15 fevereiro, 2016

27-2-2014

Foi num daqueles momentos que não consigo explicar.
Começou como sempre - com uma ideia seguida de uma infindável linha de pensamentos.
Subitamente, tinha já o amor em mente, o que ele significa, o que é que implica, como nos muda.
Lembro-me de estar absorta nesse monólogo constante e irreal que me levou por breves instantes a sítios que eu nunca vi; lembro-me de reparar na maneira como o céu estava, tão escuro, mas ainda a contrastar com as nuvens obstinadas e pesadas de água.
Pensei que a sua beleza era avassaladora, pensei no espectro de coisas bonitas que a vida tem (simplicidade) e foi assim que o momento aconteceu.
Em andamento (talvez só de pensamento), percebi várias coisas que talvez nunca tivesse percebido se essa combinação de pequenos algos não tivesse acontecido.
O céu a transmitir uma calma quase instável, a música que me guiou pelo túnel escuro que desembocou na luz de outro dia, de outro tempo e os pensamentos que pensei...tudo isto levou a um daqueles arrepiantes minutos em que tudo, TUDO faz sentido, em que não há medo sequer da morte, porque tudo é possível e infinito - até eu me tornei infinita, por escassos segundos. Estava livre, completa.
O momento veio, deixou a sua impressão no meu centro e depois seguiu com o vento. Deixou-me e o feitiço quebrou-se como um vidro que se estilhaça ao tocar no chão. Acordei e era de novo eu, finita, mortal.
Mas mesmo com esta repreensível finitude, recordo esses preciosos momentos em que o tempo corria devagar, e eu, era infinita.

09 maio, 2015

My Father's Father

Fazes-me tão triste...tão incrivelmente triste.
No teu verdadeiro ser despido de preconceito,
Banhado de inocência, ainda não estás corrompida. É estranho pensar que uma parte de ti está fora de perigo.

Só sonhas. Não ousas alcançar o céu e a lua.
És simplesmente. Só colhes os frutos que são teus. Há silêncio e uma estranha melodia no vento. São as vozes que nunca foram ouvidas a sussurrar.

Ver-te assim, tão viva, tão pura corta-me o coração. Faz parar a respiração, faz-me imaginar todos os que nunca foram vistos, todos os que ainda aí estão. O isolamento é assombrador, a solidão esmagadora.

És a simplicidade, as raízes da nossa infância antiga. Foste tu que nos viste crescer, que nos deixaste ir quando chegou a hora. E aí ficaste, na penumbra, no esquecimento. O tempo não parece passar por aí.

Talvez nunca tenhas visto o oceano. Talvez nunca tenhas visto o mundo lá fora, longe do teu refúgio. Se calhar, nunca viste a terra vista do espaço...Talvez nunca venhas a ter tudo isto que aqui é tão normal.

Mas continuas erguida, imponente. Impões o respeito destes que nunca irão conseguir absorver-te por inteira. Fazes-me sentir esta melancolia e saudade que não sabia existirem. Fazes-me reviver essa vida que não penso ter vivido.

Fazes-me tão triste, tão triste...Não te consigo perceber, não te consigo ter de verdade e não consigo manter-me longe. Fazes-me triste porque és a coisa mais bonita que já vi, mas fazes parte de algo tão feio que me faz esquecer-te.

Fazes-me tão triste...Não te percas, por favor.

07 março, 2015

Summertime

Um torpor dócil, familiar e seguro.
Um torpor repleto de leveza,
Mas que é pesado ao mesmo tempo.
Vem seguido de um vislumbre do mundo
Que se avizinha. Tempo que ainda é miragem.
Risos distantes, palavras ecoadas pelo vento.
O calor palpável que rodeia a azáfama destas
Ruas estreitas e tumultuosas.
A leve brisa que me traz momentos invisíveis
A todos, menos a mim. Eu consigo vê-los agora
Mesmo à minha frente.
É como uma velha cantiga que me embala.
Deixa-me ser quem sou, sentir o que desejo.
Leva-me a divagar por sítios onde nunca estive,
Onde talvez nunca estarei.
Mas nestas noites de céu azul,
Em que as sensações brincam à flor da pele,
Eu sinto-me quase infinita. O mundo inteiro vive através de mim.

E eu estou em paz.

08 outubro, 2014

Last Song I'm Wasting on You

«And if I tell myself that nothing's wrong, this doesn't have to be a sad song»

Estou parada, imóvel.
Estou no centro de tudo, rodeada por todos.
Todos me vêem, mas alguns não reparam em mim.
Sinto-me exposta, vulnerável. Sinto o seu escrutínio,
Envolta apenas por uma fina camada de vidro.
Tão frágil, que o mais ligeiro toque da minha impressão
Digital o faria quebrar. Acho que já estalou...
Desistir é difícil. Muito mais impossívl do que continuar a tentar.
Torna-se doloroso tentar apagar o que está incrustado no meu ser.
O meu espírito tenta manter-se inabalável, noite após noite.
Tento manter-me à tona, bloquear o que houve. E o que restou...
Mas estranhamente, uma parte de mim vai contra a minha tentativa
De auto-preservação. Uma que não quer que eu esqueça,
Que siga em frente. Não me deixar ir em paz.
Sinto o fogo muito perto, o fumo a sufocar-me. As labaredas
Em volta do meu pescoço, não me deixando respirar.
Isto não foi escolha minha, foi-me imposto. Envolveu-me sem dar conta.
O buraco negro foi crescendo e afogando o barulho lentamente.
Só sobrou o silêncio, o vazio. O negro engoliu toda a luz, toda a possibilidade.
Toda a esperança...Até essa foi embora.
Ignoro os terrores noturnos, a ideia que não consigo sacudir de mim.
Saio à rua e respiro fundo - não há fumo, não há fogo. Não há negro nenhum.
Se aprendi a lição desta vez, não sei. Se terei paz, só o futuro dirá.
Mas penso que desta vez vou reescrever este final que tão bem conheço.
Não o quero assim, nunca mais. Vou dar-lhe o rumo que merece, que precisa.
Vou dizer a mim mesma que não vou ter saudades suas, que não estava destinado.
Vou continuar o meu caminho, um pé depois do outro.
Vou reparar o vidro à minha volta, vou deixar de ser, de estar,
                   Em exposição.

