11 setembro, 2009

O Passageiro

Olho pela janela. Vejo os quilómetros de estrada serem percorridos.
Sentas-te à minha frente. Eu fixo o olhar em ti. Pareces preocupado, mas ao mesmo tempo, nada te afecta. Também olhas para mim e dizes: - Olá.
-Olá - respondo eu.
Ficamos assim a olhar-nos.
Levantas-te e sais do compartimento. Minutos depois, regressas ao teu lugar. Aonde pertences.
Conversamos sobre coisas que aparentemente não interessam, mas ao mesmo tempo, parece que me queres dizer algo realmente importante.
-Isto é algum teste? - pergunto.
-Porquê?
-Tem de ser, porque senão, nunca poderia continuar aqui.
-Isto é aquilo que tu queres que seja. E calamo-nos.
O silêncio reina durante algum tempo e depois volto a perguntar:
-Isto é um teste ou não?
-Achas que é? Queres que seja?
-Ainda aqui estou não é? - pergunto. Sorris e afirmas:
-Sê paciente. Sê paciente.
Olho pela janela. Vejo o tempo mudar. Aproxima-se uma tempestade. Levantas-te novamente.
Entras e sais quando te apetece, mas eu tenho de ser paciente? Assim alimentas-me a revolta...
Regressas ao teu lugar. Teu.
Olhas para mim. Dizes finalmente: -Tens de esperar. Sê paciente!
Sais do compartimento e vejo-te pela janela, na plataforma, onde te perco de vista.

Anos mais tarde, no mesmo comboio, no mesmo compartimento, onde viajei dezenas de vezes, em vão, para te encontrar, tu apareces. E eu estava a olhar para a janela.
Sentas-te e sem rodeios perguntas a sorrir: -Aprendeste a esperar? A ser paciente?
-Sim.
Abanas a cabeça:-Não, não!... Se fosses paciente não o dirias. Mas ainda sentes curiosidade de saber. Por isso dizes que és, para que eu te possa dizer. Assim sendo, não te posso contar.
Essas palavras soam na minha cabeça como um terrível sermão, ensinamento.
Olho pela janela o resto da viagem. Quando chegamos à plataforma, levantas-te e dizes a olhar para mim:
-O que desejas tanto saber, está dentro de ti. Já o sabes há muito, muito tempo. Mas conseguiste! Foste paciente.
E sais em direcção à estação movimentada.

2 comentários:

Diogo Garcia disse...

Ao contrário do que pensaste inicialmente (e confesso que até eu, dado que diálogos que me marcam são muito poucos, pois julgo dificil encontrar as palavras certas para as ideias certas numa conversa, tentando encontrar o equilibrio certo. Um dos exemplos é o do Fight Club, ou diálogos entre mais sábios e os disciplos como exemplos de Jesus Cristo, Sócrates (a reter : o filósofo), Ghandi, etc's.). Mas tu conseguiste criar uma conversa simples (bem camuflada de dificuldade) em algo útil ao género de uma boa parabola.
Se por um lado odeio a passividade tento por outro lado distinguir passividade de capacidade para esperar. Por isso acho que tens razão no teu texto. Acho que a espera, regra geral, traz melhores resultados do que agir sem pensar ou agir por agir.
Mais uma vez, e isto é muito importante na escrita, dou-te os parabéns por mudares o rumo, ou neste caso dares um fim do qual ninguém espera. É bom sermos constantes em ser bons mas é ainda melhor ter a capacidade de surpreender os outros.
Continua assim, não te imagino em melhor caminho, estás no certo.

Rita disse...

adorei este tambem Joana ! como o Diogo disse , o melhor é saber esperar em vez de falar ou agir sem pensar!
beijinhos querida, continua assim :)