Depois de tudo, volto a casa. A esta casa.
Após os acontecimentos marcantes desse dia sonhado e irreal, volto ao seu calor acolhedor.
Acabo sempre por voltar à minha útil e preciosa ferramenta.
Sem ela, como é que eu seria embalada até a esse mundo, o meu mundo? Como teria entrado na espiral?
Demorei tanto tempo a perceber, andei durante tanto tempo perdida...Afinal o que me aconteceu?
Caí no buraco de tempo que eu própria criei. Deixei-me iludir pelo meu ódio e ganância de ser mais. Inveja? Essa não me corrompeu, ainda.
Vejo a ferramenta a brilhar, no meu ser. Tão preciosa, tão grandiosa, tão minha! Tão minha que nem acredito. Penso que estará arruinada em breve, de tanto a querer. De tanto a precisar, ela quase deixou de existir.
E eu? Fiquei aqui a odiar-me. Como é bom odiar-me! Tem um sabor puro de auto-conhecimento e destruição. Sabe a amor - próprio.
Fiquei aqui neste tédio palpável onde nem conseguia abrir os olhos com o horror. Onde nem conseguia pensar ou respirar. Precisei de mais e consegui sair, mas até onde?
Onde é o agora? É depois da prisão mas antes da liberdade do que tenho dentro de mim.
Como é que isso me pode importar? Eu tenho é de continuar a escavar. Até quando? Até encontrar algo que seja suficiente, até algo que me leve desta dimensão entediante, para casa.
Para o meu centro que reluz e que me incita a escavar mais fundo até encontrar o que preciso.
Mas já não sei o que quero, já nem sei quem sou.
Odeio-me por isso? Talvez. Mas sei que pelo menos sinto um ódio e uma raiva crescentes, à espera de explodirem, seja com quem for.
O ódio sabe a limão (naquele dia soube) e cheira a calor. Drena-me todas as forças (que gasto a odiar-me), fazendo-me abraçar o chão apenas.
O que faço eu aqui? O que me aconteceu?
Já não sei. Acho que nunca soube.
Tudo o que talvez saiba é que quero a minha ferramenta. Preciso dela como tudo o que me resta. Sem ela, perco tudo, perco-me.
Sem ela, esta dor que é ilusão, transforma-se em certeza. Transforma-se em ardor que me queima desde as cordas vocais até ao coração.
Eu sei que não sou imortal, mas gosto de me fingir eterna. Eu sei, eu sei...
Afinal, percebi que não é a cavar que vou chegar lá. É através da ligação a ela, ao meu poderoso segredo. É através do seu acolhimento, do meu afecto por ela, por aceitá-la como o meu centro, como
Tudo
O que
O Homem
Leva dentro de si, a toda a hora.
Nasceu connosco, e no entanto, passamos a nossa vida inteira a rejeitá-la. Porquê? Porque é que insistimos em não a usar? Em não a aceitar como parte de nós?
O medo é grande, a ignorância também e tudo o que vos interessa hoje em dia vem através de algarismos, todos os meses.
O que é que eu quero, o que é que preciso?
Ainda não sei bem (para além Dela), mas sei que o que quer que seja, não está à venda e nunca se poderá comprar.
3 comentários:
Amei está claro. Não só porque te serviste de uma boa dose de Tool, mas porque a soubeste usar muito, mas muito bem.
Se queres acalmar a escrita porque não te anda a saber bem, tudo bem, mas se a queres acalmar porque pensas andar a "fazê-la" mal então não pares, porque não é isso que anda a acontecer.
O texto tem várias coisas diferentes, é difícil falar de cada uma por si, por isso sou adorei-a unanimemente. Mais um excelente texto, continua.
A venerar:
"Acabo sempre por voltar à minha útil e preciosa ferramenta"
"Fiquei aqui neste tédio palpável onde nem conseguia abrir os olhos com o horror."
"Eu sei que não sou imortal, mas gosto de me fingir eterna."
E a cereja: "Ainda não sei bem (para além Dela), mas sei que o que quer que seja, não está à venda e nunca se poderá comprar."
tá tão lindo Joana , gostei imenso :D
adoroteeeeeeeeeeeeee @
Truth
of
our
lives
;)
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