06 outubro, 2014

(Síndrome de) Coração Partido

Um coração despedaçado também bate.
Ele está assim por muitos motivos.
Alguns não merecem ser mencionados...
O meu coração está em vários locais ao mesmo tempo -
Onde reside o fascínio por explicar,
Onde reside a liberdade.
Onde reside o amor...
Então se assim é, como posso ser una?
Como posso ser inteira, uma só?
Acho que sou várias; quero estar em
Toda a parte em simultâneo. Quero percorrer
As mais longínquas falésias, as mais distantes
Ribanceiras. Quero ver montes e vales,
Quero estar rodeada de neve e nos prados solarengos.
Quero ver tudo e todos. Quero absorver o mundo inteiro,
Num só delicioso e inesperado trago.
Quero conhecer, quero explorar, quero viver.
 Acima de tudo, viver.
Mas isto escapa-me, é demasiado para se querer.
Nunca o poderei alcançar.
E fico assim, o meu ser esfumando-se lentamente,
Tornando-me em areia, em pó. Despedaçando-me
Para deixar de existir.
Imaterial, incorpórea, etérea. Desfaço-me em vestígios
Do corpo que tive. Da cinza à cinza...
Desfaço-me para para voltar a ser inteira.
Para ser líquida, água pura.
Espalho-me por todos os recantos, alastro os meus longos
Membros e escorro sem parar.
Chego ao fim do mundo e volto a desmanchar-me, num
Ciclo que é constante, inevitável.
Torno-me assim poeira, para voltar a ser inteira. Para voltar a ser, eu.

18 setembro, 2014

Horas Mortas

In the dark, small hours, I listen.
It is quiet and peaceful. And sad, somehow.
I feel every little beautiful thing fill me up and drain me out, leaving me alone.
So utterly alone…But it also makes me happy in a way.
It’s like the world is still, though I know it’s still moving.
I know right now there are millions of people living their lives.
But I am here, in the midst of the dark, surrounded by no one.
This stillness is poetic in itself. There is something magical about it, something awefully precious.
It feels like the world is even bigger…Not exactly scary, but particularly intimidating.
It feels like I’m not even real. I lay here and I listen to this saxophone…
But I’m not really there. I’m somewhere else, someone else.
In this moment, I see the lives I haven’t lived. The lives I could not have.
I feel like I ought to wake up soon – this can’t go on indefinitely.
It’s like a dream that keeps happening. It keeps happening to me. And it won’t go away.
Does it feel right? I don’t know anymore. But it feels…foreign. It feels surreal sometimes.
Other times, it’s like I came back. And it’s me again. I’m me, again.
Everything is familiar, everything shifted back to the way it was.
I recognize the surroundings. I called it home, once.
In these dark, small, so incredibly patient hours, I listen.

I listen, and I wonder. 

11 agosto, 2014

Candelabro

"I'm holding on for dear life" 


Olho para baixo. A minha visão torna-se turva, a altura vertiginosa. 
Balanço de um lado para o outro até deixar de sentir. 
Aqui em cima a desilusão parece esfumar-se lentamente - talvez porque estou longe de toda a gente.
Se descer, se tentar voltar à vida real, sei que vou arrepender-me. Tudo irá voltar numa espiral desastrosa.
A dor, a incerteza, o caos da dúvida, a ânsia de ser livre. Não quero encarar essa vida. 
Não consigo. Por isso fico aqui, de olhos fechados, tentando ignorar o que me resta. 
Os meus sonhos já não são o que eram. Agora são assombrados por uma réstia de passado que me atormenta. Estarão a tentar dizer-me algo? Estarão simplesmente a tentar confundir-me? Guiar-me pelo caminho errado, levando-me a cometer um erro, um passo em falso?
Aqui é tudo estranhamente silencioso. Parece que o tempo não existe, que tudo está parado, exceto eu. Eu continuo a mover-me, mesmo sem querer. Sem saber como. E há uma calmaria total que me embala, mas que me incomoda. Isto não pode durar para sempre. Irá acabar num momento doloroso, abrupto. Em queda quase-livre. Mas não é a descida que me assusta, a queda em si. É o momento em que aterro no chão. Aí é que tudo acaba. 
Sei que não posso ficar aqui para sempre, ignorando os meus demónios, negando que eles existem. Sei que não posso continuar a esconder-me por trás da luz que me cega e do vento que me mantém em paz. Mas não quero encarar a alternativa. Ela enche-me de angústia, de um sentimento de impotência. 
Não há nada que eu possa fazer para parar o tempo. Nem aqui em cima o consigo fazer. 
Ainda é cedo...Mas tento respirar fundo e abro os olhos. Luto contra o meu instinto, luto contra a minha vontade. Isto tem de ser feito. Não quero viver na mentira, não quero viver na ilusão. Não sei ser assim, cega. Por isso sei que chegou o momento. Empurro o receio e a tristeza para um sítio obscuro - não preciso de lidar com eles agora. Mais tarde, talvez.
Olho para baixo e consigo ver tudo. Até o que não quero ver.