu lugar. Que me assombram com recordações, palavras ou gestos, com promessas por cumprir...Aprisionada por uma eternidade, porque sim.
Observo os feixes de luz e pó que entram pela janela, que caminham pela abertura da alma: aqui a luz ocupa todo o ar que respiro, faz o tempo silenciar-se, leva tudo o que de mau há no mundo; não há outra vontade que comande a não ser a do sol, não há outra verdade que não a do momento. Aqui, neste momento, este é o futuro. Isto é tudo o que importa, tudo o que me deve interessar, é tudo o que há. Perco-me nos labirintos dos raios e imagino uma infinidade de opções, de riscos que não tomei, de riscos que podia ter tomado. Vejo as lágrimas que ficaram por chorar, vejo os risos que ainda estão por vir, vejo a esperança que será eventualmente recuperada. A escuridão nunca é eterna, nunca é definitiva, nunca será total, mesmo quando tudo parece perdido.
Eu não quero ficar aqui. Já não, pelo menos...Deixem-me ir, de uma vez; imploro-vos, rogo-vos que me ouçam...Eu não quero ficar. Deixem-me ir.
1 comentário:
Se há uma coisa que eu absolutamente adoro na forma como escreves é o modo como usas os sentidos. Aliás, como os fazes transparecer em palavras honestas. Torna-as intensas, até ao ponto de arrepiar a alma. É-te algo muito natural. É maravilhoso! Makes me proud of you. :')
- Rii. :3
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